Natalia Ginzburg revela seu e nosso presente em 'Não me Pergunte Jamais'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nem sempre a reunião em livro de textos publicados na imprensa apresenta lapidação equivalente à de outras obras de um mesmo autor. "Não me Pergunte Jamais", de Natalia Ginzburg, alcança essa façanha.

Ao lado de contos inéditos, os escritos da italiana originalmente destinados a dividir páginas com notícias, em meio aos imperativos da impessoalidade e do calor da hora, revelam um compromisso com a memória e a perspectiva de si mesma no transcorrer do tempo diante dos mais variados acontecimentos e manifestações artísticas.

O volume traz uma seleção das colaborações da escritora para o jornal La Stampa, entre dezembro de 1968 e outubro de 1970, um conto que saiu no Il Giorno em 1965, além de mais quatro inéditos até sua organização em 1970. Quando o livro foi reeditado em 1989, dois anos antes de sua morte, Ginzburg acrescentou ainda um outro que saiu no Corriere della Sera em 1976.

Na "Advertência", a escritora explica ter pensado em dividir os textos entre os memorialísticos e os demais, até concluir que "a memória muitas vezes se misturava aos escritos de não memória".

Assim, a procura por um imóvel traz à tona as casas onde ela e o marido cresceram, fundação de diferentes noções de habitar; a notícia da morte da viúva do filho de um escritor evoca fantasmas indestrutíveis; uma visita a Boston para conhecer o neto desenterra uma leitura feita aos nove anos.

A disposição dos textos no livro obedece a uma ordem cronológica em relação a sua redação, mas abarca diferentes épocas, como a infância e a juventude, sem jamais perder de vista a velhice como fase que custa a ser admitida em contraste com a velocidade dos acontecimentos.

"Mantivemos por muito tempo o hábito de acreditar que éramos 'os jovens' do nosso tempo, tanto que quando ouvimos falar de 'jovens' viramos o rosto como se falassem de nós, hábito tão enraizado que talvez não o percamos, a não ser quando teremos nos tornado inteiramente pedra, isto é, às vésperas da morte."

Interessante notar que, aos 72 anos, quando reedita o livro, ela acrescenta como espécie de sequência de "Bigodes Brancos", "Lua Palidasse", escrito aos 60. Entretanto, ambos textos remetem ao vivido em tenra idade: o primeiro, sobre uma ocasião em que menina anda de mãos dadas com um desconhecido, que se converterá em figura de assombro; no segundo, parte da recordação de um poema triste escrito aos 12 anos.

Chama atenção o contraste entre tudo aquilo que se sabe, como fruto da experiência, e a negação de uma posição de saber ao tratar de livros, música, teatro, artes plásticas, psicanálise ou mesmo ao se oferecer para uma vaga de emprego.

Quando o assunto é sua própria literatura, enaltece a importância dos interlocutores. "Sofremos a ausência da crítica da mesma forma que sofremos, na vida adulta, a ausência de um pai", conclui. Não à toa, nunca ocupa esse lugar fálico e de autoridade ao enaltecer justamente as falhas e lacunas que são também nossas.

Entre as obras-primas de Natalia Ginzburg, seu "As Pequenas Virtudes", com ensaios de 1944 a 1962, já havia dado prova da habilidade da escritora de não dissociar sua produção para jornais e revistas ao núcleo duro de seu projeto autoral.

Mas enquanto naquela primeira coletânea acompanhamos pela primeira vez o uso do pronome "eu" e mudanças de estilo, "Não me Pergunte Jamais" carrega uma unidade que talvez se explique por ter "algo semelhante ao diário", segundo a escritora, que nunca conseguiu manter um, mas buscou pontuar o que ia lembrando, nunca apartada do presente, inclusive o nosso, que só agora a lemos.

NÃO ME PERGUNTE JAMAIS

Preço R$ 64,90 (250 págs.)

Autor Natalia Ginzburg

Editora yiné

Tradução Julia Scamparini

Avaliação Ótimo

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