No podcast de Seu Jorge e Mel Lisboa, a pandemia dura 30 anos e "só os covardes sobrevivem"

Mel Lisboa em 'Paciente 63'
Mel Lisboa em 'Paciente 63'

"Depois da vacinação mundial, o vírus ficou em latência. Nem todos tiveram imunidade. Aos oito anos, eu já tinha sido imunizado 15 vezes. Basta um erro em cada réplica, uma proteína mal codificada, para que mute. E foi isso que aconteceu no corpo de uma moça, que detonou a quarta onda, a última. E depois, tudo terminou". A voz de Seu Jorge anuncia um fim do mundo perturbadoramente parecido com o atual no podcast 'Paciente 63', estreia recente do Spotify que traz um suposto viajante do tempo (Seu Jorge) tentando convencer sua psiquiatra, interpretada por Mel Lisboa, a ajudar a evitar o apocalipse por um vírus de transmissão respiratório, chamado Pégaso.

Ouvir os dez episódios da série de ficção científica relembra a angústia mental que sentimos com o agravamento da pandemia da Covid-19, quando passávamos todo nosso tempo livre rolando o feed das redes sociais lendo notícias trágicas, descobrindo novas variantes do vírus e inúmeras maneiras pelas quais a humanidade poderia encontrar seu fim. A trilha sonora, a brevidade dos episódios e o clima propositalmente tenso das conversas entre os personagens acentua esse desespero existencial.

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Em 'Paciente 63', Seu Jorge é Pedro Roiter, viajante do tempo que explica que vem de 2062, período "entre pandemias". A explicação de Pedro sobre como o mundo acabou é assustadora exatamente por misturar elementos da nossa realidade com teorias conspiratórias fantasiosas: o Pégaso é um desdobramento perfeitamente possível da Covid-19, e histórias como as redes sociais "implodindo" após grupos de haters criarem uma "egrégora" de punição e cancelamento poderia muito bem se passar em 2021.

"A ciência foi rápida em amenizar essa desgraça da Covid-19, essa tragédia. E mesmo assim hoje vemos a luta que a ciência está tendo para ter credibilidade, não ser censurada. Temos desafios da ordem geral, do entendimento. Meu personagem vem do futuro para tentar iluminar esse conhecimento, trazendo questões que estamos próximos de viver. O que nos aflige é exatamente não saber o futuro", explicou Seu Jorge sobre a trama.

Em outro momento assustador da narrativa, 'Paciente 63' mostra algo que enfrentamos desde 2020: a demonstração de que um fim do mundo lento e gradual é muito mais perverso do que eventos como um cometa ou uma onda gigante. Assistir ao próprio fim é muito mais perturbador que um extermínio gradual. e a trama acerta trazendo essa verossimilhança para os discursos dos personagens.

"O horror do fim do mundo não é o seu imediatismo, é o desgaste progressivo da espécie. Nas primeiras pandemias aprendemos a nos proteger, ficar confinados. Com o Pégaso, pensamos, OK, mais um vírus, vamos ficar trancados em casa. As vacinas controlaram ele por um certo tempo, mas o vírus foi mudando. 30 anos de desgaste e tudo começou a desabar: todos foram se isolando, abandonaram as cidades evitando o contato. Os que agiram como se nada tivesse mudado morreram logo. Tem um velho ditado: os covardes sobrevivem. Eu fui um deles", conta Seu Jorge.