Sueli Carneiro dá aula e cobra Mano Brown: “Faça a sua parte”

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Mano Brown e Sueli Carno no Mano a Mano (Foto: Jef Delgado/Divulgação)
Mano Brown e Sueli Carno no Mano a Mano (Foto: Jef Delgado/Divulgação)

“Você tem problema com maconha?”, questiona Mano Brown para Sueli Carneiro, 72, antes de iniciar a gravação do "Mano a Mano", podcast do Spotify.

A doutora em Filosofia é a convidada desta semana e o Yahoo adianta com exclusividade as três horas de bate-papo que rolaram enquanto os termômetros em São Paulo marcavam 10º graus, e o diálogo pedia que até a última ponta fosse queimada — foram duas e uma taça de vinho. “Ela é toda sua”, responde risonha a escritora, feminista antirracista, dona de uma trajetória de décadas dedicada ao enfrentamento do racismo e do sexismo na sociedade brasileira, enquanto toma seu café.

O líder do Racionais MC's afina os detalhes do roteiro com a parceira, a jornalista Semayat de Oliveira — que resume aquele encontro, que já recebeu os ex-presidentes Dilma Rousseff (PT) e Lula (PT): "O episódio mais importante". Este ano, Sueli será homenageada no Prêmio Jabuti 2022 como Personalidade Literária.

Para digerir as quase três horas de aulas com a convidada, Mano matou dois becks e uma taça de vinho, como se precisasse de um apoio para o nocaute que Sueli deu ao público do podcast.

A história de Mano com a fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra - é antiga. Até o artista gagueja e precisa recomeçar ao citar o vasto currículo da tutora. O papo esbarra na política de cotas raciais, um instrumento de inclusão em universidades, escolas, locais de trabalho, instituída no governo Dilma Rousseff (PT), em 2012 e que após 10 anos pode ser revista. “Nós vencemos essa batalha? Corremos perigo?”, questionou Brown. “Claro que corremos, temos que continuar lutando. E você faça a sua parte. Você tem que falar”, briga Sueli, chamando Mano para a ação.

Mano e Sueli se cruzaram justamente no instituto quando o vocalista do Racionais ainda tinha 20 anos. “Uma das mulheres mais poderosas do Brasil”, resume Brown ao relembrarem momentos.

"Você é mais ligada ao hip hop do que muitos. A carreira de muita gente foi criada dentro do Geledés, pelos olhos da Sueli”, conta o rapper. "Você podia vir de qualquer lugar, do fundo de Ferraz de Vasconcelos (município periférico da cidade de São Paulo)… No Geledés, você era recebido.”

A ativista já não consome tanto rap como antigamente, no entanto não deixa de ressaltar a importância do Racionais, os "quatro pretos mais perigosos do Brasil":

Vocês eram a coisa mais revolucionária do combate à luta racial

Sueli, no entanto, aponta que o povo negro está domesticado, e a esquerda brasileira não é radical o suficiente para enfrentar o racismo violento em vigência no Brasil. "Aquele cara que você conheceu com 20 anos, assustava até meus amigos", relembra Mano, em tom de desabafo.

"Era incompreendido até pelos meus amigos. De ver sempre além do que os outros viam. Estava vendo perigo. Comecei a ficar sozinho. Parecia que eu estava querendo ser mais preto que todo mundo", revive seu processo criativo no auge do Racionais. "Aquele Brown assustava todo mundo, Sueli".

Parecia que eu estava querendo ser mais preto que todo mundoMano Brown

Mão no bigode e silêncio

As saudações ao passado vieram acompanhadas de revoltas que continuam pelos mesmos motivos. Tanto Brown quanto Sueli sabem que a questão racial no Brasil continua sendo dolorosa e intragável.

As mulheres negras estão em asfixia social. Elas têm todas as razões para se organizar da forma que estão se organizando. Nosso horizonte é a emancipação coletiva, é isso que queremos e precisamosSueli Carneiro

Em agosto de 2021, o Atlas da Violência revelou que negros tem mais do que o dobro de chance de serem assassinados no Brasil. Durante a pandemia de coronavírus, o risco de mortalidade para a população negra foi 1,5 vezes maior, segundo dados do relatório Health at a Glance, da OCDE.

Para Sueli, se a indigência que as pessoas pretas vivem no Brasil fosse de pele branca, “esse país iria parar”. “O que organiza essa porr* é o racismo”, dispara a ativista, embalada pela mesma revolta que tinha quando começou sua jornada por um país menos violento contra os seus. Brown observa cauteloso, com a mão no bigode, pensativo, em silêncio.

Assim como eu e todas as outras pessoas que acompanhavam a gravação. O momento pedia escuta, aprendizado e ação. “Como a gente ainda vive assim?”, me perguntei, e imagino que todos ali se faziam uma pergunta semelhante.

Nós estamos vivendo um novo fenômeno racista. Está ascendendo nesse país a ideologia nazi fascista. Ela vem atravessada do supremacismo branco, e nele tão tem lugar pra nada, nem pro 'moreninho'

O maior medo desse país é que tenha, de fato, uma consciência negra

Sem papas na língua e enrolações, Sueli Carneiro resumiu a experiência de uma pessoa preta aos 72 anos em um país que não deu - e não dá - chance para ascensão. “A abolição foi uma mensagem: vocês estão livres para morrer na sarjeta desse país”, diz ela, fazendo referência ao 13 de maio de 1888, data da Abolição da Escravatura no Brasil.

Ela constrói seus argumentos de forma incisiva, imponente, o que deixa todos que lhe ouvem falar indignados — talvez você esteja com essa sensação neste instante. Compara o apoio que povos vindos da Europa tiveram no Brasil com a falta de amparo que o povo negro sofre até hoje.

O papo esbarra na política de cotas raciais, um instrumento de inclusão em universidades, escolas, locais de trabalho, instituída no governo Dilma Rousseff (PT), em 2012 e que após 10 anos pode ser revista. “Nós vencemos essa batalha? Corremos perigo?”, questionou Brown. “Claro que corremos, temos que continuar lutando. E você faça a sua parte. Você tem que falar”, briga Sueli, chamando Mano para a ação.

"Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição"

Aos 52 anos, Pedro Paulo (nome de nascimento do rapper Mano) tem como missão manter a revolução contra o sistema que iniciou nos anos 90, pois sobreviver no inferno ainda é preciso. Já são quase 30 episódios do podcast fruto das pesquisas em teologia, filosofia, ciência e assuntos relacionados à diáspora africana — Brown temeu sua saúde mental e "chapou" nos livros durante o isolamento provocado pela pandemia do Covid-19.

Mano, nascido e criado no Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo, fala sobre os seus. “Tem muito jovem negro que tem pais ou mãe brancos. Esse moleque novo acha que a Justiça é fazer daqui pra frente. Todo mundo é igual daqui pra frente”.

Hoje dá a impressão de que todos os negros precisam ser heróis. A gente romantiza algumas lutas que não são fáceis

"Mas aí a polícia arrepia ele, e não arrepia o amigo branco”, respondeu Sueli, na lata. Mano volta a fazer um gesto de soco na cara, como se tivesse mesmo sido nocauteado. “O maior medo desse país é que tenha de fato uma consciência negra", avisa ela.

De mãos pro alto, rendido pela sabedoria e indignação de Sueli, Mano não se despediu do público. Ele encerrou o episódio pedindo para sua equipe colocar todo o arquivo bruto daquela conversa em um HD, para que ela nunca seja esquecida. “O episódio mais importante do Mano a Mano”. O recado foi dado. Entendido. Gravado no fundo da alma. Precisamos de ações para um futuro.

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