Teich pede exoneração do Ministério da Saúde após decisão de Bolsonaro sobre cloroquina

Teich pede exoneração com menos de um mês no cargo de ministro da Saúde (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)


Nelson Teich pediu exoneração, nesta sexta-feira (15), do cargo de ministro da Saúde. Ele já havia manifestado a dificuldade de conciliar os desejos do presidente Jair Bolsonaro sobre o uso de cloroquina e flexibilização do isolamento com o que é possível fazer dentro dos recursos disponíveis no país e o que preconiza a ciência.

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Por outro lado, Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada, avisou que ia alterar hoje o protocolo de uso da cloroquina no combate ao coronavírus. Ele afirmou que “é direito do paciente” decidir sobre o seu tratamento e defendeu o uso da droga “desde o começo”.

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Atualmente, a recomendação do Ministério da Saúde é que o medicamento seja usado no tratamento de pacientes em casos graves da Covid-19. A indicação constava em protocolo publicado pelo ministério ainda na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Até o momento, não houve nenhuma pesquisa ou estudo que comprovasse o efeito positivo e indiscriminado da cloroquina no tratamento da doença.

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Em meio à pandemia, que soma 202.918 casos confirmados de infectados pelo coronavírus no Brasil e 13.993 mortes provocadas pela doença, já é segunda troca no Ministério da Saúde. Em menos de um mês, Mandetta foi demitido do cargo pelo presidente, após um processo de fritura, também pela resistência na indicação indiscriminada da cloroquina e na flexibilização do isolamento social.

Nesta semana, Teich foi criticado também por gestores estaduais e municipais por diretrizes para orientar a flexibilização do isolamento social.

“É inoportuno falar de flexibilização quando vemos aumentar a cada dia o número de mortos e de casos, e de pessoas adoecendo gravemente. Estamos subindo ainda a montanha da epidemia”, afirma o presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais da Saúde (Conass), Alberto Beltrame.

Os primeiros pontos do plano foram anunciados pelo ministro no mesmo dia em que o presidente Bolsonaro decidiu considerar salões de beleza e academias como serviços essenciais. A normativa do Ministério da Saúde não é obrigatória, mas ela aumentou a pressão política contra o distanciamento rígido que vem sendo implementado em alguns estados para desacelerar o contágio do vírus.

O secretário-executivo da pasta, general Eduardo Pazzuelo, que não é médico, deve assumir a pasta até o presidente definir o substituto de Teich. O nome do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que também é contra as medidas de isolamento social, voltou a ser ventilado no Planalto.

“TODOS TÊM QUE ESTAR AFINADOS” 

O processo de fritura de Nelson Teich dentro do governo foi intensificado nos últimos dias.

Nesta semana, Nelson Teich foi surpreendido, durante uma coletiva de imprensa, ao saber que um decreto do presidente incluiu academias e salões de beleza entre serviços essenciais e limitou-se a dizer que essa é uma decisão do Ministério da Economia e do presidente.

Bolsonaro declarou inicialmente que não precisava falar com o ministro sobre o tema. Mais tarde, ao chegar ao Palácio da Alvorada, o presidente afirmou que faltou apenas ter avisado Teich e que o ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, admitiu essa falha.

Nos últimos dias, Teich passou a ser alvo também de ataques nas redes sociais. Bolsonaristas estão dando impulso à hashtag #ForaTeich. 

O ministro da Saúde, que dizia estar “100% alinhado” com Bolsonaro, deu declarações sobre a não comprovação, até agora, da eficácia da cloroquina no tratamento da Covid-19, além de prever em nova diretriz a determinação do bloqueio total, conhecido como “lockdown”.

Na quarta-feira (13), Bolsonaro voltou a insistir na utilização da cloroquina como tratamento para o coronavírus. Ao sair do Palácio da Alvorada, o presidente afirmou que vai discutir com o ministro da Saúde, Nelson Teich, sobre o uso do medicamento. Segundo ele, a cloroquina precisa ser pensada de forma emergencial no tratamento de pacientes com a Covid-19.

“Na minha opinião porque não sou médico, mas muitos médicos do Brasil e de outros países entendem que a cloroquina pode e deve ser usada desde o início, mesmo sabendo que não há uma comprovação científica de sua eficácia”, disse Bolsonaro. 

E ainda acrescentou, em relação ao ministro, que declarou ontem que a cloroquina tem efeitos colaterais e deve ser usada com cuidados: “Todos têm que estar afinados”.

MINISTÉRIO

Dentro do ministério, Teich também se vê isolado desde que assumiu o cargo. Ele exonerou técnicos e nomeou pelo menos sete militares, entre eles o secretário-executivo, considerado o número dois da pasta, general Eduardo Pazzuelo.

À crítica de que o ministério está com muitos militares à frente de funções importantes, Teich respondeu que se trata de “um tempo de guerra”, e os militares trazem planejamento estratégico.

Mas ex-funcionários alegam que os novos indicados não têm experiência na área, além de terem retirado autonomia que as secretarias da pasta tinham.

CONGRESSO

Ao contrário de Mandetta, que era muito elogiado no Congresso, Teich recebeu duras críticas do Parlamento.

Os senadores cobraram respostas assertivas do ministro em relação à necessidade de isolamento social como forma de combate à pandemia.

“Estamos em um momento de início de explosão de casos de mortes. Não é momento para indecisão. É preciso ser claro e passar para o país uma mensagem da autoridade máxima do Ministério da Saúde: isolamento social, sim ou não? Se é por região, quais as regiões têm e quais não têm? Está dúbio, me desculpe dizer com tanta veemência”, disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Na Câmara, Teich defendeu que o isolamento social no Brasil não fosse politizado. “Não dá para trabalhar como se o lockdown fosse a essência de tudo”.  

Os deputados também reclamaram: “Ministro não respondeu sobre a necessidade de recursos, não respondeu sobre os leitos, não respondeu sobre nada”, afirmou o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP).


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