Novo prédio do Masp na Paulista se liga à sede por túnel sob a avenida

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***ARQUIVO***São Paulo, SP, BRASIL, 04-08-2020:  Performance Marcha a Re do Teatro da Vertigem com colaboracao de Nuno Ramos. Cerca de 80  carros vao de marcha a re do MASP ate  o cemiterio da rua da Consolacao  (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
***ARQUIVO***São Paulo, SP, BRASIL, 04-08-2020: Performance Marcha a Re do Teatro da Vertigem com colaboracao de Nuno Ramos. Cerca de 80 carros vao de marcha a re do MASP ate o cemiterio da rua da Consolacao (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lina Bo e Pietro Maria Bardi, separados desde 1992, quando a arquiteta do Masp morreu, vão novamente se reunir por meio do museu, seu maior projeto comum. Seus nomes batizarão os dois edifícios da instituição.

Sim, dois, enfim. Após anos de indefinição, começou a sair do papel a expansão do museu que ocupará o prédio vizinho.

Alto e magro, com ares de monólito negro --na verdade uma fachada porosa, feita de chapa metálica perfurada--, ele será Pietro Maria. O edifício-sede, cartão-postal da avenida Paulista, com suas firmes, porém jocosas pernas vermelhas, será Lina Bo.

"A gente resolveu banir o termo 'anexo'", adverte Heitor Martins, presidente do museu, em entrevista à Folha. A palavra, de fato, carrega consigo uma história malfadada.

Hoje uma triste carcaça, o antigo edifício Dumont-Adams foi, por uma década e meia, visto por seus vizinhos ilustres ora como fonte de esperança, ora de preocupação.

O prédio residencial, que estava vago, foi adquirido em 2005, com patrocínio de R$ 12 milhões da operadora Vivo, a fim de ser um anexo que gerasse receita para o Masp.

A intenção de Júlio Neves, então presidente do museu, era sanar o déficit da instituição, calculado em R$ 1 milhão ao ano. A receita viria de uma escola de arte, uma loja e um belvedere com café, instalado numa torre que aumentaria o gabarito do edifício para 110 metros de altura, de onde, estimava o arquiteto, seria possível ver o mar em dias claros.

Cogitou-se ainda colocar, no alto dessa torre, uma antena de comunicação, com que o volume alcançaria 250 metros de altura. Para termos de comparação, o espigão mais alto da cidade, em construção no Tatuapé, tem 170 metros.

Um vaivém que incluiu disputas com órgãos de patrimônio e com o antigo patrocinador fez do prédio um monumental incômodo, uma ruína ensombrecendo um dos marcos mais cultuados da arquitetura moderna brasileira.

Por outro lado, a situação do museu também mudou.

A atual gestão, que assumiu em 2014, eliminou o déficit que motivara o primeiro intento expansionista. Mas sobrava seu rastro concreto.

Alfredo Egydio Setubal, presidente do conselho do museu, rememora os três objetivos que os novos gestores ambicionavam cumprir,

"O primeiro era pôr as finanças em ordem", diz. O segundo, "terminar com aquele esqueleto na avenida Paulista". E, por fim, o terceiro, "que andou junto com o segundo, a expansão do acervo" --um movimento permanente, frisa.

Pois, se já não havia dívidas a resolver, persistia uma série de outras limitações relativas ao edifício-sede. "Ele é uma obra-prima, mas foi inaugurado em 1968", resume Martins.

A primeira é física; o Masp já não acomodava o público. Depois, vêm questões técnicas --as dificuldades de climatização, a falta de doca para obras de arte, que têm de ser descarregadas no vão-livre, um ateliê de restauro muito pequeno são alguns. Havia, portanto, muitas formas de dar carne àquela ossada.

Mais que um partido, havia um ponto de partida para isso, a preexistência do Dumont-Adams. "A gente não poderia demolir e começar do zero", explica Martin Corullon, responsável com Gustavo Cedroni, seu sócio no Metro Arquitetos Associados, pela obra, em coautoria com Júlio Neves.

Para Cedroni, o partido do projeto foi "pensá-lo como uma infraestrutura para o Masp", trazer ideias para "lidar com questões novas, do ponto de vista do uso".

A fim de fazer o antigo prédio de apartamentos se adaptar às necessidades atuais, foi necessário alterar a estrutura.

A engenheira Heloisa Maringoni, que estudou recentemente a estrutura do prédio Lina, ficou encarregada dos cálculos necessários para transferir toda a carga para o perímetro do prédio. As lajes de piso foram eliminadas, uma sim, uma não, para aumentar o pé-direito.

A dupla de arquitetos, lembra Cedroni, já atua há seis anos junto ao museu, "muito no sentido de recuperar a essência dele". Um passo nesse sentido é a nova divisão de funções expositivas que

o prédio vizinho permitirá.

Com as novas lajes, o museu ganha 66% a mais de áreas expositivas, dispostas em cinco andares contínuos de galerias. Situação bem diferente da propiciada pelo edifício-sede, onde megamostras, como "Histórias Afro-Atlânticas", de 2018, ficavam fragmentadas.

Essas exposições temporárias passarão a acontecer no edifício Pietro. O acervo, que é a base histórica do Masp e que hoje tem apenas 200 obras expostas --leve-se em conta que nos últimos cinco anos ele ganhou 700 obras, como lembra Heitor Martins--, terá mais espaço no edifício Lina.

Outra ambição antiga ganha materialidade no novo prédio. "O Masp tem escola desde 1951 e nunca teve uma sala de aula", diz Martins. Agora, terá um andar inteiro. Crescem também o ateliê de restauro e a reserva técnica --o espaço de guarda das obras que não se encontram expostas.

O vão ficará, finalmente e de fato, livre, com a remoção da bilheteria para a entrada do novo edifício, onde haverá também loja e restaurante.

A obra, que começou há duas semanas, com as demolições necessárias, está prevista para durar 28 meses. O custo total, orçado em R$ 180 milhões, já está cerca de 90% levantado, por meio de

doações de 17 famílias. Desse montante, 40% está em caixa.

Todo o dinheiro foi captado sem emprego de incentivo fiscal e a única contrapartida será a inscrição do nome dos doadores numa placa.

Como alguns doadores, que quiseram ficar anônimos, um dos grandes elementos da mudança é um "tour de force" meio escondido --um túnel sob a Paulista, que fará a união entre os dois edifícios.

Como Lina e Pietro tiveram trajetórias independentes, mas entrelaçadas e até na intimidade cada qual tinha sua cama, mas no mesmo quarto, os prédios ficarão unidos por um elo discreto, mas forte.

O vaivém do anexo

2005 - Masp compra, com R$ 12 milhões da Vivo, o prédio Dumont-Adams; intenção do presidente do museu era instalar serviços que trouxessem receita, como um mirante em uma torre a 110 m de altura.

out.2005 - O Conpresp veta a torre, dizendo que interferiria no Masp, que é tombado. O museu tentou anular a decisão na Justiça, mas perdeu.

2007 - Masp desiste da torre e decide instalar uma escola no prédio; novas dimensões do projeto, com 70 m de altura, foram aceitas pelo Conpresp, mas o projeto não anda.

2010 - Nova gestão faz acordo com a Vivo, que requeria parte do prédio em troca do que havia pago, dando à operadora galeria no anexo, mas projeto não avança.

2014 - Atual gestão assume; após sanar contas do museu e resolver pendências judiciais quanto ao prédio vizinho, decide retomar sua ocupação, mantendo a altura já aceita pelo Conpresp.

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