'O Clube dos Anjos' leva Luis Fernando Verissimo às telas sem o seu humor

FOLHAPRESS - Um problema recorrente do chamado "filme médio" é que ninguém sabe bem o que é um filme médio. Parece ser um filme que busca interessar a um número de pessoas grande o bastante para cobrir os custos, ao mesmo tempo que se afasta das vulgaridades próprias do espetáculo popular -da chanchada à dita "globochanchada".

Deve ser um produto com atores conhecidos e produção razoável, não uma superprodução, disposto a renunciar o mau gosto, mas também renuncia a arroubos artísticos, originais, muito políticos. A polidez se impõe. Esse tipo de produção pode recorrer, eventualmente, à adaptação de autores conhecidos, como faz "O Clube dos Anjos" com o livro de Luis Fernando Verissimo.

Ainda assim, o enigma permanece intacto -qual o público, no Brasil, capaz de aderir a esse tipo de espetáculo, que não se parece com os trabalhos da Globo, nem com os de Hollywood, mas também não se parece com o que o suposto "público médio" está disposto a buscar?

Com raras exceções, esse tipo de filme acaba numa zona morta, sem público e também sem prestígio. Será o destino deste clube?

Bem, o nome de Luis Fernando Verissimo é um apoio importante. Mas o texto seria tão propício a uma adaptação cinematográfica? Ele tem dois pontos de apoio com que todo mundo se identifica, a comida e a morte.

Para alguém da classe média, a comida -não a alimentação- não chega a ser uma preocupação, mas a gastronomia é uma ambição. Ela é habitualmente cara. Mas em alguns momentos pode ser acessível.

A morte é uma preocupação recorrente de todo ser humano -em especial dos que se alimentam regularmente. Todos chegaremos lá. Mas existe uma angústia adicional -como ela chegará? Será lenta ou imediata? Suave ou dolorosa?

O clube de que trata o filme reúne sete amigos de adolescência que cultivam o hábito de se reunir em torno de seu mentor, o português Ramos, vivido por Antônio Capelo, para refeições em que celebram o bom gosto alimentar. Eles definem a si mesmos como canalhas. Descendem de pessoas ricas, são herdeiros dispostos a queimar heranças, filhos mimados. Já se vê que são de modo geral pouco interessantes.

Com a morte de Ramos o grupo se dilacera e tende à dissolução, até o aparecimento de Lucídio, papel de Matheus Nachtergaele, cozinheiro tão misterioso quanto dotado de um talento sem igual.

Depois de cada uma das reuniões mensais em que o luciferiano cozinheiro os entope de iguarias fabulosas, cada um deles, aquele que mais apreciou o prato e a quem é reservada a última porção, morre.

Entre uma e outra refeição seria desejável que os comensais se mostrassem ao espectador. Mas eles têm o defeito da unidimensionalidade. Um é comunista e todo o tempo briga com outro, fartamente reacionário, por exemplo.

Outras características podemos buscar no rosto e no corpo de cada um. O anfitrião, Otávio Muller, é um tanto ingênuo; Paulo Miklos tem um quê demoníaco, como sempre; André Abujamra é comilão e viciado em chocolate. Nada que não decifrável de imediato.

Em todo caso, temos aí um roteiro que se desenvolve em um cenário -a sala da casa do anfitrião- e com um grupo de atores conhecidos pela capacidade e diferentes entre si como tipos.

Também não demoramos a descobrir que o desenfreado culto pelas iguarias não é distante do desejo de morrer. Estamos um pouco no território que Marco Ferreri explorou em "A Comilança", de 1973. O próprio roteiro acrescenta a isso uma ideia -não será cada morte que vem após as refeições algo que pode ser assimilado à ideia de suicídio assistido?

Afinal, todos ali se reconhecem uns inúteis, cultores do pecado da gula, canalhas. Para sua existência vazia, cuja única real paixão parece ser o bem comer, a morte após um belo prato pode ser uma bela solução para a angústia do fim. Morrer rapidamente, com a barriga cheia, depois de uma refeição inigualável, com seus pratos preferidos, não seria um privilégio?

Essa a hipótese desenvolvida neste filme que, em princípio, se apresenta como uma comédia de humor negro. Pode ser um tanto pessoal, mas em momento algum o filme me transmitiu a sensação de humor ou de não ser um produto supérfluo, quer dizer, um filme médio que tenta decifrar o enigma do filme brasileiro médio.

À força de pôr a dignidade do produto em primeiro lugar, parece não ter também decifrado o enigma do humor, nem o do cinema.

O CLUBE DOS ANJOS

Avaliação Regular

Quando Estreia na quinta (3) nos cinemas

Classificação 16 anos

Elenco Otávio Müller, Matheus Nachtergaele e Paulo Mikos

Produção Brasil, 2022

Direção Angelo Defanti