De Ney Matogrosso aos Dzi Croquettes, fotos revelam a escandalosa noite paulistana

CAROLINA MORAES
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O rosto coberto de maquiagem e purpurina de homens de peito peludo em figurinos com decote tomavam camarins de teatro no centro de São Paulo nos anos 1970. Era no governo Médici, fase mais dura do regime militar brasileiro, que grupos como os Dzi Croquettes subiam aos palcos com ares andróginos, que Ney Matogrosso se apresentava quase pelado e que transformistas ocupavam a boate Medieval, na rua Augusta.

É essa a capital paulista apresentada na mostra "As Metamorfoses", que celebra o centenário da fotógrafa húngara Madalena Schwartz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, a partir desta semana.

Leia também:

"Hoje, as questões são pautadas na ideia de identidade. Essa reação [dos anos 1970] parece que está colocando muita energia no cultivo da ambiguidade, na ideia de que ela é uma resposta poderosa [à repressão]", afirma Samuel Titan Junior, coordenador executivo do IMS, que organiza a exposição com Gonzalo Aguilar, professor de literatura brasileira na Universidade de Buenos Aires.

Os integrantes do Dzi Croquettes, que revolucionaram o teatro brasileiro naquela década, aparecem retratados nos camarins nas primeiras fotos da exposição, que ocupa uma sala da instituição.

"Ela quase nunca usa flash, e aprendeu a lidar com os vários focos de luz do teatro", afirma Titan Junior sobre essa que é uma das séries mais célebres da fotógrafa e mostra figuras como Claudio Tovar, Cláudio Gaya e Paulette sem luzes artificiais nos bastidores das casas de espetáculo.

Ney Matogrosso também é uma das personagens retratadas nesse período, especificamente em 1974 --as 112 fotos da mostra foram feitas entre 1971 e 1976. Em duplas exposições, o corpo do cantor aparece multiplicado e translúcido, "como se ela estivesse respondendo a ambiguidade de Ney", afirma o curador.

Mas nem só performances são registradas por Schwartz. Em séries feitas em casa — ela só teria um estúdio próprio no fim dos anos 1970--, a artista cria composições que lembram retratos tradicionais de família, mas com casais homossexuais e travestis.

"É como se ela quisesse explorar o universo inteiro dessas pessoas. Ela queria explorar todo o âmbito possível de relações humanas que a gente conhece do universo heterossexual."

As fotografias impressas mantiveram a composição original, sem recortes nas imagens — o que, em várias delas, deixou um rastro do ambiente doméstico em que os registros eram feitos.

No pé de um casal que posa para as câmeras com gestos teatrais, por exemplo, um gato aparece deitado. É possível ver, em outras imagens, as fitas que prendem o fundo infinito à parede. As icônicas pastilhas do edifício Copan, onde ela morava, também emolduram retratos da artista.

Madalena Schwartz, que chegou a São Paulo na década de 1960, nunca tinha fotografado até seus 40 anos de idade e começou a retratar os personagens que aparecem na exposição só dez anos depois, com a câmera que seu filho ganhara num concurso.

Como uma mulher de família judia, que vivia na Argentina até então, e veio para São Paulo ser dona de uma lavanderia na República chegou a esses grupos? Segundo Titan Junior, a obra dela nasce do "encontro de territórios" que era o centro da cidade na época — um mapa exposto no IMS com o Copan como referência central mostra os lugares onde Schwartz circulava, um verdadeiro epicentro de pontos chamados de alternativos na época.

Sua casa e sua lavanderia também eram próximas ao Foto Cine Clube Bandeirante, que ficava na rua Avanhandava. Foi ali que ela fez seus primeiros cursos de fotografia e começou sua nova carreira já às vésperas dos 50 anos.

Figuras marcantes da comunidade LGBT da época, como Elke Maravilha e Patricio Bisso, transformistas na boate Medieval e divas já envelhecendo também estão nas fotografias de Schwartz desse período, e o espírito do tempo de suas imagens é contextualizado e reforçado por uma seleção de publicações, filmes e entrevistas que compõem a mostra.

São páginas policiais de jornais que mostram perseguição a esses grupos, publicações de vanguarda feitos pelas comunidades LGBTs nos anos 1970, como Lampião da Esquina e Chana com Chana, e cartazes de filmes com protagonistas gays, como "O Beijo da Mulher Aranha", de 1985, de Héctor Babenco.

Um panorama da fotografia latino-americana que se dedicou a registrar grupos de travestis e transformistas na mesma década também faz parte da mostra e dá uma dimensão, ainda que breve, continental do tema.

Nessa "espécie de caixa hispânica de ressonância" das comunidades LGBTs, nas palavras de Samuel Titan Junior, há obras de fotógrafos já consagrados no cenário, como a chilena Paz Errázuriz e o mexicano Adolfo Patiño.

Mas, mesmo nas imagens de figuras menos conhecidas, como as reunidas pelos coletivos Archivo de la Memoria Trans, na Argentina, ou o Archivo Quiwa, da Bolívia, é possível ver os vários contornos que esses grupos tinham nesse período.

A oposição às figuras conservadoras que, aqui, vinham de grupos andróginos como os Dzi Croquettes, está também na cubana Phedra de Córdoba, exilada pelo castrismo que veio morar em São Paulo, nas peruanas que blasfemam a Santa Rosa de Lima e no porto-riquenho Mario Montez, flagrado em vídeo por Hélio Oiticica nas ruas de Nova York.

MADALENA SCHWARTZ: AS METAMORFOSES

Quando: 9 de fevereiro até 13 de junho. Ter. a dom. e feriados (exceto às segundas): das 12h às 18h

Onde: IMS Paulista. Av. Paulista, 2424 - Bela Vista

Preço: Gratuito