'Noé' tem polêmicas e um Russell Crowe menos 'canastrão'

Paloma Guedes

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A 'Arca de Noé' talvez seja uma das histórias biblícas mais populares. Muitos não-religiosos já ouviram falar, pelo menos uma vez na vida, sobre o homem que recebeu uma mensagem de Deus, construiu uma arca e salvou os animais de um dilúvio. Esse é o resumo básico. Se você quiser se aprofundar, é só buscar detalhes no livro sagrado. Se quiser ficar no meio termo e se distrar no cinema, basta assistir ao polêmico filme de Darren Aronofsky.

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Logo no início, por causa de um didatismo extremo ao retratar a criação do planeta Terra, Adão e Eva, o pecado e tudo o que de ruim aconteceu no mundo depois disso, 'Noé' parece mais uma caricatura infantilizada de algo muito sério. É impossível não pensar nisso ao se deparar com um cobra verde feita com efeitos especiais ou guardiões de pedra que mais parecem os 'Transformers'.

Mas a necessidade e importância dessa explicação clara, principalmente para os que não são familiarizados com a história, se mostra mais que necessária. E a brutalidade visual e narrativa dos fatos em sequência tiram qualquer dúvida de que um grande filme épico está por vir.

Até a tal cobra, que eventualmente aparece nos sonhos de Noé, se torna mais digerível no universo de belas e surreais imagens que o diretor insere na trama. É um filme visualmente lindo, com efeitos em 3D dispensáveis e uma história pesada.

Quanta à história... bem, o simplismo religioso que prega a punição certa para os pecadores e daí a necessidade de que as pessoas devem ser boas, exatamente para escapar desse castigo é algo incômodo para quem espera mais, não só da humanidade quanto de um bom filme.

O roteiro até tenta ir além usando os questionamentos do personagem principal sobre merecimento, punição, bem, mal e justiça, mas ainda assim parece que está seguindo um manual básico que diz: 'se você não cuidar bem do mundo e das pessoas, tudo pode desaparecer'. O que faz muito sentido em tempos de sustentabilidade e luta contra todo o tipo de preconceito e intolerência. Mas ainda assim, falta algo.

E acredito que falte exatamente porque o diretor priorizou uma proximidade com a história clássica, como muitos líderes religiosos negam. Principalmente pelo currículo de Aronofsky, que foi responsável por filmes pertubadores como 'Réquiem para um Sonho' e 'Cisne Negro', 'Noé' poderia ter extrapolado as barreiras históricas e ter partido para questionamentos muito profundos sobre a natureza humana e tudo o que de pior e melhor somos capazes de fazer.

Mesmo assim, 'Noé' é um bom filme e que vale ser visto, pensado e discutido. Russell Crowe, deixa os ares de canastrão de lado e surpreende como um angustiado pai de família responsável por uma difícil missão. E nessa missão, estão os membros da sua família: o avó Matusalém (Anthony Hopkins), a esposa Noéma (Jennifer Connelly), os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman), Jafé (Leo McHugh Carroll) e Ila (Emma 'Hermione' Watson), sua filha adotiva/nora.



Na trama, Noé recebe um aviso divino: o mundo caótico e cruel será destruído em um dilúvio e todos devem morrer, exceto os animais - criaturas puras que vivem como se estivessem no Paraíso. Noé então constrói a tal arca e encontra formas para que tudo funcione, até se deparar com um grande dilema: se os humanos são culpados pela ruína do mundo, porque ele e sua família devem sobreviver? Se esse é um recomeço, que seja para os que sabem como lidar com o que lhes foi dado pelo Criador, certo?





















Pois bem, a partir daí o principal conflito do personagem que pesa sobre sua família cria uma atmosfera de suspense e angustia até o final, mesmo que muitos já saibam como essa história termina.

Pelo visto, desde a criação do mundo - tenha sido ele feito por Deus ou por pura ciência - a vida não tem sido fácil para os homens de pouca ou de muita fé.