Homens transexuais podem engravidar? Especialistas explicam

Homem trans dá à luz um menino

Casos como o do americano Wyley Simpson, transexual de 27 anos que engravidou seis anos após ter iniciado o processo de transição de gênero, são raros, mas não impossíveis, segundo os especialistas entrevistados pelo Yahoo.

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“O processo de transição de mulher para homem segue um protocolo médico, que se inicia com uma avaliação psicológica/psiquiátrica, seguida do uso de hormônios masculinos, que vão favorecer a mudança física do transexual”, explica o ginecologista e sexologista José Carlos Riechelmann, que também é presidente do Departamento Científico de Medicina Psicossomática da APM (Associação Paulista de Medicina).

A aplicação de testosterona favorece o crescimento de barba e de pelos pelo corpo, o aumento dos músculos, além de ajudar a engrossar a voz. Mas não só. “O hormônio masculino acaba ainda bloqueando o funcionamento do ovário e inibindo a ovulação, o que dificulta uma possível gestação”, alerta Amanda Athayde, endocrinologista e membro da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

Qualquer descuido, no entanto, pode furar o bloqueio do ovário. “Seja pelo esquecimento de tomar a injeção ou até por ter tomado uma injeção vencida”, aponta Athayde. “O uso da testosterona atrapalha, mas não impossibilita a gravidez. Não é um método contraceptivo 100% garantido”, acrescenta Riechelmann.

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Possibilidade que só é definitivamente anulada com a cirurgia de remoção dos órgãos reprodutores femininos –ovário, útero e trompas. “Essa é a quarta etapa do processo de transição, que ocorre após a remoção das mamas, mas que depende do aval do laudo psicológico. A partir desta etapa não há chance alguma de uma gravidez”, destaca Athayde, que diz que o procedimento cirúrgico no país pode ser feito gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

“A retirada da mama e dos órgãos reprodutores femininos se faz necessária porque o uso do hormônio masculino aumenta a chance do desenvolvimento de câncer de mama e de útero”, afirma Riechelmann. Etapa essa que o americano de 27 anos ainda não tinha sido submetido.

Por fim, o transexual pode optar pela preservação do órgão genital feminino ou ainda por uma mudança genital. “Nesse caso, é possível aumentar o clitóris para que ele se transforme em um micro pênis. Nessa cirurgia, a uretra é transportada para que o trans possa fazer xixi em pé. Já os grandes lábios são fechados e duas próteses são usadas para formação do saco escrotal”, explica a endocrinologista. Outra opção, segundo ela, é recorrer a um pênis artificial.

“Na cirurgia que reaproveita o clitóris, a vida sexual do transexual é mais preservada. Sensibilidade que pode ser perdida com o pênis artificial”, aponta Athayde.

Pode ser um risco para o bebê?
Ao descobrir a gravidez, de acordo com Riechelmann, o transexual deve imediatamente suspender o uso da testosterona, que pode provocar o aborto do bebê ou até a má formação do feto. “Vale ressaltar que o processo de transição não sofrerá uma regressão, apenas será retarda”, afirma o ginecologista.

“O uso do hormônio masculino só pode ser retomado ao final da amamentação, isso é claro se o homem trans puder amamentar a criança. Caso contrário, pode ser iniciado após o nascimento.”

Os transexuais que engravidarem após a remoção das mamas, como é o caso Wyley Simpson, são impossibilitados de amamentar.  Isso porque, a mastectomia também remove as glândulas mamárias –responsáveis pela produção do leite materno. Mas isso não representa necessariamente um dano ao bebê. Até porque os pais podem recorrer ao banco de leite materno ou às fórmulas.