No mundo machista, mulheres não são vistas como parceiras de vida

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Foto: Getty Criative
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Quando se fala em machismo, o que passa pela sua cabeça? Violência contra a mulher, assédio, comentários misóginos, relacionamentos abusivos, ausência de mulheres em cargos de liderança. Os termos parecem óbvios e até soam repetitivos. Tem homem que acha que já não tem mais o que aprender, pois coloca a discussão como se fosse necessária apenas para quem tem comportamento agressivo. Aí escutamos as frases: "Eu jamais levantaria a mão para uma mulher"; "Não me incomodo se ela ganha mais"; "Admiro sua independência e liberdade sexual". Que bom! Mas está na hora de falarmos também sobre o machismo sutil, aquele que até nós, mulheres, muitas vezes não percebemos. É o que vem dos nossos amigos, companheiros, homens que gostamos e escolhemos levar para a vida.

Há pouco tempo uma discussão sobre homens se relacionarem com mulheres, mas só amarem e admirarem homens, ganhou as redes sociais. E faz muito sentido. Visualizar isso é o que talvez seja difícil para eles. Pensando em escrever um texto sobre o Dia Internacional da Mulher, comecei a refletir sobre meus relacionamentos e concluí que, de fato, mulheres são fetiches, mas nunca parceiras intelectuais. Admitir isso é doloroso e me faz revisitar momentos que não foram agradáveis (e adivinhem só: eu nem me dava conta).

Somente agora, aos 27 anos, percebi que apesar de ter gostos e interesses em comum com muitos homens, sempre encontrei dificuldade de ser acolhida por eles. É bom reforçar que aqui não falo sobre interesse sexual. Para isso, as portas ficam abertas. Me refiro ao que chamamos de troca, cumplicidade, parceria. É como se barreiras fossem criadas. A maioria só cultiva amizade com homens, leem homens, admiram homens, saem com homens.

Lembro de uma vez que queria muito ir para uma festa que nenhuma das minhas amigas ia. Combinei com dois amigos queridos que já tinham confirmado presença. Resultado: me senti um peixe fora d'água. Eles não ficaram confortáveis comigo. Senti que evitavam alguns assuntos, não faziam as piadas que queriam, falaram entre eles (e eu ouvi) que não iam chegar em outras mulheres porque eu estava lá. Sutilmente. Só saquei porque sou observadora demais.

O clima, que já não estava legal, piorou quando um deles me disse que só não ia ficar comigo para não estragar a nossa amizade. Aquilo nunca tinha passado pela minha cabeça. Aí entendi que, na visão dele, a única justificativa para eu estar na roda seria meu suposto interesse por alguém do grupo. Na hora de ir embora, constrangida, pedi desculpa por ter "atrapalhado" a noite deles. Hoje, somos apenas colegas.

Ser parça

Embora o cenário seja outro quando se trata de namorado ou ficante, dá para notar quando o parceiro não se interessa em compartilhar e vivenciar coisas que faria, feliz da vida, com outros homens. Não que eles não possam ter amigos, pelo contrário, isso é saudável e natural. O que soa estranho é resumir as relações com mulheres aos atos sexuais ou maternais. Deixar a diversão, a troca e a cumplicidade apenas para serem compartilhadas com outros homens.

Foto: Getty Criative
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O artigo "Homens Não Gostam de Mulheres", escrito por Paula Garruth, tem um trecho que se encaixa bem no que chamamos de machismo sutil. "Homens em grupos de amigos riem alto e falam sobre tudo, e quando estão com suas companheiras parecem se preocupar mais com o celular, com a televisão ou preferem afundar no mais absoluto silêncio. Homens viram a noite com amigos e quando estão com suas parceiras querem logo voltar para casa por estarem cansados".

Conversando sobre o tema com uma amiga, outro ponto foi levantado: alguns conseguem incluir mulheres na roda de amigos desde que elas sejam fora do padrão. Mulheres pretas e gordas sentem isso na pele.

A mulher gorda é vista como 'brother'. Aí já é o contrário. Nem passa pela cabeça dos homens que a gente pode querer ficar com eles. Usam a gente como lixeira. Usam a gente só para desabafar, pedir conselho

Só vale a conquista?

A pós-doutora Valeska Zanello defende que os próprios filmes direcionados ao público feminino nos passa uma visão equivocada sobre os homens desde a infância. "Raríssimos são aqueles (filmes) que não colocam em seu centro a figura de um homem, e o enredo principal para a personagem feminina é o desejo de conquistá-lo. Ou seja, não se trata apenas de representações do que é ser uma mulher, mas de uma verdadeira pedagogia afetiva. Nesse caso, o que se ensina é uma determinada forma de amar bastante danosa para as mulheres em geral. O que se ensina é que ter um homem é a coisa mais importante na vida delas. Na nossa cultura, os homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres aprendem a amar os homens. Difícil, dessa forma, que as mulheres não sofram muito nas relações amorosas."

As mulheres amam os homens independentemente do interesse sexual porque foram ensinadas desde sempre que essa era a missão delas. Já os homens aprenderam que deveriam conviver e compartilhar o melhor da vida apenas entre eles. Pensar em mulher é para transar ou, lá na frente, casar, formar família. Daí vem o desespero de tantos ao falar de relacionamento sério em pleno 2022. Afinal, quem quer viver numa prisão com alguém que não se tem aquela troca legal? E se a mulher já está na sua, zero motivos para continuar "investindo" nela. Deixa eu te contar um segredo: uma mulher, estando ou não em um relacionamento com você, pode ser sua amiga!

Foto: Getty Criative
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É importante dizer que muitos homens já têm consciência do machismo estrutural e são aliados que se posicionam diariamente em seus discursos e atitudes. Entender que a masculindade tóxica também os prejudica pode ser a chave para uma mudança. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os homens morrem por suicídio mais do que as mulheres. Isso está ligado ao fato de não procurarem ajuda por terem sido ensinados, entre outras coisas, que homem não chora, não sente medo, não pode expor fragilidades. No fim, essa construção história e social faz todo mundo sair perdendo.

Como podemos combater isso? O primeiro passo é dialogar. Comunicação é tudo. Depois, quebrar as barreiras e dar espaço, acreditando que ler meia dúzia de artigos sobre feminismo, cuidar de plantas e motivar mulheres a produzirem nu artístico não te fazem um homem desconstruído.

Precisamos, urgentemente, educar nossas crianças de forma diferente. Lembro que na alfabetização, por exemplo, as próprias professoras separavam as meninas dos meninos no dia de levar brinquedo para a escola. As meninas brincavam de casinha, enquanto os meninos jogavam bola ou faziam qualquer outra coisa mais interessante. Atitudes como essa incentivam o afastamento entre homens e mulheres e se refletem lá na frente, com homens que não se interessam pelas tarefas domésticas, por exemplo, colocando as mulheres no papel de mãe e aumentando a sua carga mental.

Queremos igualdade e respeito, mas também queremos nos divertir, ser parceiras, amigas e amadas.

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