'O Ensaio' é série absurda com reality, enganação e orçamento exagerado

FOLHAPRESS - A premissa nem é assim tão desvairada. O comediante canadense Nathan Fielder, conhecido nos Estados Unidos pela série "Nathan for You", acredita que a vida poderia ser mais simples se a gente tivesse como ensaiar para os momentos mais complicados.

Difícil discordar dessa ideia. Mas o que Fielder fez, e isso sim é quase inacreditável, foi convencer a HBO Max a dar o equivalente a um cartão corporativo sem limite de gastos para que ele pusesse em prática essa tese.

Em seis episódios de cerca de 45 minutos cada um, ele se envolve com pessoas comuns que têm uma questão difícil a resolver na vida e se põe a ensaiar todos os possíveis obstáculos e consequências que podem aparecer na hora de confrontar tal dilema.

Para isso, contrata atores, monta réplicas dos lugares que eles frequentam construídas no tamanho real e cria até uma escola de preparação de atores especialmente para o projeto.

Isso já é bem fascinante, do mesmo jeito que as séries "A Máfia dos Tigres" ou "Inventando Anna" são, com tramas rocambolescas que fazem parecer que aquela maluquice não tem fim. Mas, neste caso, o que parece infinito é o investimento da HBO Max, uma empresa que recentemente esteve na berlinda após a revista especializada Variety publicar a notícia de que a plataforma poderia acabar depois de uma reestruturação promovida por seu novo dono, o conglomerado Warner Bros. Discovery.

A cada nova ousadia orçamentária de "O Ensaio" —como a contratação de cerca de 20 crianças, trocadas pela janela pela equipe de produção em um dos experimentos, para cumprir a lei do estado em que o episódio é filmado— é inevitável imaginar como foi a reunião entre Nathan Fielder e quem quer que seja que controle o investimento das séries do canal.

"O que você precisa agora, senhor Fielder? Uma réplica da réplica da casa dos sonhos da personagem para ensaiar sua conversa com ela? Claro, vamos construir." Ou "ah, você gostaria que a réplica do bar de Nova York que você decidiu transportar para o Oregon, do outro lado do país, sem nenhum motivo, passe a funcionar de verdade para você não se sentir solitário durante as filmagens?". "Sim, podemos fazer isso."

No primeiro episódio, o personagem escolhido é Kor, um morador do Brooklyn, em Nova York, de 50 anos, que quer revelar aos seus melhores amigos que mentiu a respeito de sua formação. Ele contou que tinha feito uma pós-graduação para ficar no mesmo nível do resto da turma. Mas isso não é verdade, e ele gostaria de desmentir.

Kor dedica todo o seu tempo livre a testes de conhecimentos em programas de TV. Ele é ótimo nisso, e seu grupo de amigos frequenta semanalmente um bar que tem uma noite de quiz.

Mas ele perdeu o emprego, e uma das amigas da turma tem se dedicado a mandar sugestões de empresas que estão procurando profissionais da área dele, a educação, com pós-graduação. E é essa amiga que ele acha que pode reagir mal quando souber que ele mentiu.

Então, Nathan Fielder entra em ação. Constrói uma réplica do tal bar que ele frequenta, idêntica, do tamanho exato, com rasgos nas cadeiras que estão rasgadas no bar original, as mesmas bebidas, o forno de pizza, tudo.

Contrata uma atriz para estudar todos os gestos e nuances da amiga de Kor, inclusive para interagir com ela, e assim conseguir interpretar com verdade as várias reações possíveis à grande revelação. Quando o roteiro e o que parecem ser todas as hipóteses de desenlaces possíveis estão destrinchados, o encontro é marcado no bar.

Mas, para que as respostas dos testes de conhecimento não distraiam Kor de fazer o que ele foi ensaiado para fazer, Fielder ensaia Kor para decorar as respostas, sem que ele saiba. O condutor da obra então inventa uma desculpa para o dono do bar, finge que é um blogueiro que descobre programas baratos para se fazer em Nova York e diz que vai transmitir o quiz ao vivo em uma live.

Com as perguntas em mãos, ele passa a treinar Kor, sem que ele perceba. Em conversas que se fingem de preparo para a grande noite, Fielder contrata membros da equipe de produção para interagir com os dois nas caminhadas e dar um jeito de botar as respostas na conversa.

Mas se sente culpado por isso e quer revelar sua mentira ao participante. Então, contrata um ator, com quem ensaia exaustivamente as várias hipóteses de reação de Kor.

E esse é só o primeiro episódio, o mais simples de explicar, e, imagino, de produzir. Depois de Kor, Fielder conhece Angela, uma mulher ultracatólica que não consegue decidir se quer mesmo ter filhos, então constrói a casa dos sonhos dela, no campo, com horta de orgânicos, e produz uma série de bebês, crianças e adolescentes para ela ensaiar como seria criar um filho do zero aos 18 anos.

Já a trama de Angela não se encerra em um episódio apenas. Com vários desdobramentos, esta vira a história principal da série e é entrelaçada por outras menos sinuosas, como a de um homem que precisa convencer seu irmão, inventariante do patrimônio de seu avô, de que sua namorada não é uma golpista e que ele merece receber a parte dele da herança.

Ou a da escola da atuação Fielder Method, ou método Fielder, que ele cria para treinar atores para participar desse projeto —e da qual, depois, participa como aluno, em uma réplica de sua aula, com um ator atuando como se fosse ele.

Há momentos muito engraçados, vários muito constrangedores e nunca fica totalmente claro se aquelas pessoas sabem exatamente do que estão participando, ou o quanto elas foram enganadas.

Mas, assim como "A Máfia dos Tigres" ou "Inventando Anna", "O Ensaio" provoca uma espécie de hipnose, um transe, quase uma vertigem em quem assiste a ela. Não dá para entender direito o que acontece, se Nathan Fielder é um sádico ou um gênio, mas parar de ver antes de chegar ao fim simplesmente não é uma opção.

O ENSAIO

Onde Disponível na HBO Max

Classificação 16 anos

Produção EUA, 2022

Criação Nathan Fielder

Avaliação Bom