Como tornar o Natal em família uma experiência menos gordofóbica?

Natal em família pode ser tornar uma experiência menos gordofóbica (Foto: Getty Images)
Natal em família pode ser tornar uma experiência menos gordofóbica (Foto: Getty Images)

Há alguns anos não tenho passado o Natal com a minha família. No começo era por conta de trabalho que impossibilitava viajar e depois uma desculpa ali e a proposta de reunir em outra época. A verdade é que, apesar do desejo em estar acolhido pelos meus, fugir do compromisso da ‘ceia de Natal em família’ me ajuda a controlar uma ansiedade que eu nunca soube ao certo de onde vem. Em 2020, ano que também já decidi não estar com a minha família no 25 de dezembro, concluí que a gordofobia – mesmo que disfarçada – poderia ser um dos motivos.

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A experiência do Natal em família traz aqueles famosos questionamentos de tios e tias, dos parentes mais distantes, que sempre perguntam: ‘E a dieta? Engordou, hein? Desse jeito não vai namorar ou vai perder o namorado’. Mas não é só isso. A gordofobia aparece até mesmo no que deveria ser prazeroso, ganhar presentes. ‘Ah, comprei a GG, espero que sirva, né?’. Nunca servia.

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E como tornar essa experiência menos traumática e gordofóbica? O primeiro passo é se colocar no lugar do outro e nunca, em hipótese alguma, achar que é bom comentar sobre o corpo alheio. Vale também entender que o ‘GG’ não define ninguém.

O Yahoo! conversou com outros ativistas gordos e tenta te ajudar a ter um Natal mais prazeroso e acolhedor em família.

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Natal era um momento muito opressor pra mim’

Alexandra Gurgel, fundadora do Movimento Corpo Livre, conversou com o Yahoo! sobre o tema gordofobia nas festas de fim de ano. Ela relembra situações que já passou e que toda pessoa gorda passa neste momento, e aconselha: ‘a vida é muito mais do que falar do corpo dos outros’.

“A gordofobia é um preconceito estrutural onde as pessoas já estão acostumadas a praticar. Quando pensamos em ambientes de Natal, com família reunida, pessoas que não se veem o ano inteiro, que não tem muito o que falar a não ser da comida, a gordofobia aparece. Eu já sabia que comentariam do meu corpo e me dariam presentes com roupas que não cabem em mim. O Natal era um momento muito opressor em vários níveis”, ressalta a ativista e influenciadora digital.

Ela continua: “Queria comer as comidas gostosas, ficava esperando, mas todo mundo me olhava torto. Todos podiam comer, mas a gorda não podia. Afinal, ‘é por isso que é gorda né?’”.

Alexandra aconselha: “A pessoa gorda vai sofrer gordofobia sempre, porque ela não tem controle dos outros. Infelizmente é assim. O que podemos fazer é aprender a lidar com a situação. Temos que responder de uma forma onde mostramos o respeito que exigimos do outro. Impor respeito é o mínimo. E se a pessoa estiver aberta para o diálogo, tudo bem. Vivemos um ano com muitos episódios de gordofobia e viver isso no Natal, de novo, é muito ruim. Se você é da família de uma pessoa gorda ou amigo, e tem interesse, não comente sobre o prato da pessoa, não pergunte se a pessoa está fazendo dieta ou não recomende uma. Não dê uma roupa para a pessoa achando que vai caber nela. A vida é muito mais do que falar do corpo do outro e praticar gordofobia.”

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Ficava triste, me sentia culpada, e tentava disfarçar’

Naiana Ribeiro, ativista gorda e idealizadora da primeira revista para mulheres gordas do país, a ‘Plus’, também relembrou alguns episódios gordofóbicos de Natal em família. Ela conta que tentava disfarçar, mas que aprendeu a não baixar mais a cabeça ao preconceito.

“Reencontrar familiares que a gente não vê há um tempo sempre rende perguntas, 'piadinhas' e comentários inconvenientes sobre a nossa vida e, é claro, nosso corpo”, destaca a ativista, que ressalta: “Acho que todo gordo e/ou pessoa fora do padrão deve ter histórias como essa pra contar. Comigo não foi e nem é diferente. Desde quando eu era nova, familiares e amigos comentavam sobre o meu corpo, principalmente nas festas de fim de ano e no Natal. Durante muito tempo, eu ficava triste, me sentia culpada, mas tentava disfarçar, mas hoje não abaixo a cabeça. O ideal é já nos prepararmos psicologicamente para isso. Independentemente do que nos digam, manter a cabeça erguida e seguir nossas vidas é sempre a melhor resposta”.

Naiana acredita o debate saudável em família é importante: “De forma sincera e aberta. Comece aos poucos, busque as pessoas que você tem mais afinidade, que sejam aliados, e não se esqueça de quem são aquelas pessoas, o contexto em que foram criadas e suas referências.”

A influenciadora também aconselha: “Para os parentes, uma boa dica é evitar falar frases como “você emagreceu e ficou bonita” ou "você engordou". Primeiro que o conceito de beleza é diverso, segundo que muita gente perde peso de forma nada saudável, devido a hormônios, distúrbios ou até mesmo depressão. Nada de comentar e muito menos opinar sobre o corpo de alheio: se a pessoa não te perguntou, não diga nada.”

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Lembre que a pessoa tem espelho em casa e tenha responsabilidade’

Caio Revela, influenciador digital, também conversou com o Yahoo! e destacou a importância de termos responsabilidade sobre o que falamos e os gatilhos que despertamos no outro. O ativista gordo também destaca que todos nós temos espelhos em casa e que comentários gordofóbicos são desnecessários.

“Não precisamos fazer comentários sobre os corpos de outras pessoas, especialmente neste ano que mudamos muito por conta da pandemia e de tudo que está acontecendo. É natural que os corpos mudem. Tudo o que a gente menos precisa, caso a gente esteja em segurança com familiares, é falar sobre o corpo de outra pessoa. Temos espelho em casa. Fazer um comentário assim só vai deixar o outro inseguro naquele momento e ele não poderá fazer nada para mudar”, explica Caio.

O influenciador explica que algumas pessoas fazem comentários achando que estão ajudando, mas não percebem a sensação de impotência que pode causar: “A pessoa sabe que o corpo dela mudou. Cada um sabe o que come, a quantidade. Não seja fiscal do prato alheio. É um momento de amor e de carinho e não de cobrança desnecessária”.

Caio aconselha e destaca: “Você pode estragar a noite de alguém e ativar várias inseguranças. É importante ter responsabilidade com a saúde mental do outro.”