Nomadland - Crítica do Chippu

·4 minuto de leitura

Em um certo momento de Nomadland, Fern (Frances McDormand) passa na frente de um cinema. É 2012 e só há um filme em cartaz: Os Vingadores. É o momento no qual os mundos da diretora Chloé Zhao se cruzam, o silêncio e personalidade da sua premiada obra com o futuro na terra de franquias do Marvel Studios. Na verdade, é o tipo de cena que deixa ainda mais impressionante a ideia de vê-la comandando Eternos em novembro deste ano, já que ela encapsula tudo o que torna este longa-metragem especial - a personagem, seu cenário e o contexto no qual ela está inserida.


A personagem é Fern, uma mulher que decide adquirir uma van e seguir o estilo de vida nomádico adotado por diversos norte-americanos no começo dos anos 2010, após a grande crise imobiliária responsável por detonar a economia o país em 2008, partindo de trabalho em trabalho, cruzando os Estados Unidos e se encontrando com seus irmãos e irmãs da estrada em acampamentos e reuniões periódicas. Para contar essa história, Zhao reuniu McDormand com apenas mais um ator profissional - David Strathairn - e uma série de nômades modernos interpretando versões levemente fictícias de si mesmos, partindo numa viagem de exploração pessoal, de perda e de uma nova visão de mundo.


O resultado é quase como um documentário dos sonhos. Zhao, também trabalhando como diretora de fotografia no filme, aplica constantemente o uso de ângulos ultra abertos para mostrar a imensidão dos cenários pelos quais esses homens e mulheres andam, as montanhas com formações rochosas únicas, os desertos sem um pingo de movimento e as árvores que, dizem os historiadores, uma vez permitiam que os EUA fossem cruzados de costa a costa sem sequer pisar no chão. A mesma abordagem visual é usada nos closes. Fern e outros motoristas são colocados no centro do enquadramento, criando a sensação de estarem estão no meio de uma enorme vastidão. Sua direção e controle permanecem impecáveis a cada curva feitas pelo veículos


Nesses closes, os nômades dão testemunhos dignos de um trabalho documental, afinal, boa parte das histórias são reais. Eles capturam a imaginação da protagonista e da audiência ao revelar seus motivos para morar no volante, seja a perda de um parente amado, a decepção financeira do mercado capitalista ou até mesmo o sentimento de conexão com a natureza, dando um novo gás na vida quando tudo parecia ter atingido um estado de estase. Muitos deles aparecem no primeiro ato e voltam depois, através de um vídeo, uma memória ou um reencontro. Quando isso acontece, nos sentimos como Fern, revendo amigos após anos e quilômetros de espera.


E então eles dirigem. Através de um mundo sempre no nascer ou pôr-do-sol, de paisagens que, ao mesmo tempo, saíram de um sonho e estão firmadas na realidade, conhecendo mais figuras curiosas e muitas vezes se recusando a plantar raízes em algum lugar. Fern serve como nossos olhos aqui. McDormand é o coração do filme. Nomadland não existe sem ela e sua atuação brilhante, cheia de nuance e sutilezas, criando uma personagem cujo sorriso parece sempre esconder tristeza. Seu rosto dá a impressão de estar sempre à beira das lágrimas, mas seu olhar permanece estrada à frente.


Eu assisti a Nomadland logo após ver Margin Call, estreia diretorial de J.C. Chandor, e os dois formam uma dupla interessante. Margin Call é sobre uma das firmas por trás da crise imobiliária de 2008, se preocupando apenas com seu próprio lucro mesmo e pouco se importando com as pessoas que seriam atingidas pelas ondas no fim deste tsunami. Nomadland é o outro lado desta moeda. Ele é sobre as consequências, mas num nível mais pessoal, mais etéreo e particular. E ele funciona exatamente desta maneira, tratando as políticas mais como algo de fundo e dando ênfase na bondade, laços e conexões que os nômades encontram em seu grupo ou na própria terra.


É, então, possível que você termine o filme desejando um pouco mais. Zhao parece apenas piscar na direção do mundo capitalista injusto que forçou Fern e outros a tomarem este caminho, e essa parece ser sua intenção. A diretora está mais preocupada numa jornada de personagem, não na exploração de sistemas, o que não é, em si, um problema. Mas quando há um discurso ou uma exposição sobre os bancos, o governo e tudo mais, Nomadland sempre hesita em pisar no acelerador e prefere evitar qualquer tipo de conflito.


Mas no que busca ser, Nomadland atinge todos os objetivos. Este filme cria um mundo, coloca você completamente dentro dele, capturando seus sentidos e sensações para uma roadtrip com uma personagem tridimensional, profunda e interpretada por uma das melhores atrizes da geração. Chloé Zhao, acima de tudo, mostra seu talento como diretora, nunca tirando a mão do volante, evitando todos os buracos e nos levando não a um destino, mas a outro passeio.


Nota: 4/5