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Cogumelo comestível da família Boletus

Ronia Alves-Kriskó/Divulgação

Espanha além da sangria: colheita de cogumelos custa R$ 300 e atrai turistas

Por: Ronia Alves-Kriskó (@roniaa), colaboração para o Yahoo.

Conhecida pelas belas praias banhadas pelo mar mediterrâneo, a região da Andaluzia, no Sul da Espanha, é destino certo dos turistas que procuram sol e jarras de sangria. Mas essa terra esconde experiências únicas, desconhecidas pelos visitantes, como a colheita de cogumelos silvestres pelas montanhas locais.

Para viver essa experiência, nada usual a um brasileiro, resolvi passar um fim de semana na finca Algaba de Ronda, uma fazenda voltada ao ecoturismo, com programas que apresentam as riquezas naturais da fauna e da flora andaluz. Os eventos promovidos por ali são divulgados nas redes sociais Facebook e Instagram.

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A cada estação são criadas experiências voltadas ao turismo ambiental e cultural e a gastronomia local; como visitas a parques arqueológicos, cidades históricas e aulas práticas de culinária com produtos cultivados por ali. Geralmente são formados grupos com no máximo 30 participantes, e o custo varia entre 70 a 150 euros (cerca de R$ 300 a R$ 600), em que inclui, a atividade programada, hospedagem por dois dias e fartas refeições.

Entendendo o mundo dos cogumelos

Para essa edição de outono, o biólogo e micologista Pablo Daniëls foi convidado para coordenar a excursão, com diretrizes detalhadas sobre os cogumelos e a forma correta de coleta. “Não se deve cortar a base do fungo, e sim removê-lo por inteiro, do chapéu ao micélio”, explicou o especialista. Trocando em miúdos, a intimidadora palavra micélio nada mais é do que a raiz do fungo. “Essa parte subterrânea do talo é importante para classificação precisa de cada espécie, se cortarmos pela base não temos as informações necessárias. Todo cuidado é pouco”, alertou.

E lá fomos nós – uma brasileira (eu!), um húngaro (meu marido) e um grupo de espanhóis – bosque adentro, eufóricos, sacolejando as cestinhas de vime. Subimos colinas com chão forrado por folhas e os olhos sempre atentos para não pisar em um cogumelo que aparecesse pelo caminho. Foram duas horas de colheita, num cenário que mais parecia extraído de um conto de fadas. Uma brisa fria de outono, o som do farfalhar das folhas, o cheiro de terra molhada e um sem fim de cogumelos, pululando a cada passo. Coletamos todos os tipos que encontramos, sem saber se eram comestíveis, tóxicos ou alucinógenos.

Com a alma renovada e as cestinhas abarrotadas – a colheita foi farta – retornamos à fazenda. Enquanto Daniëls separava as espécies para apresentar a diferença entre cada uma delas, Josef (meu marido) e eu ficamos relembrando o passeio. Quem diria que se embrenhar no meio do mato, sujando as mãos de terra e sem cobertura telefônica fosse tão revigorante e divertido? Parecia uma brincadeira de caça ao tesouro, a cada cogumelo encontrado os participantes eram avisados e todos corriam para ver a preciosidade.

A aula do biólogo começou com um alerta: não se deve comer os cogumelos que encontrar brotando por aí, mesmo que se parece muito com um espécie comestível é bom hesitar, já que numa mesma linhagem pode conter tipos venenosos. “A classificação precisa é feita somente em laboratório com a ajuda de um microscópio.”

A apresentação de Daniëls terminou no cair da noite, quando fomos levamos a uma sala escura para assistir o incrível show da natureza: o brilho fluorescente de um tipo de cogumelo — sim, isso também existe. “Esse fenômeno atrai insetos que transportam os esporos para germinarem em outros lugares”, explicou o micologista.

Para encerrar as atividades, seguimos para o jantar, e a conversa não desviou do tema do dia. Pelos bosques da Andaluzia já foram catalogadas 600 variedades de cogumelos, mas apenas um quinto é comestível. Segundo o Departamento de Agricultura, Pesca e Meio Ambiente, essa é uma das regiões europeias com maior variedade do fungo. Por todo o território é possível encontrá-los brotando da terra, dos troncos de árvores, embaixo da neve e, ainda, das águas doces e salgadas. Até a safra anual espanhola foi amplamente discutida entre os participantes, com uma produção que ultrapassa 150.000 toneladas.

No encontro de despedida do grupo, o micologista informou que poderíamos levar os cogumelos comestíveis para casa, mas estava tão maravilhada com tudo que acabei me esquecendo de pegar a minha porção. Uma pena!