Nos EUA, setor paga US$ 70 mil ao ano e não exige estudo, mas enfrenta escassez de profissionais

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RESUMO DA NOTÍCIA

  • Ser motorista de caminhão é um trabalho bem remunerado nos EUA, embora um estilo de vida que ‘sacrifique’ o profissional.

  • Setor aponta escassez de 51 mil trabalhadores no país; carteira de habilitação, nesse caso, só a partir de 21 anos.

Embora a remuneração de um motorista de caminhão pareça tentadora, nos Estados Unidos, o país enfrenta uma escassez de 51 mil trabalhadores no setor, de acordo com dados de 2017 da American Trucking Associations (ATA).

A informação é da BBC News Mundo, que ouviu fontes que apontam que um dos problemas é a alta rotatividade de caminhoneiros nas grandes empresas. Ou seja: sempre há vagas a serem preenchidas.

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A reportagem ouviu Monte Wiederhold, de 62 anos, que há 40 deles trabalha como motorista de caminhão nos Estados Unidos. Dirigindo todos os dias, ressalva: "não há um dia igual ao outro" - e passa em média de três a quatro noites por semana fora de casa.

"Ser caminhoneiro é um trabalho árduo, sacrificado. Você precisa lidar com o trânsito, com as entregas e ficar longe da família", narra Wiederhold, casado há 35 anos e pai de duas filhas.

"Eu era caminhoneiro antes de a gente se casar, então ela sabia mais ou menos no que estava se metendo. Às vezes, é difícil. Não é um trabalho normal das 9h às 17h", diz Wiederhold, por telefone, de Cincinnati, Ohio.

De acordo com ele, o salário médio anual de um motorista de caminhão experiente nos Estados Unidos varia de US$ 70 mil a US$ 75 mil.

A cifra é bem superior ao salário médio de um trabalhador americano --em torno de US$ 44 mil ao ano.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, a escassez desse tipo de mão de obra no país, embora a remuneração seja maior que a média geral do país, se deve a uma combinação de fatores que influenciam a alta demanda por trabalhadores nesse setor.

"Como a economia está indo bem, muitas coisas estão sendo transportadas. Mas também há uma questão demográfica. Muitas pessoas estão se aposentando, e não há jovens suficientes entrando na profissão", explicou à BBC Mundo o diretor de operações da Sages Schools, autoescola para motoristas de caminhão, Chris Thropp.

Não é preciso estudo específico

Ser motorista de caminhão não demanda nenhum estudo específico. Para trabalhar, porém, é necessário ter carteira de motorista. Para fazer viagens interestaduais, a habilitação só pode ser obtida a partir dos 21 anos.

"O que acontece é que, quando os alunos terminam o ensino médio com 18 ou 19 anos, procuram outras profissões antes de cogitarem serem motoristas de caminhão, já que não podem entrar (nessa profissão) por causa da idade. Com isso, o setor perde muita gente que nem sequer pensou na possibilidade. Embora seja um trabalho muito bom e que pode ser muito bem remunerado", define Thropp.

Por outro lado, enquanto as grandes empresas dizem que há escassez de caminhoneiros, as pequenas afirmam que é apenas uma questão de rotatividade.

Fontes consultadas pela BBC News Mundo apontam que o salário inicial de um motorista de caminhão é de cerca de US$ 45 mil por ano - e pode chegar facilmente a US$ 70 mil com alguns anos de profissão.

"Pode ser uma carreira muito boa", diz Thropp, cuja empresa é dona de 25 autoescolas nos Estados Unidos. De acordo com ele, recentemente, houve um aumento no número de matrículas devido ao crescente interesse em ingressar na profissão.

"As empresas estão pagando mais e estão oferecendo bônus e pacotes de benefícios."

Por outro lado, advertiu: "É difícil encontrar pessoas qualificadas".

Ao jornal americano The Washington Post, meses atrás, o economista da ATA, Bob Costello, definiu que “está difícil como sempre foi" encontrar motoristas. Mas ressalvou: "As empresas estão fazendo todo o possível para atraí-los: aumentam os salários e a frequência das folgas, mas isso significa que não estão dirigindo tantos quilômetros."

As condições de emprego podem ser muito desanimadoras, em alguns momentos, o que não incentiva novos profissionais a entrar no setor.

Escassez de 51 mil trabalhadores

No final de 2018, a ATA confirmou que os Estados Unidos tinham uma escassez de 51 mil caminhoneiros, em comparação com 36 mil em 2016. Para este ano, a previsão é que esse número aumente.

Para o presidente da Associação de Proprietários e Motoristas de Caminhões Independentes (OOIDA, na sigla em inglês), Todd Spencer, entretanto, não há, realmente, uma escassez.

"Há um segmento da indústria de transporte que tem problemas para manter os caminhoneiros. São as mesmas pessoas que dizem que faltam motoristas de caminhão. Mas quando você olha quantos caminhoneiros existem, há uma rotatividade de 94%. O que acontece é que eles têm um problema enorme de retenção", explica ele para quem a alta rotatividade se deve à falta de incentivos.

"Há uma combinação de condições de trabalho: o pagamento e os benefícios não são muito atraentes por muito tempo", pondera. "As empresas estão oferecendo bônus altos aos caminhoneiros, mas a verdade é que você só tem acesso a esse dinheiro se ficar na empresa por um longo tempo."