No Brasil da fome, é inaceitável que Tiago Abravanel não saiba o que é financiamento estudantil

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Tiago Abravanel conversa com brothers no
Tiago Abravanel conversa com brothers no "BBB22" (Reprodução Globoplay)

Uma conversa entre Tiago Abravanel e Jessi no "BBB22" causou polêmica ao mostrar o nível do abismo social que separa os participantes do reality da Globo. No papo, o neto de Silvio Santos disse com naturalidade que não sabe o que significa financiamento estudantil e que não conhece a função do Fies, programa do governo federal criado durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso que permite que estudantes consigam parar cursos em universidades privadas.

Jessi, professora de biologia, já falou sobre sua luta para investir em educação em um país desigual como o Brasil, e explicou para Tiago que precisou do Fies para conseguir pagar sua faculdade. A sister, preta e de origem humilde, mencionou em outra conversa que passou três meses de 2020 ganhando menos que R$800 como professora. "Fiz o financiamento estudantil numa faculdade particular, mas no curso que eu queria, biologia", começou a sister. "O que é financiamento estudantil?", questionou Tiago. Surpresa, Jessi rebateu: "O Fies. Já ouviu falar?". "Já, mas me conta o que é", completou o brother.

Um dos herdeiros da família Abravanel, Tiago tem uma realidade social totalmente diferente de confinados como Jessi e Natália. Embora o abismo social entre eles não seja culpa individual do brother, é sintomático que um participante do maior reality do país não saiba sobre o Fies, um dos principais programas do governo voltados para a educação. Em meio a um cenário caótico de fome e crise sanitária no Brasil, tal desconhecimento beira a desassociação da realidade, e pessoas públicas como Tiago Abravanel têm obrigação de se informarem minimamente sobre assuntos políticos e sociais antes de entrarem no reality.

Essa não foi o primeiro choque de realidade evidenciado por Tiago. Uma conversa aparentemente inofensiva entre os brothers do Camarote e do Pipoca demonstrou bem como precisamos falar de abismo social e financeiro e como é nocivo deixar certas questões passarem em branco. Em papo sobre adereços da festa, Tiago Abravanel falou para Jessi e Natália que para ser estiloso basta ter criatividade.

As duas, mulheres pretas de origem humilde que já passaram por inúmeros problemas financeiros, explicaram que a chamada "criatividade" de Tiago demanda um tênis caro e uma camisa que elas não poderiam comprar. O brother, milionário desde o nascimento, tentou rebater, dizendo que "é possível ser criativo dentro de uma realidade diferente". É uma postura classista dentro da discussão promovida por ele. O 'BBB' é um jogo que reflete as problemáticas fora do confinamento, e não podemos focar na realidade dos participantes ricos e ficar na superfície das brincadeiras e memes enquanto as injustiças sociais são perpetuadas dentro da casa.

"Sou rico de amor"

Em um dos vídeos gravados antes de entrar no confinamento, Tiago respondeu a pergunta mais óbvia sobre sua passagem pelo "BBB22". Afinal, qual o motivo de alguém rico e famoso precisar se expôr desta forma? "Eu sou rico. Graças a Deus. Sou rico de amor, de família, de saúde e dinheiro também. Mas é sobre isso o 'BBB'? Sobre pessoas que vão ficar ricas? Eu achava que o 'BBB' era sobre pessoas que se desafiavam e que correm atrás da empatia, de conquistar pessoas e o dinheiro era só uma consequência".

O fato de Tiago não ver nenhum problema nessa fala resume perfeitamente o conceito de privilégio. Tiago não acha que o dinheiro é o principal do programa porque nunca passou por problemas financeiros. A grande ironia do capitalismo é que só quem tem dinheiro pode se dar ao luxo de não se importar com ele. Em outro vídeos, Tiago afirma que entrou no confinamento para "se conectar mais consigo mesmo e mostrar uma pessoa com defeitos e crises, como qualquer ser humano". O problema não é Tiago como indivíduo, e sim a sociedade doente que permite abismos sociais tão perversos sendo mostrados na TV aberta como entretenimento.

Enquanto Tiago se preocupa em mostrar sua personalidade íntima no BBB, pessoas como Jessi e Natália, por exemplo, entram para melhorar a vida de suas famílias. Lina, travesti e preta, fez um discurso emocionante no início do confinamento, explicando que seu sonho é dar uma casa própria para a mãe e melhorar as condições de sua família e de suas irmãs de causa. Tiago Abravanel, rico, branco e cisgênero, não entende o privilégio de suas palavras porque viveu imerso apenas nessa realidade. Enquanto ele entra no reality para turbinar sua imagem, pessoas marginalizadas entram no 'BBB' para tentar sobreviver.

Brasil da fome

Diante da realidade social, política e econômica do Brasil em 2022, nenhuma discussão sobre classe social pode ser tirada de seu contexto mais amplo. Em diversas entrevistas, Tiago Abravanel falou da importância de se conscientizar sobre os preconceitos e disparidades do Brasil. O brother, LGBTQIA+, também sempre destaca a importância de inserir pessoas marginalizadas na sociedade de forma igualitária.

Exatamente por isso, precisamos exigir de confinados como Tiago uma postura mais consciente, especialmente quando o assunto é abismo social. Antes exemplo de empoderamento da população no quesito soberania familiar, especialmente após o fortalecimento do Bolsa Família, hoje o país volta a sofrer com o fantasma assolador da miséria.

O Brasil voltou ao mapa da fome em 2018, e em 2020 registrou 55,2% da população convivendo com a insegurança alimentar, de acordo com informações da Rede Penssan. Em 2021, cenas de pessoas buscando ossos e carcaças nos mercados para se alimentar se tornaram corriqueiras. O programa de estoques de regulação da Conab, baseado em compras de agricultural familiar, acabou. O governo atual não incentiva a soberania alimentar, e o crescimento do pensamento "agro é pop" dificulta ainda mais o acesso universal a um direito tão essencial quanto comida de qualidade.

Os últimos anos também contaram com o fim do Bolsa Família, 35% de valores cortados do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o descontinuamento do programa de restaurantes populares, essenciais nas principais capitais para populações marginalizadas e em situação de rua. O governo também visa alterar o PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador), que reduz a possibilidade das empresas de ficarem isentas a partir de programas como vale alimentação e vale mercado.

O "BBB" é um programa de entretenimento, mas que pode ir muito além na discussão de pautas como homofobia, transfobia, desigualdade social e racismo, por exemplo. Como público, é essencial que continuemos a questionar conversas aparentemente inofensivas. Discursos como o de Tiago Abravanel mostram que precisamos exigir que as celebridades que ganham espaço e fama na tela da TV se informem melhor.

O que é o Fies?

O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, mais conhecido como Fies, é um programa criado pelo Ministério da Educação (MEC) para beneficiar os estudantes do ensino superior que não possuam condições financeiras para arcar com a mensalidade de seu curso.

Apesar de ter sido estabelecido por lei em 2001, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o programa se tornou um dos carros-chefe das propostas dos governos do PT. O programa foi expandido de forma considerável durante o governo de Dilma Roussef, com 79% dos contratos assinados a partir de 2011.

Para se inscrever, o estudante precisa ter participado em uma ou mais edições do Enem a partir de 2010, e ter notas iguais ou acima de 450 pontos. A redação também não pode ter sido zerada pelo aluno. O terceiro critério é o da renda familiar mensal, que deve ser de até três salários mínimos por pessoa.

Responsável por um dos períodos de maior dificuldade para a pasta da educação, o presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) voltou a criticar o Fies, afirmando que o investimento dos governos do PT em universidades foi uma tentativa de enriquecimento. "O Fies é um bom programa, desde que feito com responsabilidade. O que a esquerdalhada fez? Criou um trilhão de universidades pelo Brasil. O Fies virou negócio. É só acompanhar um pouquinho que dá pra ver o que aconteceu".

Mudanças no Prouni

O Programa Universidade Para Todos (ProUni) foi criado por lei em 2005 para ampliar o acesso de brasileiros de baixa renda ao ensino superior.

A criação do projeto foi encabeçada por Ana Estela e Fernando Haddad. Na época, ela trabalhava no Ministério da Educação e selecionou diversos testemunhos de famílias sobre a desigualdade de oportunidades de ensino no Brasil. Em um país no qual 80% do ensino superior era privado, a ideia de Ana Estela e Haddad foi criar um programa que, ao contrário do FIES, não trouxesse juros altos e precisasse de fiador.

Uma das marcas do governo Lula, a política foi alterada em dezembro de 2021 por meio de uma Medida Provisória (MP) assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, para viabilizar o benefício a estudantes de escolas privadas.

O ProUni oferece a estudantes de baixa renda bolsas de 50% ou 100% no ensino superior privado. Neste ano, um levantamento feito pela Frente Parlamentar Mista da Educação mostrou que o país ofereceu o menor número de vagas no ProUni desde 2013. Nos dois semestres de 2021, foram oferecidas 296.351 vagas no programa, número bem menor que as 420.314 oferecidas em 2020.

De acordo com especialistas, as alterações feitas por Bolsonaro podem acabar aprofundando desigualdades no acesso ao ensino superior do país. O argumento do governo para promover a alteração foi o alto número de vagas ociosas.

Um levantamento feito pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior No Estado de Sao Paulo (Semesp), com base em informações do Sisprouni, mostrou que em 2020 cerca de 19% das bolsas integrais do ProUni e 56,8% da bolsas parciais ficaram ociosas.

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