Mulheres de 40 anos na internet: no limbo ou fora das caixinhas?

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Mulheres de 40 anos existem e precisamos falar sobre o conteúdo que produzem (Foto: Reprodução/Instagram)
Mulheres de 40 anos existem e precisamos falar sobre o conteúdo que produzem (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Susana Cristalli (@susanacristalli)

Mesmo com o sucesso – dentro e fora da internet – de comunicadoras como Rita Lobo, Maju Coutinho ou Fernanda Lima, o olhar da mídia ainda não se acostumou a associar as 40+ com conteúdo relevante e moderno. Na verdade, não sabem com o quê associá-las. Porque as mulheres de 40 anos, no online, não cabem em uma caixinha só.

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Na verdade, ninguém cabe. É o que acredita Julia Petit, influenciadora desde antes dessa palavra existir, e hoje fundadora da marca de skincare Sallve: “O meu sonho é que a gente pare de separar o conteúdo por idade”, diz. Para ela, definir interesses de acordo com datas de nascimento é uma atitude autoritária.

“Criar conteúdo baseado nisso é limitante e estigmatizante”, diz.

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“Porque o que identifica as pessoas é o estilo de vida e não a idade. Eu posso te explicar como aplicar base em uma pele mais ressecada ou com mais linhas finas, mas essa pele pode ser de uma pessoa de 60 anos ou uma mais jovem que vai muito à praia, por exemplo”, diz Petit. Por isso, ela sempre se incomodou ao ver manchetes sobre famosas – nunca famosos – fazendo algo supostamente surpreendente para a sua idade. Como, por exemplo, usar biquíni ou ser feliz.

Etarismo: assunto quente

“Parece que não existimos, de verdade. Acho que não dão espaço para mulheres 40+ fora dos estereótipos porque não têm onde encaixar. Não somos mocinhas e nem senhoras”, concorda a publicitária Gabi Bianco, que tem mais de 12 mil seguidores no Twitter.

No mundo dos creators parece haver uma lacuna: de um lado uma massa abaixo dos 35 anos, do outro alguns infuencers acima dos 55, como Consuelo Blocker. E no meio do caminho?

“A geração que está hoje entre 40 e 50 é a primeira que está explodindo em variação, hoje é difícil fechar em um perfil único de mulher de 40 para criar um conteúdo formatado nesse sentido”, diz a jornalista Clarissa Passos, uma das fundadoras e autoras do Garotas que Dizem Ni, de 2003 a 2008. “E essa geração não é nativa digital, ao mesmo tempo em que algumas de nós se tornaram grandes consumidoras deste ambiente, outras usam a internet de forma apenas instrumental”, diz.

Na prática, muitas produtoras de conteúdo esbarram no estranhamento do mercado. “Esperam que uma mulher acima dos 40 fale somente de filhos, marido, divórcio, menopausa, nunca de moda, cultura, gastronomia, sexo, viagens. Há padrão até para se envelhecer”, diz Flávia Durante, jornalista, DJ e idealizadora do bazar Pop Plus. Por isso, falta representatividade. “Principalmente para mulheres que têm um lifestyle mais livre, independente e fora do padrão. Eu acabo sendo minha própria inspiração, não me identifico com ninguém nisso”, diz Flávia.

O que é “aparentar a idade”?

A atriz Maria Thalita de Paula sentiu esse incômodo ao fazer 40 e, despretensiosamente, tuitou o desabafo abaixo.

Quando viu, havia viralizado com mais de 37 mil likes. “Durante a quarentena li inúmeros tuítes, muitos deles de pessoas muito novas, com a palavra ‘velho, velha’ de forma pejorativa. Pra mim não deve existir o que é próprio de gente jovem e o que é de gente velha, colocando um como melhor que o outro”, explica.

A idade não pode determinar a fase que vivemos

Hoje muita gente amadurece sem ter necessariamente passado por todos os marcos da idade tradicionalmente esperados, e o online reflete isso. “Tem toda uma geração de mulheres que tinha uma ideia de chegar aos 40 anos como nossas mães, e agora tá aí vivendo uma vida muito parecida com a dos 30” diz Gaia Passarelli, escritora e editora-chefe do BuzzFeed Brasil.

“Minha terapeuta uma vez me disse que ‘eu não tenho a minha idade’. Achei essa frase bonita, mas ao mesmo tempo, o que é ter minha idade, 43 anos, em 2020?” diz.

Ainda mais na internet, um espaço que por sua própria natureza quebra as barreiras impostas por definições mercadológicas. É o que diz a Júlia Petit. “Quando você tá numa rede social é uma mistureba de tanta gente muito jovem e mais velha, gente de todo tipo, e ninguém está com uma carteirinha se identificando, a gente tá trocando ideia”, diz.

Para Gaia Passarelli, aparentar a própria idade é libertador:

Não quero ficar presa nessa coisa de ‘pareço mais nova’. É mais saudável, pra cabeça, parecer ter a idade que eu realmente tenho

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