Nova-iorquinos começam a deixar a cidade devastada pela pandemia

Por Thomas URBAIN
·4 minuto de leitura
Caminhão de mudanças no Queens, Nova York, em 25 de maio de 2020
Caminhão de mudanças no Queens, Nova York, em 25 de maio de 2020

O trauma da pandemia de coronavírus levou muitos nova-iorquinos a deixarem permanentemente a maior cidade dos Estados Unidos, que agora tem muitos apartamentos vazios com o aumento dos preços imobiliários nos subúrbios e nas cidades próximas.

"Eu não estava pronto para ir embora", disse Nick Barnhorst, lembrando o que sentia em fevereiro. Este amante da cidade de 41 anos, morador da Big Apple há mais de uma década, já estava pensando em se mudar, mas talvez em um ano e meio.

No entanto, poucas semanas depois, sua esposa engravidou do terceiro filho e o coronavírus devastou Nova York. De repente "tudo indicava que deveríamos sair daqui o mais rápido possível", conta.

Na próxima semana, Barnhorst deve assinar uma promessa de compra de casa em Mamaroneck, uma pequena cidade ao norte de Nova York. "Eu sempre senti que ir embora partiria meu coração", disse este nativo da Califórnia. "Mas hoje não poderia estar mais animado".

Um amigo de Barnhorst, que foi visitar seus sogros no início de março em Massachusetts, fez algo ainda mais radical. Ele nunca mais voltou a morar em Nova York.

Com sua esposa grávida de oito meses, ele vendeu seu apartamento e comprou uma casa em Bronxville, uma cidade localizada ao norte do distrito de Bronx.

"Nada que faz que Nova York seja Nova York funciona atualmente", opina Barnhorst, mencionando teatros, bares, cinemas, salas de concerto e museus que não reabriram. "É mais fácil deixar a cidade".

Em um mercado imobiliário em expansão, que "não deixa espaço para negociação", Barnhorst teve que se apressar para encontrar a casa que queria.

Perto da cidade de Montclair, em Nova Jersey, existem propriedades que são vendidas 20% acima do preço solicitado, de acordo com dados de Richard Stanton, proprietário da agência imobiliária Stanton Realtors.

"Eu não esperava uma demanda tão forte", disse esse agente imobiliário, que espera que a oferta se adapte à demanda apenas em seis meses ou até um ano.

Um morador de Darien, uma cidade de Connecticut, disse que recebeu várias ligações de potenciais compradores, embora sua casa não esteja à venda. "É a primeira vez que isso acontece comigo", disse esse homem que pediu anonimato.

A cidade de Nova York, epicentro nacional do coronavírus, registrou mais de 215.000 casos confirmados de coronavírus e mais de 23.000 mortes desde março, embora o número de infecções e mortes venha diminuído há semanas.

- Fator teletrabalho -

O governador Andrew Cuomo e o prefeito Bill de Blasio comparam regularmente a situação atual com o que aconteceu após os ataques de 11 de setembro de 2001, outro grande trauma sofrido pela cidade, e prometem a mesma recuperação.

Em termos imobiliários, as repercussões dos ataques "foram anedóticas", disse Stanton. "Depois de 11 de setembro, o orgulho dos nova-iorquinos me fez querer morar em Nova York", disse Dillon Kondor, um guitarrista que era adolescente na época e morava nos subúrbios da cidade.

Kondor, que trabalhou em vários musicais da Broadway, também deixou Nova York em junho e se mudou para um apartamento em Tarrytown, no vale do rio Hudson. Ele tomou a decisão em um dos primeiros dias ensolarados da primavera, durante uma caminhada com a esposa pelo movimentado Central Park, onde sentiu que poucos estavam usando máscaras. Na volta do passeio, "um de nós disse: temos que sair desta cidade".

Caminhões em movimento enchem as ruas de Nova York em julho. No sul de Manhattan, mais de 5% dos apartamentos estão vazios, algo nunca visto por 10 anos, quando a imobiliária Miller Samuel começou a publicar suas estatísticas.

Mais do que com o 11 de setembro, Stanton compara a situação atual com o período 2003-2005, quando o aumento dos aluguéis empurrou muitos nova-iorquinos para fora da cidade.

Ele se lembra também dos anos 70, marcados por uma piora dos serviços públicos e um aumento do crime que levou muitos a deixar da cidade.

Desta vez, contudo, além do efeito do coronavírus, "há uma tendência mais forte ligada ao fato de que haverá mais pessoas trabalhando em casa", ressalta Stanton. Em muitos casos "teremos uma semana mais curta no escritório".

Esse movimento pode acalmar a febre imobiliária em Nova York e permitir que uma nova geração se estabeleça em uma cidade antes inacessível, imagina o agente imobiliário.

Dillon optou inicialmente por alugar enquanto aguarda a reabertura dos teatros da Broadway. Mas é difícil para ele se imaginar voltando a Nova York. "Há muita incerteza", afirma.