O amor nos tempos do agora

Foto: Reprodução/Pexels

Por Juliana Damasceno
As experiências de quem ousou questionar a monogamia e consegue transformar modelos prontos e relações prontas em boas e essenciais doses de novidade, para toda a vida

Dizem que o amor, em sua forma mais tenra e doce, como o conhecemos e fomos ensinados a praticar e sentir, está com os dias contados. Sai de cena a idealização do par romântico fiel e para toda a vida, dando lugar a um novo cenário repleto de possibilidades e transformações que podem marcar as relações (e seus indivíduos) para sempre – porém sem príncipes ou princesas.

Em pleno século 21, as relações abertas ainda são motivo de discussões e reflexões – tanto para quem está dentro de uma como, principalmente, para quem apenas assiste. A curiosidade e a visão moralista e perplexa de alguns cruzam-se com o frescor de novos tempos, que têm inspirado muita gente a experimentar novas sensações – e que, segundo os próprios personagens deste romance moderno, nada tem a ver com o amor e a parceria.

E não se trata só de uma transformação das pessoas e de seus modos de vida: a sociedade como um todo tem apresentado mudanças significativas e importantes, no que diz respeito aos sujeitos, ao seu sexo e suas condições. Os gêneros não são mais binários, as famílias ganharam novas constituições e apêndices. E por que não os relacionamentos também não podem ganhar outras cores?

Em meados dos anos 40, o médico, psicanalista e cientista natural Wilhelm Reich já reconhecia, a despeito de toda a moral da época, que a prática sexual significa um fator de equilíbrio e um princípio de vida saudável. Segundo ele, a libido é como uma energia, que divide a pessoa em partes, como se fossem várias fontes com energias próprias.

À época, Reich causou polêmica ao declarar que o desejo sexual é aquele que envolve toda energia focada no genital, que conduz para o sexo. E que esta mesma energia deveria ser encarada como positiva, já que é esse sistema em volta do órgão genital que promove a sensação de felicidade e evita que as pessoas fiquem deprimidas.

O especialista acreditava francamente que sua terapia, que trabalhava as expressões corporais, músculos, o relaxamento e a respiração durante suas sessões terapêuticas, era o que poderia mover seus pacientes para transformarem suas vidas. Para ele, tudo no mundo contém energia sexual – inclusive, e principalmente, as relações.

Os adeptos das teorias reichianas o defendem da acusação de loucura e o colocam como uma vítima de perseguições, por conta de suas teorias contestatórias e libertárias. Mas também é impensável negar as contribuições de suas teses, tanto para a biologia, quanto para a psicologia e o estudo das relações humanas, até os dias de hoje.

Mudança dos Ventos

A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins especializou-se em estudar relacionamentos afetivos e sexualidade. Seus livros, onde ela relata os resultados de suas pesquisas e casos de consultório, ficaram famosos e atingiram muita gente em seus mais íntimos desejos – e principalmente segredos. Em “A Cama na Varanda”, uma de suas mais conhecidas obras, ela conta que “parece que alguma coisa nova está ocorrendo nas relações entre homens e mulheres”. Para ela, os desejos femininos de casar, ter filhos e uma relação estável e segura, como nos filmes, está mudando consideravelmente. E a monogamia, que parecia ser um conceito quase natural, começa a ser questionada sobremaneira.

Ainda segundo Regina, “o novo nos assusta, nos faz sentir desprotegidos e nos vinculamos então ao já conhecido, aos modelos do passado”. E por isso, e talvez somente por isso, sequer pensamos numa ruptura saudável para muitos relacionamentos e nos conformamos com o modelo pronto, costumeiro, sem levar em conta o que realmente pensamos e, principalmente, sentimos.

N. vivia um relacionamento tradicional, e até repressivo, até conhecer B. Bastou para que a vida de ambos se transformasse completamente. “Quando eu e B. começamos a nos relacionar, ambos viviam em casamentos monogâmicos. Depois de um tempo, quando decidimos ficar juntos, fizemos um acordo de que nossa relação seria 100% honesta e sincera. Se algo nos incomodasse, falaríamos na hora”, conta.

Nenhuma ruptura é simples e natural. Mas para N., os conceitos de verdades imutáveis – e incontáveis – podem destruir completamente uma vida a dois. “O que mais destrói um relacionamento são as pequenas coisas que não falamos na hora, coisas que nos machucam ou não gostamos, e que vão se somando até um ponto no qual vemos que temos mais ódio que amor. Essas pequenas mentiras ou coisas não ditas vão um dia acabar com qualquer relacionamento”, conta.

Para P., que namora L. neste mesmo formato há alguns anos, o primeiro tópico a ser avaliado para fazer funcionar casos como esse são as assimetrias do relacionamento. “Quem olha de fora nossa relação, num primeiro momento, enxerga que ela tem tudo pra dar errado. Tenho 46 anos, ele 28, sou separada e tenho dois filhos adolescentes, de 13 e 14 anos, ele é solteiro. Moro sozinha, ele com a mãe. Eu sou executiva, ganho bem, ele ganha 1/3 do que eu ganho, embora seja independente financeiramente. E por que dá certo mesmo assim? Porque a gente tem um monte de afinidades: ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, adoramos viajar e quando isso acontece, curtimos fazer os mesmo programas. A gosta dos mesmos shows, curtimos os mesmos restaurantes, ele tem um saco enorme pra aguentar as questões dos meus filhos… Então, mesmo com todas as adversidades, tem dado muito certo”, ela conta.

P. faz uma avaliação bastante curiosa e engraçada, sobre o início de tudo. “Eu tinha me separado naquele ano e, logo depois do divórcio, fiquei muito deprimida. Foi muito traumático, cheguei a pensar que nunca mais me relacionaria formalmente com alguém. Achei que ia sair bastante, transar, mas não pretendia nunca mais namorar, muito menos casar. Depois dessa fase, eu comecei a sair com vários homens, de diferentes faixas etárias, solteiros, casados, separados, naquela transição tradicional pós-divórcio, que eu chamo até de ‘galinhagem’. E ele era um desses caras com quem eu saía. Foi meio na louca, cheguei a pensar que era quase pedofilia sair com alguém tão mais novo”, ela brinca.

E por que uma relação nestes moldes se, aparentemente, há amor, cumplicidade? Por que não o tradicional, o socialmente aceitável? N. tem a resposta certeira. “Seria uma hipocrisia se, a partir da nossa história, depois que resolvemos ficar juntos, passássemos a ser monogâmicos. Até porque monogamia não existe. Você sempre vê, tem desejo por outras pessoas. E isso não significa que o amor acaba, muito pelo contrário. Toda vez que transo com outra mulher, meu amor pela B. aumenta, pois confirmo que ela é a mulher da minha vida. Não que as outras sejam ruins, não há essa coisa de comparação. Apenas reforça nosso amor”.

Mas ele esclarece que existem pequenas regrinhas de boa convivência, mesmo com uma relação aparentemente liberal. “Resolvemos então que teríamos um casamento aberto, onde os dois poderiam transar com outras pessoas. Mas veja bem, não temos outras relações, namorados(as) etc. A única condição era que sempre deveríamos contar tudo um para o outro. Aconteceu, conta. E já temos nosso casamento há 11 anos, sem nenhuma crise, nem esfriamento da relação. É fácil ter um relacionamento aberto? Não, não é. Nossos amigos acham que é o paraíso, mas sempre dizemos que isso não é pra todo mundo. Temos alguns amigos que resolveram abrir o casamento depois de casados e todos se deram mal. Porque é um acordo difícil, e tem que ter uma certeza de que você ama mesmo aquela pessoa. Sem isso, não é fácil aceitar o fato de que a pessoa que você ama está transando e tendo prazer com outra. Creio que seja mais difícil para o homem, na sociedade machista em que vivemos. Enfim, para nós funcionou perfeitamente e até hoje mantemos o acordo e vivemos cada dia mais apaixonados um pelo outro”, ele declara.

E para P., o relacionamento aberto veio naturalmente, uma vez que, quando começou a sair com L., não botava “a menor fé”, segundo ela mesma, de que a parceria vingaria. “Não pensei naquele momento que viraríamos namorados, que isso fosse envolver as famílias. Fomos ficando, eu achava super divertido, as amigas da minha idade achando engraçado. Três meses depois, ambos tiramos férias sem querer e já tínhamos compromissos, ele com a família, eu com meus filhos. Então, eu tinha certeza que, na volta não rolaria mais nada, com o distanciamento. Até mesmo duvidava que chegaríamos sequer ao período das férias. Mas aí, a coisa foi rolando, nós já tínhamos conversado bastante sobre fidelidade, sentir atração por outras pessoas porque eu mesma já tinha sofrido horrores com isso no meu próprio casamento, deu muita merda. E os dois pensavam parecido: era absolutamente natural amar alguém e sentir atração sexual por outras e isso não tem nada a ver com o fato de gostar menos de quem se está. Eram só conversas teóricas, sempre em tom crítico, sobre os padrões socialmente aceitos da monogamia. E então, chegou a viagem e eu disse que ficaríamos distantes e pedi que ele aproveitasse o descanso e ficasse com quem ele quisesse Foi assim que começou”.

Eles não estabeleceram regras, apenas começaram de um jeito informal. Mas continuaram ficando juntos e com o tempo, e aos poucos, foram acertando o que era bom para ambos. “Olha, se for transar com outra pessoa, por favor, use camisinha. Toda vez que transar com o outro, não tem nada a ver contar pro outro, isso pertence ao universo da sua vida privada, etc. Não quero relatório, não quero saber. Desde o começo, eu meio que ditei as regras e ele foi concordando com o que eu dizia”, ela recorda.

Nem tudo são flores, mas tem conversa

Claro que alguns ajustes de percurso são sempre necessários, afirma N. “Eu sou uma pessoa desprovida de ciúmes, mas B., algumas poucas vezes, me disse que não queria que eu transasse com algumas mulheres específicas. Lembra que faz parte do acordo contar tudo que te incomoda? Em geral, ela tem problemas com mulheres que ela não conhece, então uma nova regra foi sempre apresentar a pessoa para ela. Mas, se ela diz que não queria me ver com alguém, eu imediatamente paro tudo!”.

P. concorda e diz que já sofreu de ciúmes, sim. Inclusive é questionada pelos conhecidos sobre isso com bastante frequência. “É a primeira vez na minha vida, aos 46 anos, que tenho um relacionamento assim. Todos os outros foram tradicionais, dentro do padrão. Mas achei que seria um exercício legal, construir um relacionamento diferente de tudo o que já tive na vida, primeiro pela minha idade – se não for agora, quando vivenciarei algo diferente? E depois por conta dessas circunstâncias que envolveram o início da nossa relação, isso acabou sendo possível. Era uma desconstrução do meu próprio ciúme, afinal, até que ponto isso também não é uma convenção social? As pessoas te ensinam desde sempre a ter ciúme e aquilo que é construído socialmente pode ser derrubado. Já teve situações em que senti, claro, assumo, mas eu mesma parava e pensava: pô, mas tá certo isso? Quanto do ciúme não é a posse?”.

O acordo de N. e B. só é público para os amigos mais íntimos – segundo eles, a maioria entende. “Alguns poucos acho que ainda ficam meio incomodados quando ficamos com outras pessoas na frente um do outro, mas entendem e respeitam. E é engraçado que algumas pessoas com que nos relacionamos prefeririam que não contássemos um para o outro. Já tive amigas que me perguntaram: mas você vai contar pra B.? Eu sempre respondo: claro, esse é o nosso acordo, inclusive ela sabe que eu estou aqui agora com você. Ao que elas respondem: mas como vou olhar na cara dela? Como se essa traição fosse menos traição se eu não contasse”.

P. confessa que já se apaixonou fora do relacionamento com L., tudo ficou bagunçado e ela chegou a terminar tudo, por duas vezes. Ela contou que se envolveu mais do que deveria, no entanto, se surpreendeu com a resposta dele. “Eu também já fiquei com várias pessoas nesse período em que estamos juntos, mas é muito clara pra mim a posição que elas e você ocupam dentro da minha vida”.

Mas a relação, segundo ela, é gostosa, ambos se dão muito bem, e mereciam continuar juntos, mesmo com os contratempos. “Ele tem uma convivência intensa com meus filhos, eles se adoram. Já faz quase três anos que estamos juntos e virou uma relação formal, de passar Natal juntos, etc. Já fiquei muito confusa, insegura, muito por um preconceito meu, de achar que ele é muito mais novo e, uma hora, vai dar errado, que eu deveria ficar com alguém da minha faixa etária, etc. E ele mesmo acha isso tudo ridículo”.

Entre os mitos que rondam os casamentos/relações liberais, está o mais clássico: o de que a vida é pura luxúria. N. discorda sumariamente. “Outra falácia que as pessoas acham é que quando você abre a relação, sua vida vira automaticamente um filme pornô, é suruba toda semana, aqueles clichês. Não, definitivamente não é isso que acontece. Nos relacionamos com algumas poucas e boas pessoas, em geral pessoas do nosso círculo de amizade. Não saímos para “caçar” pessoas. Já fomos em casas de swing, mas não é nossa praia. Preferimos transar com pessoas que conhecemos e que mantém uma relação de amizade conosco. Sexo amigo é sempre melhor!”, ele assume.

P. diz que amigos mais próximos e a mãe ficaram imediatamente escandalizados, quando souberam do acordo com L. “Homem a gente não empresa pros outros, ela dizia, o que achei ótimo. Mas está dando certo e cada vez mais me questiono sobre os modelos que nos ensinaram, se eles ainda são válidos. Acho que essencialmente monogâmica, ficou muito menos com outros caras do que ele deve ficar com outras meninas, mas ele é mais novo, tem outros interesses e não é uma competição. Eu estou super feliz, ele é muito carinhoso, apaixonado, a gente se apoia. Ele é maduro pra idade dele, segura umas ondas que nem todo mundo seguraria”.

Curiosamente, e ao contrário de N. P. e L. preferem pessoas mais distantes, desconhecidas, para que não haja incômodos. “Quando se tem um relacionamento aberto, talvez você tenha que repactuar mais vezes o contrato. Toda vez que ficamos com alguém em qualquer modelo de relacionamento, existe um, mesmo que implícito, com as regras de cada um. E a todo momento, a gente conversa sobre isso aqui. Por exemplo, saber que ele ficou com pessoas próximas do nosso círculo foi algo que me incomodou e eu disse. Depois que conversamos, ficou mais claro. O mundo é muito grande, tem muita gente. Ele já não acha nada demais. Então esses acertos são necessários, só um pouco diferentes da relação de todo mundo”.

Quando nascemos, já somos apresentados aos “padrões do mundo”, aos comportamentos fixos, determinados, aceitáveis. E com o passar do tempo, só fazemos absorver os valores culturais, muitas vezes impregnados de muita submissão e nenhuma transgressão. Talvez, uma das maiores missões de nossa vida adulta seja, de fato, saber o que realmente desejamos pra nós e pra quem amamos. O quanto as nossas insatisfações estão diretamente ligadas com um vazio desconhecido e que mal sabemos explicar.

Perceber subjetividades, singularidades, sem adaptações a modelos pré-estabelecidos, pode ser o começo para a saída de um túnel restrito. Desde que mantendo o respeito mútuo e sobre o querer de quem está conosco, é possível vivenciar e experimentar coisas novas e ricas, em todos os campos de nossa vida. Nossos anseios mais íntimos, mais internalizados, merecem um fone de ouvido, vez em quando.