Novas formas de amar: relacionamento aberto, trisal e casal assexual contam suas experiências

Por Daniela Bernardi

Você se sentiria confortável em saber que seu parceiro (ou parceira) está beijando outra? E se eu dissesse que sexo não existe no seu namoro? Agora, imagine uma terceira pessoa se mudando para a sua casa para morar junto com vocês. Impossível? Nada disso! Conversamos com dois casais e um trisal que enfrentaram o preconceito imposto pela sociedade para viver relacionamentos bem diferentes do convencional – e nem por isso com menos amor ou respeito que os demais.

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Sexo? Prefiro fazer bolo

Iracema Thexuga Dog e Rudinei Steffans: sem sexo sim (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu sempre soube que tinha algo diferente em mim. Só não sabia o que era. Não tinha vontade de fazer sexo nem com homens nem com mulheres, mas transava com meus namorados porque, senão, diziam que eu seria traída”, conta Iracema Thexuga Doge, de 24 anos. Mesmo assim, a infidelidade sempre acabava acontecendo. A história só mudou quando, há cinco anos, ela conheceu Rudinei Steffans por meio de alguns amigos. “Logo começamos a namorar e, quando percebemos, estávamos morando juntos.” A leveza do relacionamento tinha dois motivos: ambos eram apaixonados por games e nenhum deles tinha fascinação por sexo.

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Após um ano ao assistir a um documentário, o casal descobriu que havia outras pessoas que nunca (ou quase nunca) tinham vontade de transar: são os assexuais. “A gente prefere fazer um bolo, jogar videogame ou ver um seriado”, resume Thexuga, que explica que a escolha nada tem a ver com celibato ou religião. “Não é questão de moral ou de proibição. Só não sentimos vontade de transar, como você pode não querer fumar cigarro ou comer bacon, entende?”

Briga? Jamais por ciúmes – só se eles tiverem que escolher qual é a melhor série. “Costumam dizer que eu sou assim porque ainda não encontrei a pessoa certa ou porque sofri algum trauma no passado. Não tem nada a ver.”, diz Thexuga. “O amor vai muito além do sexo.” Seu namorado concorda: para eles, um relacionamento de verdade inclui companheirismo, reciprocidade e convivência.

“Conversamos sobre tudo e temos a segurança de que não seremos traídos” diz Rudinei. “Infelizmente, a maioria dos assexuais não conseguem encontrar um parceiro que pensa da mesma forma.” Não à toa, mesmo vivendo em Portugal com o namorado, Thexuga continua participando de diversas comunidades no Facebook voltadas para o assunto. “Gosto de conversar com as pessoas para que elas não tenham medo de ficar sozinha.”

Uma vida a três

Douglas, Thales e Bruno: trisal e muito amor (Foto: reprodução/ Instagram @3travesseiros)

O empresário Douglas de Castro, 38 anos, e o engenheiro químico Bruno Lopes, 28 anos, já namoravam há cinco anos quando decidiram abrir a relação para novas experiências: entraram em um aplicativo como casal e acabaram conhecendo o zootecnista Thales Cardoso de Almeida, 32 anos. “Começamos a sair nós três e logo eu fiquei superapaixonado e já queria que ficássemos todos juntos”, conta Douglas. Não foi difícil convencer os demais – há um ano, o trisal divide o mesmo colchão em Jundiaí, no interior de São Paulo.

“Cheguei a ouvir que o nosso amor ficaria dividido, só que na verdade, ele se multiplicou”, diz Thales. “Uma mãe pode amar dois filhos de verdade, mas cada um de uma maneira, certo? Com a gente, é a mesma coisa!” E, assim como em uma grande família, se por um lado, algumas divergências cotidianas aumentaram um pouco, por outro, as risadas, as conquistas e o companheirismo só aumentaram. “Nosso relacionamento é superleve, mas agora é mais difícil conciliar o que os três querem fazer”, diz Douglas. “Temos personalidades bem fortes. Pelo menos, sempre tem um para mediar a discussão”, brinca Bruno, que confessa que era muito mais ciumento antes de se tornar um trisal.

Hoje, o relacionamento entre os três é fechado – não entra ninguém mais! Só que, quando um não está a fim de sair, os outros dois têm total liberdade para fazer um programa de casal. “Não é porque eu dei um beijo na boca do Thales que tenho que dar na do Douglas”, diz Bruno. Difícil mesmo é achar mesa para três no Dia dos Namorados. “Agência de viagem também nunca oferece promoção para trisal, só para casal. Mas o maior problema é não termos os direitos que vêm junto com a união estável”, destaca Thales. Enquanto a sociedade não evolui para reconhecer o casamento deles, o trio se diverte compartilhando seu dia a dia na conta do Instagram @3travesseiros.

Livres, leves e soltos

Rubens e Beatriz: amor é para ser livre (Foto: Arquivo pessoal)

Desde adolescente, Beatriz Gonçalves, 28 anos, não via sentido em relacionamentos monogâmicos. “Não é só pelo fato de poder ficar ou não com outras pessoas, mas também de ter mais liberdade para fazer o que eu tiver vontade”, diz. O desejo deu match com Rubens Mendel, 27 anos, seu colega na faculdade de educação física e esporte. “Começamos a sair e foi ficando cada vez mais sério. Até que ela disse que achava melhor a gente se ver menos porque ela não queria exclusividade. E eu falei: ok, eu também não quero”, conta Rubens, namorado de Bia há cinco anos. De lá para cá, o casal fechou a relação somente por um ano, mas depois decidiu abrir novamente.

“Rola muita sinceridade e, por isso, contamos tudo o que fazemos. A gente se sente mais seguro assim e, como sabemos o que magoa o outro, não temos tantas restrições. Um dos únicos combinados é não ficar sério com ninguém”, diz Bia. Ainda assim, o ciúmes não é completamente inexistente. “Claro que às vezes eu me incomodo, mas sei que preciso lidar com isso de forma racional”, diz Rubens.

A sintonia é tão forte entre os dois que eles não conseguem apontar uma só vantagem que os namoros monogâmicos possuem. “A única questão é que eu não posso falar abertamente sobre isso com a minha família”, diz Bia. “É claro que há diversos tipos de pessoas e de relacionamentos – o problema é que só nos apresentam uma única forma possível.” Para ambos, a maior prova de amor é ficar feliz com a alegria do outro, mesmo sem fazer parte do momento em si. “Não vejo porque encostar em uma única boca pelo resto da vida é sinal de que o amor é maior”, conclui Rubens.