"O limite do abuso é o seu desconforto", diz Ilana Casoy, autora de "Bom Dia, Verônica"

Klara Castanho e Reynaldo Gianecchini em cena de
Klara Castanho e Reynaldo Gianecchini em cena de "Bom dia, Verônica" (Foto: Divulgação)

Por Celina Cardoso

Uma das séries nacionais de maior sucesso atualmente, "Bom dia, Verônica", chegou à segunda temporada aprofundando o tema do abuso sofrido pelas mulheres de maneira menos explícita que na primeira parte do seriado.

Se Brandão, personagem interpretado por Eduardo Moscovis, assustava principalmente pela violência física que causava à Janete (Camila Morgado), agora é Matias, um religioso com supostos poderes de cura quem aterroriza o público com o horror, principalmente, psicológico a que submete a filha Ângela e a mulher, Gisele, interpretadas por Klara Castanho e Camila Márdila, respectivamente.

Reinaldo Gianechinni dá vida ao abusador, cuja história pode parecer muito com a de João de Deus, suposto médium condenado por diversos estupros cometidos contra mulheres que iam até ele em busca da cura.

Contudo, para Ilana Casoy, que ao lado de Raphael Montes, escreveu a obra que deu origem ao seriado, e assim como ele, também assina o roteiro e a produção executiva da série, o paralelo só é válido se parte do princípio de que todos os abusos são parecidos. “É claro que o caso do João de Deus permeou muito as nossas discussões no sentido do desespero pela busca de uma cura. A gente é frágil quando tem uma doença. Também aceitaria qualquer coisa. Se tem uma coisa que acaba com preconceito religioso é a necessidade”, diz Ilana.

O papel interpretado pelo galã faz a escritora soltar uma de suas frases mais famosas: “Se todo criminoso tivesse a cara do Freddy Krueger estava todo mundo salvo. Eu adoro quando alguém fala, ‘olha que cara boa tem esse fulano’. Oi? E aí, muita gente que é maravilhosa e não tem a cara tão boa, você julga mal porque a nossa sociedade é moralmente muito fincada na estética. O que também é maluco”, diz.

Para ela, o grande trunfo da segunda temporada é trazer histórias que fazem as mulheres refletirem – ou perceberem – situações de abusos. Assim como muitas, a autora também avalia que de maneira geral o universo masculino não percebe os riscos a que a mulher está exposta todos os dias.

“Existem várias formas de abuso e, muitas vezes, algumas mulheres, seja por medo de denunciar, ou pela própria cultura na qual vivemos, podem pensar: ‘ah, será que é coisa da minha cabeça?’. Por isso, a gente tem que gerar a cultura de que o limite é o seu desconforto”, argumenta.

Crimes

Reconhecida criminóloga e escritora do segmento true crime, Ilana é autora dos livros "Casos de Família", sobre o crime Suzane von Richthofen e dos irmãos Cravinhos, "Serial Killers Louco ou Cruel?" e "Serial Killer Made in Brazil", sobre os mais famosos assassinos seriais do mundo e aqueles que marcaram a história criminal do Brasil.

Se tem uma coisa que acaba com preconceito religioso é a necessidadeIlana Casoy

"Bom Dia, Verônica" é a primeira ficção da escritora que não pretendia se enveredar por este caminho.

“A ficção veio de um acaso, de um encontro com o Raphael Montes. Me sentia muito cobrada. O dia em que escrevesse, como seria esse serial killer, que pé teria, que base teria na realidade? Não era uma coisa que almejava. Aliás, como tudo na minha vida, o sucesso foi mais consequência que plano. E eu falo para o Rapha, isso tem que ser divertido. A gente gosta de escrever junto, criar a Verônica é divertido”, conta.

Questionada sobre a possibilidade de uma terceira temporada da série, ela brinca: “Se você souber de algo pelas suas fontes, me avisa.”