O drama da família da primeira morte por coronavírus no Brasil

Elisa Martins e Sérgio Roxo
·8 minuto de leitura

SÃO PAULO — No dia 11 de março, por volta das quatro da manhã, a diarista Rosana Aparecida Urbano, 57 anos, saiu de casa em uma das regiões mais pobres de São Paulo e percorreu 25 quilômetros para ver a mãe, Gertrudes, internada com pneumonia no Hospital Municipal Doutor Cármino Caricchio, no Tatuapé, um dos principais distritos da Zona Leste. Ao receber a notícia de que a mãe de 86 anos estava intubada, Rosana passou mal. Diabética e hipertensa, acabou internada no mesmo hospital, no mesmo dia. Morreu às 19h15 da noite seguinte, 12 de março, após uma parada cardiorrespiratória. Rosana foi a primeira vítima do coronavírus no Brasil. Nos 148 dias decorridos desde então, a doença matou mais de 100 mil pessoas, na maior tragédia sanitária da história do país.

A chegada e as consequências do coronavírus na família de Rosana são um retrato preciso do impacto e da distribuição da pandemia no Brasil. Um estudo feito pelo site Medida SP, que cruzou os dados de mais de 3 mil mortos pela Covid-19 na Grande São Paulo com seus CEPs, constatou que 66% das vítimas viviam em bairros em que a renda média estava abaixo de R$ 3 mil. Já nas regiões com renda superior a R$ 19 mil, foi registrado pouco mais de 1% das mortes.

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Não por acaso, o bairro de Rosana corresponde ao primeiro perfil. Criado nos anos 80 no extremo leste de São Paulo, a 35 quilômetros do centro, Cidade Tiradentes concentra a maior quantidade de conjuntos habitacionais da América Latina. Detém o 10º pior índice de desenvolvimento humano (IDH) entre os 96 distritos da cidade, e 45% da população local tem renda de até dois salários mínimos. Por ali já foram registradas 270 mortes pelo novo coronavírus, o 12º maior índice da cidade, segundo boletim mais recente da prefeitura.

A primeira vítima da Covid-19 no país vivia há 15 anos em um apartamento de 36 metros quadrados no quinto andar, o último, de um desses prédios sem elevador. Dividia a casa com o marido, auxiliar de limpeza, e um filho com necessidades especiais. Nos últimos anos, Rosana deixou o trabalho de diarista para cuidar do rapaz de 19 anos, que tem atraso de desenvolvimento e epilepsia. Ela tinha ainda outras duas filhas, que não moravam com ela.

— Ela sempre fez tudo, levou a médico, correu atrás de tratamento para ele a vida toda — diz a filha Thaís, de 26 anos, que assumiu os cuidados do irmão. – Foi muito difícil contar para ele. Ele ainda chora de vez em quando, a gente conversa. A saudade vai ser para sempre.

De família católica, Rosana frequentou igrejas evangélicas, mas já não ia aos cultos, focada no filho e na saúde da mãe, a quem também era muito ligada. A suspeita dos familiares de Rosana é de que ela se infectou em alguma das idas frequentes a médicos com o filho ou no próprio hospital em que a mãe foi duas ou três vezes antes da internação, já com queixas de problemas respiratórios. Rosana sempre a acompanhava. As duas acabaram internadas na mesma UTI, diz Thaís.

— Minha mãe sempre teve a saúde delicada. Mas não estava com sintomas de Covid. Foi piorando no decorrer do dia. Começou a reclamar de falta de ar. Estava cansada, com a boca ressecada. Os médicos mediram a saturação e estava muito baixa. Pediram tomografia, e ela teve que ser internada às pressas. Um médico me disse que suspeitava de H1N1, mas que iriam fazer exame de Covid. Ainda não havia essa explosão de casos — lembra Thaís.

Demora no resultado

A primeira avaliação médica no Hospital Municipal Doutor Cármino Caricchio à época indicou broncopneumonia e doença pulmonar obstrutiva crônica. O resultado do exame para Covid-19 colhido em 12 de março foi confirmado no fim de abril. Sim, foram quarenta dias até sair o resultado. A demora na confirmação da primeira morte pela doença é um emblema da falta de testagem que dificultou o combate à pandemia em suas primeiras semanas no país.

A Secretaria Municipal da Saúde diz que o hospital colheu o exame de swab nasal para Covid no dia do óbito, e que o material foi enviado para o Instituto Adolfo Lutz, ligado ao estado. O hospital só foi avisado do resultado positivo em 30 de abril, diz a assessoria de imprensa da secretaria municipal. A Secretaria Municipal da Saúde diz que o material foi colhido no dia do óbito e enviado ao Instituto Adolfo Lutz. A instituição afirma que recebeu a amostra para análise no dia 17 de março. E cita a “complexidade de análise de diferentes vírus” respiratórios para a demora no resultado.

Gertrudes morreu três dias depois de Rosana. O diagnóstico de Covid também demorou a sair. Rosana e a mãe não foram as únicas da família abatidas pela doença. Em um prazo de 40 dias, partiram também Emerson, irmão de Rosana, e Rose, irmã. Julio, o pai, morreu de “descuido e tristeza”, diz Thaís. Nesse período, a família continuou convivendo junta sem saber dos riscos e tomar precauções.

— Não sabemos quem pegou primeiro. E ninguém fez exame porque não se sabia muito sobre a doença no início. Quando minha avó foi enterrada, todos estavam no velório sem máscara. Não havia ainda esses cuidados. Foi tudo muito rápido — descreve a auxiliar administrativa Jéssica Urbano, sobrinha de Rosana.

A filha Thaís diz que só não pegou Covid por “misericórdia” de Deus. Foi ela quem vestiu a mãe para o velório. E se despediu da avó com um beijo.

— Ninguém nos falou do resultado do exame da minha mãe — diz Thaís. — É uma situação muito triste. Quando acontece, a gente espera ao menos ser amparado.

Hoje, diz Thaís, “todo mundo caiu na real”. Há potes de álcool gel em todos os cômodos da casa, seus três filhos só saem se houver necessidade, e toda a família usa máscara.

— As pessoas que não levam a sério deveriam abrir os olhos. Esse vírus mata — diz Thaís. — Se em cinco meses foram cem mil pessoas, imagina nos próximos cinco meses?

Vulnerabilidade desigual

No prédio de Rosana, situado em uma rua pacata no topo de um dos morros de Cidade Tiradentes, os moradores ficaram surpresos ao serem informados nesta semana pela reportagem de que a vizinha havia morrido por causa do novo coronavírus.

— Uns quatro dias antes dela morrer, fui acompanhar um serviço na caixa d´água e precisei usar o alçapão que fica bem na frente do seu apartamento. Ela me disse que estava se sentindo muito mal, com pressão alta. Falei que deveria procurar um médico. Logo depois, soube da morte, mas não sabia que tinha sido coronavírus — afirma o síndico do prédio, José Miguel de Santana.

Não é estranho que os moradores do conjunto habitacional de Cidade Tiradentes tenham se surpreendido. Até junho, a informação oficial é de que a primeira morte por coronavírus no Brasil havia ocorrido no dia 16 de março, de um homem de 62 anos internado no Hospital Sancta Maggiore, também em São Paulo.

Os dados sobre óbitos são atualizados diariamente a partir das notificações enviadas por estados e municípios. Naquele mês, o Ministério da Saúde fez uma revisão das informações. Nessa ocasião, a morte de Rosana, em 12 de março, passou a constar no sistema. Nesta semana, a pasta validou a informação ao GLOBO.

No início, a pandemia do coronavírus no Brasil foi associada principalmente às camadas mais ricas da população, sobretudo entre aqueles que haviam visitado a Europa recentemente. A confirmação da morte de Rosana como a primeira do país revela a real face da pandemia no país e sua devastação entre as classes mais pobres.

O primeiro paciente diagnosticado com a doença, um empresário de 61 anos havia visitado a Itália a trabalho em fevereiro. Rosana morreu apenas 15 dias depois da confirmação da chegada do Covid-19 ao país, o que torna ainda mais difícil para a sua família entender como o vírus atingiu uma moradora do extremo Leste de São Paulo. Atendido no Albert Einstein, um dos melhores hospitais do país, o paciente número 1 não chegou a ficar internado e foi declarado curado em 13 de março, mesmo dia em que ocorreu a cremação de Rosana.

Para o geógrafo Ricardo Barbosa da Silva, professor no campus Zona Leste da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a letalidade do vírus foi acelerada pelas nossas disparidades sócio-econômicas.

— Quando a Organização Mundial da Saúde declarou pandemia, a faixa etária elevada era a característica mais apontada como vulnerabilidade. Depois começaram a falar das comorbidades. Mas a desigualdade foi determinante para aumentar a vulnerabilidade à doença no Brasil — afirma.

Essa desigualdade se expressou na combinação entre territórios periféricos e ausência de infraestrutura, serviços essenciais e acesso à saúde.

— Os primeiros dados mostravam como o contágio era maior nas áreas centrais e ricas. Em contraposição, os óbitos foram crescendo nas áreas mais pobres e periféricas — afirma.

Mas a disparidade não surgiu com a pandemia. Ela foi sempre constante em espaços segregados, em que há muito tempo a população sofre com problemas diversos, diz Silva:

— Vivemos em um país com desigualdades historicamente conhecidas, em vários âmbitos: de renda, racial, de acesso a bens e serviços públicos. A Covid só tornou tudo isso mais evidente.