No Brasil, Jimmy Page era discreto, virava cachaça e andava malvestido, diz livro

LUCAS BRÊDA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - De shortinho jeans e camiseta rasgada, Jimmy "Lama" vaga pelas ruas de Lençóis, na Chapada Diamantina, virando copos de cachaça pura enquanto falava com moradores da região que não fazem ideia de quem ele é. Cenas como essa eram comuns nos anos 1990, quando um dos maiores astros do rock manteve uma casa na cidade por um período. "Lama" era como os nativos supostamente chamavam Jimmy Page, ex-guitarrista do Led Zeppelin, por causa do aspecto molambento que ele apresentava. O apelido é uma das lendas que envolvem a relação de décadas do artista britânico com o Brasil. Essas histórias são reunidas e contadas pelo músico e jornalista Leandro Souto Maior no livro "Jimmy Page no Brasil", publicado, graças a um financiamento coletivo, em edição bilíngue, português e inglês. "Já sabia de várias histórias dele no Brasil, e nas biografias não tinha nada", diz Souto Maior. "São vários anos da vida dele. Tantas fotos, diversas situações. Tudo bem, não precisava de um livro inteiro sobre isso. Mas, poxa, tantas vindas, um cara que foi cidadão honorário do Rio de Janeiro." O livro, no formato lembra um fanzine, agora tenta preencher essa lacuna na história que os europeus e americanos contam de um dos maiores guitarristas do mundo. Souto Maior partiu do material reunido por Lula Zeppeliano, conhecido fã da banda que se encontrou mais de uma vez com Page e construiu um vasto arsenal de documentos sobre as vindas do astro ao país. "A partir dali, foram surgindo mais e mais pessoas. Teve uma hora que a lista de pessoas que o conheceram era tão imensa que achei que não ia conseguir contatar todas elas. Acho que foram mais de 70, mas consegui", diz Souto Maior, que chegou a tentar —sem sucesso— uma entrevista com o britânico. "Jimmy Page no Brasil" destaca principalmente os eventos que envolveram a Casa Jimmy, espaço beneficente que o músico mantém até hoje no Rio —mas relata também a relação dele com roqueiros brasileiros, como Frejat, George Israel, Herbert Vianna e Paulo Ricardo. O produtor Liminha diz que pegou ele de cueca, se trocando, num camarim. Tony Bellotto, dos Titãs, tem uma guitarra que Page autografou com um prego. Pepeu Gomes, que se apresentou num evento da Casa Jimmy, diz no livro que o britânico afinou para ele. "Olha, não foi um negócio muito legal não. A gente estava fazendo uma canja, ele ficou me assistindo e depois amarelou! Fiquei chateado", lembra Pepeu. "Rolou uma foto, mas tocar com ele não. Tem muito guitarrista que quando me vê acha que é um troço meio ameaçador." A verdade é que, no Brasil, Page tinha muito interesse pela cultura, o que incluía a culinária e a música, mas pouca vontade de dar canjas ou de tocar em eventos. Nas dezenas de relatos presentes no livro, é comum a decepção de fãs que o encontraram e até conseguiram um autógrafo e uma foto, mas não o viram tocar. "Ele não se sentia à vontade", diz Souto Maior. Page comprou um terreno e construiu uma casa, onde passava longas férias regularmente e que ele aluga até hoje, em Lençóis. O britânico vivia seu casamento de 12 anos com Jimena, argentina que foi criada nos Estados Unidos e depois foi para a Bahia. Na época, os dois moravam ainda com Jana, filha de Jimena com Luciano Silva, saxofonista de Margareth Menezes. Silva foi um dos poucos que conseguiu tocar com Page, e Menezes se tornou amiga do músico a ponto de frequentar a sua casa na Inglaterra —um minicastelo gótico que pertenceu ao ocultista britânico Aleister Crowley. O saxofonista mantinha na época a banda Os Bichos, com Marcelo Brasil na bateria, Alexandre Vargas na guitarra e Fernando Nunes no baixo —enquanto o segundo se apresentou com Freddie Mercury, o último ficou conhecido por tocar com Cássia Eller. Page frequentava a casa de Silva em Salvador e chegou a fazer algumas jams em ensaios com o grupo. Ele inclusive aparece usando uma camiseta com a marca deles em fotos pelo Brasil. Silva diz no livro que tinha uma relação familiar com Page —Jana chamava o brasileiro de pai e o padrasto britânico de "daddy". Já Fernando Nunes recorda que, um dia, Page havia pedido que o baixista o levasse para comprar um Marlboro, mas, chegando lá, o único cigarro disponível era da marca Hollywood. "Tudo bem, eu só queria tomar uma cachaça escondido de minha mulher", teria dito o guitarrista, supostamente às dez horas da manhã. Os momentos em Lençóis são os mais interessantes. "Ele curtiu, desfrutou uma vida de anônimo. Andava pelas ruas sem ser assediado ou reconhecido. Era um pouco o astral da Jimena, uma coisa bem à vontade, até no jeito de se vestir. Tem vários relatos de que ele usava camiseta rasgada mesmo, andava mal vestido, e se amarrava em tomar uma cachacinha. Eventualmente, participava de uma roda de violão." Foi lá, numa festa de virada de ano, que Page fez uma jam session tocando o instrumento, com Silva no sax e o percussionista baiano Mau Mau. Há registros fotográficos desse momento, mas Souto Maior acredita que situações como essa devem ter se repetido. "Tem uma história de que pediam para ele tocar Raul, e ele não entendia nada." No período que passou indo a Lençóis, Page fazia de tudo para despistar fãs e imprensa. Se arriscava no portunhol e, segundo os relatos, tinha uma espécie de pacto com os mais próximos para não ter o paradeiro revelado. "Jimmy Page no Brasil" intercala os depoimentos com recortes de jornais e falas do guitarrista sobre o Brasil em entrevistas para publicações de todo o mundo. A relação dele com o país começou em 1979, quando ele veio ao Rio com a ex-mulher, a modelo francesa Charlotte Martin. Eles foram recebidos por Aninha Capaldi, casada com Jim Capaldi, amigo de Page que tocava na banda Traffic. Na época, ele declarou que se encantou por um show de Gal Costa, mas foi só nos anos 1990 que o guitarrista passou a vir ao país com mais frequência. Seus únicos shows no Brasil aconteceram ao lado de Robert Plant, no festival Hollywood Rock de 1996. Mas, se os roqueiros brasileiros ficavam animados com a presença da lenda da guitarra no Rio ou na Bahia, Page parecia mais interessado no samba, no samba-reggae e na capoeira. Falava em entrevistas sobre a semelhança da música brasileira com a que havia conhecido em países da África e sobre a riqueza musical do país. Ficou fascinado por um show do Olodum que viu em Salvador ao lado do guitarrista Ron Wood, dos Rolling Stones. Em 2009, já separado de Jimena, disse que viu no Maracanã o Flamengo —o "red and black"— ser campeão brasileiro numa vitória contra o Grêmio. No ano seguinte, foi com Ivo Meirelles —de camisa polo e câmera no pescoço— a um ensaio na quadra da Mangueira. Dizia que estava fazendo pesquisas para um disco solo que, como as tantas apresentações que ele disse que faria no Brasil, ainda hoje é uma promessa. JIMMY PAGE NO BRASIL Preço R$ 95 (275 páginas) Autor Leandro Souto Maior Editora Garota FM Link: https://chrisfuscaldo.com.br/livros/garota-fm-books/jimmy-page-no-brasil/