'O Melhor Está Por Vir' tem amor entre dois homens e ótimo elenco

SÉRGIO ALPENDRE

FOLHAPRESS - Filmes sobre amizades masculinas existem aos montes na história do cinema. O crítico Robin Wood apontou os códigos desse subgênero em seu clássico texto "From Buddies to Lovers": a viagem, a marginalização das mulheres (vistas meramente como apêndices), a ausência do lar, história de amor masculina (com ambiguidade), personagem explicitamente homossexual e morte.

Dessas seis características, apenas uma, a do personagem homossexual, não está claramente presente em "O Melhor Está Por Vir", novo longa de Alexandre de la Patellière e Matthieu Delaporte. Ainda assim, existem diversas sugestões de homossexualidade, e até mesmo um libelo pela diversidade sexual numa cena de jantar íntimo.

Vemos dois amigos de infância diferentes em tudo. Arthur Dreyfus (Fabrice Luchini) é um cientista renomado e bem sucedido que é incapaz de fazer qualquer coisa de errado ou ilegal. César Montesiho (Patrick Bruel) é o oposto. Diverte-se ao burlar as leis e se beneficiar de pequenas falcatruas.

Numa dessas, César utiliza o cartão de saúde do amigo Arthur para uma radiografia. A confusão começa quando o exame revela um câncer em estado avançado. Mas quem recebe a notícia é Arthur, já que era o seu nome que estava no envelope.

O rosto de Luchini no momento em que é informado é impagável. Ele consegue nos passar um sentimento de perda e de tristeza pelo amigo que acaba por nos convencer totalmente de que veremos uma história de amor entre dois homens.

Arthur sabe que César tem cerca de seis meses de vida, mas na hora de contar para o amigo, acaba se embananando tanto que César pensa que é Arthur quem está com os dias contados. Ele passa então a morar com o amigo e planeja acompanhá-lo em tudo que ele gostaria de fazer, o que envolve longas viagens.

De amigos a amantes, ou quase isso, porque apesar de Arthur ainda amar sua ex-esposa, casada agora com outro, e de César correr atrás de qualquer mulher que encontrar pela frente, os dois se bastam. Eles se amam e vivem praticamente um para o outro.

O que não quer dizer que seja um filme misógino. As mulheres simplesmente não interessam tanto a eles, a não ser como comprovação de status (no caso do mulherengo César) ou normalidade afetiva (no caso do certinho Arthur).

Junta-se à comédia de erros sobre o amor entre homens uma considerável porção de autoajuda, que vai se acentuando à medida em que o tempo passa, culminando no melodrama escancarado dos minutos finais.

Duas características, então, fazem de "O Melhor Está Por Vir" um bom filme. A primeira é a excelência dos atores, com Luchini brilhando mais uma vez (como já cansou de ver quem o acompanha desde os filmes de Eric Rohmer) e Bruel espalhando carisma com seu sorriso meio torto, algo entre um Jean-Paul Belmondo e um Daniel Auteil.

A segunda é a coragem de se abrir ao melodrama, sabendo que esses dois atores segurariam a emoção e a alternância de humores da narrativa, auxiliados por um elenco de apoio bem escolhido, com destaque para a franco-marroquina Zineb Triki, no papel de uma paciente que se curou de câncer.

O MELHOR ESTÁ POR VIR

Produção França/Bélgica, 2019

Direção Alexandre de la Patellière e Matthieu Delaporte

Elenco Fabrice Luchini, Patrick Bruel, Zineb Triki

Quando Estreia nesta quinta (5)

Classificação 10 anos

Avaliação Bom