Noite em 2022 teve volta dos inferninhos e massificação das baladas eletrônicas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem diz que a noite está caída ou que as baladas morreram é porque não sai de casa. Neste ano, a cena noturna de São Paulo retomou seu gás total pela primeira vez desde a pandemia, num retorno com entradas esgotadas dias antes dos eventos, festas completamente lotadas e ingressos e bebidas inflacionados.

Dois movimentos bem distintos marcaram a noite na cidade -o aumento de público das festas eletrônicas em fábricas abandonadas, por um lado, e, por outro, o retorno das baladas tipo clubinho para poucos.

Isso deixa as casas noturnas tradicionais numa posição mais complicada, espremidas entre os dois extremos, num contexto em que os jovens passaram a se desinteressar por boates, segundo uma pesquisa do Datafolha.

A novidade inesperada de 2022 foi o retorno dos clubinhos. Não que eles não existissem antes, mas neste ano eles ganharam força e se multiplicaram. Durante alguns meses, funcionou nos fundos de um boteco na avenida São João o Club Privet, frequentado por pessoas interessadas em ficar nuas em público e gente que sai à noite há décadas.

Contrário ao que o nome indica, o local não era secreto, no sentido estrito da palavra, mas a balada não tinha redes sociais --algo inimaginável para uma casa noturna- nem qualquer sinalização na rua. Quem chegava precisava bater na porta de uma garagem para entrar.

A divulgação era feita pelos DJs e promoters na semana da festa, o que naturalmente selecionava o público e filtrava os paraquedistas que não tinham nada a ver com o local. Justamente por isso, a pista do Privet tinha clima amigável até para quem ia sozinho. A cabine do DJ era frequentada por nomes respeitados da cena eletrônica, como Pil Marques, Vermelho e Gezender.

A poucas quadras dali, a Bute levou o povo do design gráfico, da moda e quem tinha Fotolog em 2007 para uma pistinha subterrânea no novo clube N/A, de "not available", não disponível. No som, acid, disco, house e dub, no que os produtores chamam de "uma viagem soft frita". Lembra as fotos de balada do final da década de 2010, com o flash estourado na cara do povo? É esse o espírito da festa, que casa bem com a adoção, pela geração Z, das câmeras digitais do tipo "point and shoot", comuns naquela época.

Quem buscava um local pequeno mas sem ambiente de inferninho tinha mais opções -a Katz, festa que ocupa um apartamento no último andar do edifício Mirante do Vale, um dos mais altos da cidade, de onde se tem uma vista absurda do vale do Anhangabaú, e a Opa, balada itinerante de música brasileira que rola em bares sempre com uma área aberta e tem o diferencial de acontecer cedo, entre cinco da tarde e meia-noite, atraindo uma galera que quer ferver mas diz que não tem mais idade para varar a madrugada.

O ano será também lembrado pela explosão no número de frequentadores de festas antes populares mas não tanto, como Blum, ODD e Mamba Negra --esta foi lembrada por Linn da Quebrada no Big Brother Brasil, numa cena que viralizou nas redes, e teve até uma edição no parque de diversões Hopi Hari.

Muito já foi falado sobre como essas baladas eletrônicas, uma assinatura da noite paulistana, oferecem um espaço de índole progressista que acolhe todas as sexualidades e corpos, e em 2022 muito mais gente teve acesso a isso. Em outras palavras, o que já foi "underground" virou "mainstream", mas o aumento de público não significa que as festas tenham perdido seus fundamentos.

Com sua política de oferecer entrada grátis para pessoas trans, não binárias e drag queens, e também uma leva de ingressos a valores acessíveis, a cena das "festas nos galpões" não é só uma reunião de gente de classe média ou alta que pode gastar R$ 200 numa balada -um valor realista em 2022-, embora esse público esteja presente.

Exagerando um pouco, a junção de tipos tão diferentes nessas pistas, todos unidos pelas batidas do techno, é a democracia que se realiza na prática, mesmo que só num sábado por mês, e de madrugada.

Com muita gente vacinada com três ou quatro doses contra a Covid, o ano possibilitou ainda a volta dos grandes festivais, como DGTL e Time Warp, e a estreia de outros, a exemplo dos vinculados às festas Batekoo -proposto por e para a comunidade negra- e Selvagem.

Sobre esse último, que tinha três pistas com som diferente em cada uma, a escritora Gaía Passareli, conhecedora da noite paulistana, afirma que ele foi "um exemplo de como a noite de São Paulo continua diversa e divertida". "É muito legal ver a Selvagem, que começou pequenininha, de graça, ali no Paribar, e agora é uma festa para sei lá quantas mil pessoas no estádio do Canindé."

Quem faz as festas são também seus personagens. O troféu personalidade da noite 2022 vai para Stella Pilagallo, frequentadora, influenciadora e hostess de baladas que mostrava para seu seguidores, pelos stories do Instagram, suas maratonas em brechós e na rua 25 de Março atrás dos looks mais incríveis para arrasar nas pistas. Quando as festas acabavam, já de manhã, ela se postava comendo hambúrguer e batata frita, clássica larica antes de ir para casa.

Além disso, na ausência de roteiros com as melhores festas, Pilagallo fazia uma seleção de onde iria na semana e avisava seus seguidores, numa sequência de stories que funcionava como agenda do que estava rolando. Só ficou em casa quem quis.