"Casamento às Cegas": Netflix promete amor além das aparências, mas exclui corpos gordos e PCDs

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Elenco de
Elenco de "Casamento às Cegas Brasil". Foto: Divulgação/Netflix

Resumo da notícia:

  • Netflix insiste em corpos padrão em "Casamento às Cegas" ao promover amor além das aparências

  • Jovem gorda que participou de processo seletivo comenta o que sentiu ao ver o reality

  • Ativista PCD fala sobre falta de representatividade de corpos diversos em realities

"Round 6" e "YOU" ficaram em segundo plano na semana em que os últimos episódios de "Casamento às Cegas Brasil" chegaram à Netflix. Lançado no último dia 6 de outubro, o reality que promete focar no amor além das aparências ganhou a audiência do público brasileiro, mas parece estagnar no "mais do mesmo" quando falamos sobre representatividade.

Se a ideia era embarcar no "amor às cegas", por que seguimos vendo corpos padrão no elenco de participantes? A ausência de corpos gordos e PCDs (Pessoas com Deficiência) tira o significado de "reality", em português "realidade", já que não reflete muitas das pessoas do mundo real. 

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E se a justificativa for a falta de interesse de pessoas fora do padrão em participar do programa, garantimos que não é uma verdade. Aos 25 anos, Lethicia Martos, de Santos, no estado de São Paulo, conta que participou do processo seletivo e esteve em contato com a produção até o final de janeiro, pouco antes de começarem as gravações. Com 97 kgs distribuídos em 1,61 m, a jovem desconfia que sua aparência física determinou sua exclusão na fase final de seleções do elenco. 

"Eu estava nas finais, mas eu acredito que eles optaram por seguir um padrão. Mandei foto de rosto, de corpo e, até então, eles estavam bastante interessados na minha pessoa. Eu passei com os produtores e eu não sabia que reality era, eu só sabia que era sobre casamento. O produtor chegou a dizer que estava tudo certo e eu participaria", relata.

“Agora vendo o programa, eu percebo que eles [Netflix] queriam seguir o padrão e deixar pessoas gordas de fora. E fiquei bem chateada com isso, porque acreditava que eles queriam, já que chegaram a perguntar meu peso, minha altura, eles sabiam que eu não era o padrão estético”, completa ao dizer que achava que seria diferente da versão estadunidense, que seguiu um padrão de corpos sem diversidade.

“Eu só acredito que se fosse fora do padrão seria muito mais legal. Que aí você veria se a pessoa realmente te ama pelas suas características interiores, não do exterior. E a gente acabou vendo que todo mundo ali era padrão e ficou a ‘padrãozada’ com a ‘padrãozada’, ne?”, reflete a jovem.

Para Mariana Torquato, mulher com deficiência, ativista PCD na internet desde 2016 e uma das pioneiras do assunto capacitismo (discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência) no Brasil, o reality teve uma boa ideia, mas pecou na prática. "Seria a oportunidade perfeita de fazer com que o preconceitos fossem deixados de lado e as pessoas pudessem realmente se conectar umas com as outras pelos que elas são e não pelo que elas aparentam ser”, opina.

"O amor é cego até você saber que vai dar um match com uma pessoa que é considerada bonita dentro dos padrões da sociedade. Mas, eu fico pensando como seria se a gente visse uma mulher vista como bonita nos padrões sociais se apaixonando por um cara que está numa cadeira de rodas. Como seria o encontro? Será que o amor acabaria ali?", reflete a jovem. "Será que o amor é cego até o ponto que ele esbarra por um algum preconceito pessoal da pessoa? Por um algum preconceito social?", questiona.

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A influenciadora ainda reflete sobre o objetivo das cabines da atração. "Eu acho engraçado eles falaram que o amor é cego, mas não ter nenhum cego na produção [risos], não ter ninguém que fuja do padrão. Se essas pessoas [elenco escolhido] se encontrassem num bar, elas poderiam se interessar umas pelas outras, então qual o sentido das cabines se você se encontrar com pessoas que você já se aproximaria de qualquer forma? Isso não faz sentido para mim", declara a youtuber, que chegou a publicar um vídeo em seu Instagram sobre o reality:

Sobre a falta de representatividade na mídia, de acordo com Mariana, apenas 0,8% da publicidade de 2020 contou com pessoas com deficiência. "As pessoas escondem pessoas com deficiência, é muito difícil a gente ter local. Eu me sinto como sempre, eu me sinto invisível. Sinto que não faço parte desse mundo. Sinto que pessoas com deficiência não são atraentes, não são interessantes, não são vistas e, principalmente, dentro desses reality shows. Por exemplo, o “Big Brother Brasil” teve uma PCD em toda a história do programa, em 21 edições”, afirma.

Ao ser questionada sobre um formato ideal, Mariana reafirma a necessidade de um espaço para corpos diversos. “Um formato ideal seria qualquer formato que incluísse pessoas reais, pessoas de todos os tipos, de todas as idades, de todas as formas, de todos os tamanhos, de todas as cores, de várias nacionalidades. Acho que isso é legal: mostrar a diversidade que existe no Brasil e que existe no mundo também”, finaliza. Confira o vídeo publicado em seu perfil no Instagram:

O Yahoo! Vida & Estilo tentou entrar em contato com a Netflix para ouvir um posicionamento da plataforma de streaming sobre a seleção do elenco, mas não obtivemos retorno até a publicação desta matéria.

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