'O Caso Prevent Senior' exibe o sadismo e a crueldade que contaminaram a operadora

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 28.09.2021 - Fachada do hospital da Prevent Senior, no Alto da Mooca, na zona leste de São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 28.09.2021 - Fachada do hospital da Prevent Senior, no Alto da Mooca, na zona leste de São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Às vezes tinha a possibilidade de reverter o caso. Mas aí o doutor falava que não ia investir", conta uma mulher que trabalhou por três anos na UTI de um hospital da Prevent Senior. "O não investir significa que ele não vai intubar e não vai reanimar, caso o paciente tenha uma parada cardiorrespiratória. O importante é a desocupação do leito. Porque uma diária de UTI custa mais de R$ 5.000."

Trajando uma espécie de macacão que cobre sua cabeça e com o rosto oculto por uma viseira, ela parece um membro da banda Daft Punk. Ou uma socorrista em um acidente nuclear. De fato, o escândalo que envolve a operadora de saúde Prevent Senior parece ter se tornado radioativo. Até mesmo médicos que não trabalham lá se recusaram a comentar o assunto, mesmo em off, para o documentário "O Caso Prevent Senior", que chega agora à plataforma Globoplay.

"O fisioterapeuta diminuía os parâmetros do ventilador, ou o desligava", prossegue a mulher, que teve sua voz alterada eletronicamente. "E esperava diminuir os batimentos cardíacos e zerar. Foi quando eu perguntei ao fisioterapeuta por que ele fazia isso. Ele me respondeu exatamente assim 'sempre tive vontade de fazer isso'. 'Agora que eu consegui, que tenho o respaldo do médico, não é você que vai me impedir.' Ele sorria, dava risada e ficava olhando para o monitor até zerar os traçados eletrográficos."

Álvaro Pereira Júnior, que dirigiu a série documental "A Corrida das Vacinas" e também assina este especial, faz questão de frisar que esta não era uma prática institucional da Prevent Senior. Mas era recorrente, e anterior à pandemia.

O depoimento desta mulher que não quis se identificar é um dos muitos momentos chocantes de "O Caso Prevent Senior". Mesmo quem acompanhou com atenção o noticiário nos últimos meses vai se surpreender com muita coisa.

O documentário traça uma clara linha do tempo, que vai dos primórdios da operadora, na década de 1990, até as denúncias que explodiram contra ela na CPI da Covid. A Prevent Senior, como se sabe, foi acusada de insistir no chamado "kit Covid", mesmo quando a ineficácia desses medicamentos já estava comprovada, e também de negligenciar o tratamento de pacientes acometidos pela doença.

A equipe do programa ouviu profissionais de saúde, parentes de vítimas e políticos como Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde, e o presidente da CPI, senador Omar Aziz, do PSD do Amazonas. Uma façanha e tanto, realizada em só dois meses de produção.

"Nós fomos de espírito aberto", conta Pereira Júnior, em entrevista por chamada de vídeo. "Reuni a equipe e disse 'pessoal, nós não somos justiceiros sociais, nem estamos com sangue nos olhos, a gente quer apurar os fatos'."

"Eu queria entender técnicas de UTI, para não fazer nenhuma acusação injusta à Prevent Senior", acrescenta o jornalista. "Procurei três chefes importantes de UTIs de São Paulo. Dois são meus amigos. Um terceiro não quis conversar comigo, e ele nem sequer é da Prevent. Eu nunca tinha feito uma matéria em que as pessoas não querem falar nem mesmo em off."

"O Caso Prevent Senior" mostra as pressões e ameaças veladas que alguns ex-funcionários da operadora receberam, depois de seus depoimentos na CPI da Covid. Álvaro Pereira Júnior garante que a produção do documentário checou as credenciais de todos que concordaram em dar depoimentos e que tomou todas as medidas para proteger os entrevistados.

Falta, infelizmente, a versão da própria Prevent Senior. "Nós insistimos muito", afirma Pereira Júnior. "Chegamos a ter uma reunião presencial, duríssima, em que eles foram muito enfáticos —não falariam com a gente. Ainda mandamos as perguntas por escrito, mas eles não quiseram responder."

O documentário termina com uma nota emitida pela Prevent Senior, em que a operadora acusa a Globo de "terrorismo econômico" e de "manipular notas enviadas, editar conteúdos e adorar como verdade a versão de falsos acusadores". Também avisa que vai tomar as medidas judiciais cabíveis.

O CASO PREVENT SENIOR

Onde Disponível no Globoplay

Direção Álvaro Pereira Júnior

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