Novo 'Grande Sertão' reflete a era Bolsonaro com milícias e tem Diadorim não binário

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Dos jagunços para os criminosos urbanos, do sertão para uma imensa periferia. Reinventado por Guel Arraes e Jorge Furtado, o clássico "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, está sendo transformado para chegar às telas de cinema, com estreia prevista para novembro deste ano.

Numa visita ao set no mês passado, foi possível acompanhar a gravação de uma cena que se passa num baile funk, por exemplo. Ali reluziam roupas douradas e prateadas, paetês, glitter, correntes e bonés. Cada elemento se somava para formar um cenário com um quê de distópico, de futurista, de não real.

"Fomos criando elementos para 'desrealizar' um pouco. Como se fosse a terceira geração de um mesmo bando, quase uma tribo que já tivesse seus rituais, suas roupas. Fomos alegorizando. Mais na tradição do Glauber [Rocha, cineasta] do que do cinema documental", afirma Guel Arraes, diretor do filme.

A adaptação transpôs o sertão para uma gigantesca periferia urbana, cercada por um enorme muro. Enquanto no livro as batalhas são entre jagunços, no filme a guerra acontece entre bandidos e policiais.

As personagens principais são as mesmas, presentes na memória de gerações de brasileiros -Riobaldo, vivido por Caio Blat, Diadorim, papel de Luisa Arraes, Joca Ramiro, papel de Rodrigo Lombardi, Zé Bebelo, vivido por Luis Miranda, e Hermógenes, papel de Eduardo Sterblitch.

A adaptação também mantém temas que nortearam a obra de Guimarães Rosa -a guerra, a ética, a coragem, a violência. "Não é uma questão de cadeia, de bandido. É a guerra brasileira. Ela existe desde sempre, se reproduz, se repete. É a nossa tragédia", diz Arraes.

As gravações terminaram em dezembro, depois de sete semanas de filmagem, meses de ensaio e uma pandemia. A produção calcula que as precauções contra a transmissão do novo coronavírus tenham tomado de 40 a 50 minutos por dia. Para entrar no set, por exemplo, esta repórter teve de fazer um teste rápido de Covid.

"Os ensaios foram mais difíceis porque não podia tirar a máscara", conta a atriz Luisa Arraes, filha do diretor e encarregada de interpretar Diadorim na trama. "Como você vai ensaiar uma cena vendo só o olho da outra pessoa? Mas depois acostumamos."

Muitos diretores já quiseram adaptar "Grande Sertão" para as telas, como já escreveu o cineasta Fernando Meirelles. Segundo Guel Arraes, que dirigiu filmes como "O Auto da Compadecida" e "Lisbela e o Prisioneiro", a oportunidade surgiu por meio do diretor Heitor Dhalia, que havia comprado os direitos da obra.

Arraes conta que ele e Jorge Furtado já tinham vontade de falar sobre a violência urbana de um ponto de vista ainda pouco explorado, o dos bandidos. Foi daí que veio a ideia de transportar os jagunços para o cenário da guerra nas cidades.

Decidido o ângulo, eles encararam um novo desafio --transformar a poética particular de Guimarães Rosa em dramaturgia. Para isso, conseguiram na maior parte do tempo aproveitar o material original do autor sem grandes edições, mesmo no caso de cenas que não existiam no livro.

"Se a cena falava de morte, você ia no livro e encontrava frases incríveis sobre a morte. O livro nunca nos falhou", diz Arraes.

Ele também teve a preocupação de fazer com que a obra, muito densa, se apresentasse de um jeito mais popular, ou palatável para o espectador. Por isso, o filme segue a ordem cronológica dos fatos, o que não é o caso do livro. Também foi produzida uma série de quatro episódios para a TV Globo.

Filho do ex-governador pernambucano Miguel Arraes, exilado durante a ditadura militar, o diretor diz que o filme não fala diretamente de um ponto de vista político. Fala, sim, de um ponto de vista artístico sobre uma questão que a política trata muito mal -a violência urbana.

Ele afirma que tanto a direita, com o discurso do "bandido bom é bandido morto", quanto a esquerda, com soluções a muito longo prazo, tratam o tema de uma forma demagógica. Arraes diz que, do ponto de vista artístico, a maneira como Guimarães Rosa aborda a questão é muito mais grandiosa.

O diretor afirma que o Brasil é uma "civilização incrível", mas tem um lado violento. "Agora mesmo com Bolsonaro, isso ficou muito evidente, quando os monstros saíram do armário. Isso é o Brasil também, não vem de fora, vem muito de dentro. O livro deu a chance de tratar disso sem proselitismo político."

Interpretando Riobaldo, personagem principal, Caio Blat é mais enfático ao relacionar o filme ao momento político do país. "A gente está vivendo o aumento da violência urbana, da força das milícias. A gente tem a Presidência da República tomada pelo apoio direto de milicianos. 'Grande Sertão' é uma obra que se repete, como se fosse circular. É essa a história do Brasil", diz.

Blat conta que, no mesmo dia em que foi filmada uma cena em que policiais levavam cinco garotos para serem assassinados no alto da favela, ao menos nove pessoas foram mortas pela Polícia Militar no Complexo do Salgueiro. "Olhamos para trás, estava a polícia de verdade apontando o fuzil para a gente, e tinha acabado de acontecer uma chacina naquele dia."

Fazendo o papel de Riobaldo pela terceira vez, o ator diz que esse é o personagem mais fantástico que já viveu. Ele e Luisa Arraes, hoje sua mulher, encenaram a versão de "Grande Sertão" para o teatro assinada por Bia Lessa e também gravaram outro filme.

Luisa Arraes diz que leu a obra pela primeira vez aos 18 anos e que mergulhou fundo na história. "É o livro mais lindo do mundo. É uma daquelas coisas impossíveis de montar, um desafio que está sempre na cabeça de todo grande artista, mas que sempre dá um medo", afirma.

Ela considera o filme o maior desafio de sua vida e diz que, se pudesse, interpretaria esse livro para sempre. "Eu estou pensando que vai acabar amanhã, e o que que eu vou fazer depois disso?"

Na trama a atriz interpreta Diadorim, que na obra original é um guerreiro que vive um amor com Riobaldo. Ao fim do livro, publicado em 1956, é revelado que a personagem era do sexo feminino.

Com a atualização das discussões sobre gênero, a abordagem será diferente no filme --Diadorim poderia ser considerada, por exemplo, uma pessoa não binária. A questão não será discutida diretamente, mas Guel Arraes diz que esse é o principal tema comportamental na adaptação.

Luisa Arraes diz que tentou criar Diadorim no meio do caminho. "Diadorim é muito misterioso, então pode ter a leitura que quiser. Ou estar disfarçado ou se identificar 100% com aquilo", afirma. A atriz conta que precisou malhar por um ano e meio para ganhar os músculos do personagem e que observou mudanças na forma como passou a ser tratada pelas pessoas. "Por mais que seja uma encenação, só o fato de estar mais forte, fazer um personagem masculino, o respeito é outro. Tudo muda."

O diretor diz que a maior emoção de gravar "Grande Sertão" talvez tenha sido trabalhar com a filha. "Tem uma cumplicidade há muito tempo. A gente pegou talvez o trabalho mais difícil da minha vida. Ter ela por perto era uma emoção, um estímulo, uma coisa."

Rodrigo Lombardi, agora no papel de Joca Ramiro, chegou a interpretar o autor Guimarães Rosa em "Passaporte para Liberdade", minissérie da Globo. No novo filme, ele diz que teve dois desafios. O primeiro foi encaixar a poesia do autor na força bruta exigida pelas cenas. O segundo foi tentar entender o universo de Guel Arraes.

"Costumo dizer que a gente está fazendo uma obra de 'Guelmarães'. A cara do Guel está muito no filme. Demorei um pouco para entender esse movimento, mas depois que entendi foi só curtição, um prazer", conta.

Lombardi diz que Guimarães Rosa era um inventor de palavras e que o livro deve ser lido sem titubear. "Ele bate em você e cria uma sensação. A leitura tem que ser corrida. O filme faz isso por você. O ritmo do Guel é o ritmo que a gente tem que ter na leitura do Guimarães. Tem que ser muito fluido", afirma.

Único ator negro entre os principais, Luis Miranda foi escalado para viver o coronel Zé Bebelo, anteriormente imaginado para Lázaro Ramos. Guel Arraes diz que, com exceção de Riobaldo, o personagem é o mais rico e humanizada da trama, "uma das melhores construções do Guimarães". "Era preciso ter um herói negro."

Miranda concorda que Zé Bebelo é um grande herói e diz que o papel foi um presente. "Talvez a polícia seja a que mais oprime os negros. Trazer um Zé Bebelo negro, com ética de comportamento, de julgamento, me parece pertinente. É pertinente que o chefe da lei e o grande herói seja um negro", afirma.

Entre os temas levantados pelo filme, o ator lembra a ética, a diversidade, na figura de Diadorim, e um "apelo sociológico" ao falar sobre uma sociedade "em declive, degenerada, perversa". "Acho que se encontra bem com esse momento Bolsonaro. Uma sociedade cruel, que enquanto tem gente morrendo no hospital quer fazer festa, nossos artistas querendo vender seus abadás. A gente está falando disso."

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