"O anticoncepcional me causou trombose aos 22 anos"

Idade, obesidade, hipertensão descontrolada, tabagismo, diabetes associada à doença vascular periférica e doenças autoimunes aumentam o risco de trombose. (foto: Pixabay/copyleft)

Por Gabriela Kimura

Isabella Marinelli, jornalista, começou fazendo uso da pílula anticoncepcional em novembro de 2014. Com indicação de sua ginecologista – que realizou todos os exames antes e investigou histórico familiar de trombose -, a jovem havia encontrado na contracepção hormonal uma forma de driblar alguns acontecimentos do seu corpo.

Em março de 2015, começou sentindo uma dor de cabeça que só foi piorando, sem que nenhum remédio pudesse resolver. No quarto dia, então, resolveu ir ao pronto-socorro para tentar solucionar o problema — e se deparou com algo muito diferente do que imaginava ser uma crise de enxaqueca.

Este é o depoimento dela:

“Quando cheguei ao hospital, o médico que me atendeu perguntou se eu já tinha tido enxaquecas antes e outras perguntas de rotina. Perguntou se tomava anticoncepcional, eu confirmei. Ele, então, pediu uma tomografia só para checar, mesmo sabendo que não havia histórico na família [de trombose].

Foi no resultado desse exame que descobri o AVC (Acidente Vascular Cerebral) e uma ressonância mostrou a trombose. Direto fui para a UTI, ainda acordada, onde passei quatro dias. Depois, foram mais 14 no quarto. Até hoje tomo antiagregante (que evita plaquetas agregadas em portanto, a trombose) e faço acompanhamento com um neurologista, mas nunca fumei (o que poderia desencadear o sintoma) e não tinha nenhuma indicação que isso pudesse acontecer comigo.

A minha ginecologista sempre foi impecável. Tinha me contado de todos os riscos de trombose e tudo mais, pediu os exames e investigou todas as possibilidades. Pode até ser raro, mas aconteceu comigo. O diagnóstico que recebi na época foi de trombose venosa cerebral: até hoje faço mais que um simples checape, porque, logo que aconteceu, fiquei tomando anticoagulante durante quase dois anos, com um controle bem de perto. Durante todo o primeiro ano do AVC (2015), ia toda semana ao hospital tirar sangue e medir a dosagem do remédio, para ver se ele estava prevenindo outros possíveis riscos de trombose.

Hoje eu vivo com mais tranquilidade, porque já faz três anos, mas, ainda assim, é uma mudança. Normalmente, a pílula é a ‘solução’ para vários problemas, então, como não posso usar nenhum tipo de medicamento com hormônio feminino, é um conjunto multidisciplinar para tratar pele, cabelo, Síndrome do Ovário Policístico (SOP) e a própria contracepção.”

Isabella Marinelli: 18 dias internada por conta das complicações.

Dentre as complicações possíveis, a médica lista as mais comuns em suas pacientes que tomam o anticoncepcional:

• Eventos tromboembólicos (trombose venosa ou arterial, AVE e o tromboembolismo pulmonar);
• Alterações de enzimas hepáticas;
• Piora da enxaqueca;
• Aumento leve da pressão arterial;

Esses efeitos colaterais devem ser observados de perto, especialmente em mulheres que já possuem risco elevado de desenvolver essas doenças.

A ginecologista Cecília Pereira, da All Clinik (RJ), afirma que, dentre outras, a idade, obesidade, hipertensão descontrolada, tabagismo, diabetes associada à doença vascular periférica, doenças autoimunes, antecedentes de eventos tromboembólicos ou diagnóstico prévio de alguma patologia que aumente o risco dos mesmos como, por exemplo, as trombofilias são um alerta antes de escolher o método.

Vale lembrar que, assim como o caso da Isabella, o risco também existe mesmo para quem não tiver nenhuma das condições. “Não existe medicação que não possua efeitos colaterais. As pacientes que fazem uso desse tipo de medicamento devem, rigorosamente, manter acompanhamento médico a fim de detectar precocemente sintomas de suspeição de efeitos adversos”, alerta a ginecologista.

O anticoncepcional não só funciona como método para prevenir uma gravidez indesejada, mas também pode ser benéfico em casos de endometriose, nos sintomas de TPM, na acne e regulação do fluxo menstrual. “Existem alguns estudos que mostram redução no risco do desenvolvimento do câncer de ovário e endométrio em determinados grupos de pacientes”, pontua Cecília.

Efeitos colaterais associados ao uso do contraceptivo hormonal são: aumento da sensibilidade nos seios, leve retenção hídrica, diminuição da libido, amenorreia (ausência da menstruação), náuseas, cefaleia, entre outros. Mas é importante frisar que a grande maioria das mulheres mantém boa adaptação aos métodos hormonais.

Antes de tudo, converse com seu(sua) médico(a)
Ainda que alguns exames possam ajudar a detectar possíveis riscos e impedimentos para uso do anticoncepcional, Cecília Pereira afirma que isso sempre precisa ser discutido com o(a) médico(a) que você faz acompanhamento.
“A realização de exames específicos não deve ser rotineira antes da indicação de medicação contraceptiva, mas a rotina ginecológica própria para determinada faixa etária deve estar em dia. A anamnese e o exame físico são os melhores métodos para indicar a escolha do contraceptivo – além disso, algumas mutações genéticas são raras, e não aparecem nos exames.”