Novo 'Boca de Ouro' resgata o Rio dos anos 1950 da peça de Nelson Rodrigues

EDUARDO MOURA
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Em 1963, quando a peça de Nelson Rodrigues "Boca de Ouro" ganhou sua primeira versão para o cinema, foi um escândalo. O motivo? Em determinado momento na trama, quatro mulheres disputam uma joia oferecida pelo protagonista - quem tiver os seios mais bonitos leva o colar. E elas mostram os peitos. Em 2020, a trama ganha uma nova versão, que estreia nos cinemas agora. Os mamilos, porém, não são mais tão polêmicos. Nesta versão de "Boca de Ouro", o diretor Daniel Filho preferiu trazer uma nova roupagem ao "concurso de seios". "Virou uma cena engraçada", diz. O diretor também envolveu a história numa atmosfera de film noir --ele faz uma ponta como um editor de jornal, munido de suspensórios e óculos de armação estilo Ray-Ban, numa sala rodeada por persianas horizontais. No filme de 1963, Daniel Filho foi Leleco, cujo caminho se cruza com o de Boca de Ouro e a coisa não termina bem. Mas muito do texto original permanece intacto no filme deste ano, como algumas frases emblemáticas -- "o senhor quer dinheiro? Dinheiro há, dinheiro há". A história continua se passando nos anos 1950, mas alguns maneirismos da época, que poderiam ter soado bem na boca de ouro de Jece Valadão há seis décadas, talvez não tenham o mesmo impacto nos dias de hoje. Por exemplo, a fala "doutor, ontem eu tive um 'big' sonho", presente no filme dos anos 1960 e na peça de Nelson Rodrigues, não está na versão mais recente. Marcos Palmeira faz o personagem-título, um bicheiro carioca, recém-assassinado, antes feito por Valadão. A narrativa é desenrolada por um jornalista, papel de Silvio Guindane, que bate na porta de uma ex-amante de Boca de Ouro, a dona Guigui, vivida por Malu Mader, e pergunta se ela tem alguma história do bandido para contar, um caso emblemático, algum um "crime bacana" para narrar. A mulher então começa a falar, mas vai dando versões bem diferentes do que aconteceu à medida em que ela vai mudando de humor. Completam o elenco Lorena Comparato, Thiago Rodrigues e Fernanda Vasconcelos. Segundo o diretor, aquele Rio de Janeiro de mais de 60 anos atrás tem muito em comum com os dias de hoje. Todo sorridente ao longo da entrevista, ele fecha a cara e para um para pensar nos pontos parecidos entre os dois momentos da cidade até apontar o principal - "a pobreza". "[O carioca] tem a necessidade de ter um herói que os ajude. Sonha em acertar no bicho, na loteria. E são meio metidos a malandro." O plano inicial era lançar o filme no início de abril, mas logo tudo na cultura foi barrado pelo coronavírus. Aos 83 anos, o diretor diz que não sai de seu apartamento no Leblon desde março. Em maio, ele disse que estava com três filmes prontos, mas que não conseguia lançar nenhum, uma vez que, naquela altura, a pandemia não permitia. Um deles era "Boca de Outro". Os outros dois são o longa "Silêncio da Chuva" - baseado no romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza - e "Medida Provisória", do qual Daniel Filho não é diretor , mas produtor. Lázaro Ramos estrela o primeiro e dirige o segundo. Nenhum desses dois filmes têm data de estreia definida. Mesmo assim, o cineasta diz que não cogitou lançar "Boca de Ouro" direto em plataformas de streaming. "É um filme para se ver no cinema." Ele diz sentir uma sensação de alívio - não com a estreia de um de seus filmes, mas com a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos. Mas ainda é cedo para falar em otimismo. Um dos motivos é o governo atual. "É um pesadelo que a gente está vivendo com o Trump e o Bolsonaro." Segundo o artista, neste momento "em que a cultura está totalmente arrasada", é fundamental resgatar Nelson Rodrigues --um dos cinco maiores autores na língua portuguesa, em sua opinião. "As coisas boas estão aí para a gente contar outra vez." BOCA DE OURO Classificação: 16 anos Elenco: Marcos Palmeira, Malu Mader, Fernanda Vasconcellos, Thiago Rodrigues e Lorena Comparato Produção: Brasil. 2020 Direção: Daniel Filho