Nem um Passo em Falso - Crítica do Chippu

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Poucas pessoas entendem de cinema, e do mercado ao seu redor, como Steven Soderbergh. O diretor responsável pela trilogia Onze Homens e um Segredo tem trabalhado com Netflix e HBO Max para produzir filmes diretamente para streaming nos últimos anos. Essa estratégia já rendeu coisas ótimas (High Flying Bird), outras ruins (A Lavanderia) e outras no meio (Let Them All Talk). Entretanto, o plano é claro. O cineasta percebeu que, aqui, ele consegue combinar seu cachê com o orçamento necessário para contar boas histórias com grandes atores. Isso nunca ficou tão claro quanto no excelente Nem um Passo em Falso, onde sua noção dos sistemas e das figuras por ele afetadas transcendem a criação da arte para entrar na mesma.


Lançado nesta quinta-feira (1º) no HBO Max, ele é o primeiro grande filme original do serviço desde sua chegada no Brasil. Soderbergh, um especialista em histórias de roubo cujo currículo também inclui Logan Lucky, está brincando num território conhecido aqui. O roteiro acompanha dois criminosos de baixo escalão - Curtis (Don Cheadle) e Ronald Russo (Benicio Del Toro) - contratados em 1955 para roubar um documento misterioso. Eventualmente, a dupla se encontra no meio de uma conspiração gigante, envolvendo personagens interpretados por David Harbour, Amy Seimetz, Jon Hamm, Ray Liotta, Kieran Culkin, Brendan Fraser, Bill Duke, Julia Fox e um ator famoso cuja participação merece permanecer um segredo… se você não tomou spoiler.


Isso soa exatamente como o desejado de uma obra Soderberghiana. Grande elenco, roubos e reviravoltas? Basta conhecer a filmografia do autor para criar expectativas. E sim, a execução é maravilhosa, cheia de controle, humor e charme, mas onde Onze Homens pretende ser cool e Logan Lucky cômico, Nem um Passo em Falso almeja mostrar uma maturidade maior. Seus temas não ficarão plenamente claros até o final, quando então, seu diretor finalmente revelará seu objetivo e se mostrará capaz de, ao mesmo tempo, elevar sua arte e transformá-la, subvertê-la e até mesmo questioná-la.


A elevação acontece através da constante capacidade do filme de comandar nossa atenção. Rapidamente, Nem um Passo em Falso deixará claro o fato de não estar muito interessado em diluir as coisas para nossa compreensão, mas diferente de Onze Homens, onde isso com o alvo de deixar o plano dos ladrões ainda mais espetacular, este filme repetidamente insinua a existência de influências maiores, de figuras desconhecidas esperando nas sombras para enfim levantar as cobertas e nos mostrar as reais intenções por trás do seu exterior estiloso. Algumas dessas figuras, os protagonistas já conhecem, e seus motivos serão surpresas apenas para a audiência. Outras representam um mistério completo.


O roubo em Nem um Passo em Falso não é o foco de Soderbergh, mas sim os eventos iniciados pelo crime. Curtis e Russo rapidamente percebem o quão embaixo da cadeia alimentar se encontram, decidindo apostar todas as suas fichas na tentativa de passar a perna na maior quantidade de inimigos possíveis. Se eles estão marcados para morrer, por que não tentar lucrar com isso? A ambição da dupla, particularmente do personagem de Cheadle, cresce e, eventualmente, enquadra-se em ganância. O roteiro de Ed Solomon (Truque de Mestre) não perde tempo em mover as peças do tabuleiro, elevando o risco no qual os protagonistas se encontram e deixando sua situação gradualmente mais complexa. Poucos são os momentos de respiro para a dupla principal e nós, portanto, não podemos relaxar muito.


Mas esse ainda é um filme de Steven Soderbergh, ou seja, todo esse processo é lúdico, sedutor e sagaz. Talvez nenhum diretor em atividade - com exceção de Quentin Tarantino - saiba identificar (e usar) estrelas de cinema como este. Soderbergh dirige com base na excelência de seu elenco. Ele confia no carisma deles. Cheadle e Del Toro, particularmente, comandam a câmera em cada uma de suas cenas, acompanhados sempre de talentos em seu nível. Harbour, particularmente, foge do tipo de atuação na qual tem sido enquadrado por suas últimas obras, sem medo de apresentar uma fragilidade diferente da vista em Stranger Things ou Viúva Negra. Liotta e Fraser, ícones dos anos 90, recebem papéis dignos de suas carreiras naquela saudosa década, fazendo um bom argumento de que ainda têm muito a oferecer, particularmente como fontes de humor inteligente.


A maestria do diretor também significa que, mesmo desafiando a compreensão em certos pontos, Nem um Passo em Falso nunca nos passa a sensação de estar perdido. Seria fácil para Soderbergh utilizar a abordagem de “não tem problema a audiência estar confusa, os personagens também estão.” Mas não, ele encara o desafio. A cada rua sem saída, Soderbergh encontra uma janela por onde pode fugir sem nunca cair num deus ex machina ou render-se à comodidade. O fluir do enredo coloca os personagens, e por consequência o filme, em andares cada vez mais altos de temática e construção narrativa, então sua capacidade de manter a qualidade toda vez que o desafio aumenta jamais deixa de impressionar.


Mas Soderbergh não está satisfeito em apenas mostrar sua capacidade de malabarismo com facas afiadas. Aqui, ele nos pega de surpresa ao revelar a natureza do roubo não só como uma fonte financeira maior para os personagens, mas como a apresentação temática mais inesperada de seus trabalhos recentes. As reviravoltas virão, alianças serão quebradas e traições irão ocorrer. Já aguardamos isso, mas enquanto Onze Homens, Logan Lucky e outras obras de suas carreiras mostravam pessoas desafiando e vencendo os sistemas, aqui é diferente. A expectativa da audiência, criada com base nesse fantástico histórico, se torna a arma perfeita para concluir a narrativa de forma inusitada e inteligente. Antes, as viradas tinham uma sacada por trás. Aqui, há um propósito, uma mensagem. A faca não é de mentira.


Em um determinado encontro no terceiro ato, um personagem surpresa faz um discurso enorme para Curtis e Russo. Eles podem até cumprir sua missão e sair de lá com centenas de milhares de dólares, mas para o sistema, isso não passará de um resfriado. O homem de quem estão roubando continuará faturando muito mais. Se o dono de cassino vivido por Andy Garcia em Onze Homens falasse o mesmo, jamais o levaríamos a sério. Por isso, muitos cometerão o mesmo erro com este antagonista. Esperto, Soderbergh permitirá esse engano para depois jogá-lo na cara da audiência. Ele adora nos mostrar o quão errados estamos, mas o faz utilizando as mesmas armadilhas empolgantes antes implantadas apenas pelos heróis de suas histórias.


Conforme ele amadurece, Soderbergh está interessado em indústrias e nas pessoas por elas beneficiadas ou maltratadas. Seja o mundo midiático de atletas em High Flying Bird ou os Panama Papers em A Lavanderia, o cineasta quer entender e explicar o mundo no qual seus personagens carismáticos habitam. Com Nem um Passo em Falso, ele combina essa proposta com o formato de crime, roubo e grande elenco que o transformou numa estrela. O resultado surpreende em termos de conteúdo, mas paralelamente, eleva a forma do autor contar histórias, reforçando seu status como um dos mais subestimados do cinema atual. Ele ainda sabe o que faz.


Nota: 4.5/5


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