Naomi Campbell é mãe aos 50 - e ainda precisamos normalizar a maternidade madura

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LOS ANGELES, CA - NOVEMBER 02:  Naomi Campbell arrives at the 2019 LACMA Art + Film Gala Presented By Gucci at LACMA on November 2, 2019 in Los Angeles, California.  (Photo by Gregg DeGuire/FilmMagic)
Naomi Campbell é mãe aos 50 anos e a sua idade ainda é vista como um tabu pela sociedade (Foto: Getty Images)

O que uma mulher de 50 anos pode fazer? E o que ela deve fazer? Segundo Naomi Campbell, ela pode ser mãe, se quiser. Se você não viu, a supermodelo revelou na última semana que se tornou mãe de uma menina, em um anúncio que foi uma surpresa para muita gente - principalmente porque os detalhes ainda são desconhecidos. Mas a discussão que vimos levantada por aí foi o fato da top model ser velha demais para se tornar mãe de uma menina.

A questão da idade, quando se fala em mulheres, não é nenhuma novidade. Sabe-se, por exemplo, que boa parte da população acima dos 50 se sente invisível. Isso significa que, seja pela publicidade, pela representação no entretenimento e até pela vida social como um todo, essas mulheres se sentem não vistas pelo contexto em que vivem.

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De acordo com uma pesquisa feita pelo Hype60+ com a Clarice Herzog Associados, 92% das mulheres maduras não se sentem representadas pela comunicação publicitária e, via de regra, apenas um terço delas é impactada pelas propagandas. Se olharmos para os filmes e séries de TV, há um limite de quantas produções por ano atrizes como Meryl Streep podem fazer - considerando, claro que ela seja a protagonista, o que não é comum.

A ilusão da juventude segue firme como um padrão de comportamento na sociedade em que vivemos, de forma que ainda se acredita que, ao passar de certa idade, as mulheres deixam de ser interessantes e até perdem a liberdade de realizar o que têm vontade, como o desejo de ser mãe. Pode-se ver, por exemplo, o preconceito com mulheres que deram à luz depois dos 40 anos. Quiçá aos 50.

E, vale lembrar, a reprodução acontece cada vez mais tarde - o que também não é mais novidade. De acordo com dados do IBGE, dos 2,86 milhões de nascimentos registrados no Brasil em 2017, em 35,1% dos casos a mãe tinha 30 anos ou mais na ocasião do parto. E o que isso significa? O crescimento da proporção de mães nesse grupo de idade. Em 2007, a porcentagem era de 25,7%.

O avanço tecnológico como um todo, além das mudanças de paradigmas e de valores também colaboram para essa mudança na escolha por ter filhos. Se antes, isso era visto como um absurdo, hoje em dia a ideia já é mais bem aceita e as mulheres, cada vez mais, têm optado por não ter filhos ou tê-los mais velhas, depois que a vida está mais estabelecida e, principalmente, estável financeiramente.

Séculos atrás, a ideia de que casar e ser mãe jovem eram sinônimo de felicidade era apenas mais uma maneira de moldar uma visão da sociedade sobre as mulheres - de que o seu papel é cuidar da casa e das crianças, que a maternidade é quase obrigatória e que a criação das novas gerações é de sua responsabilidade. Isso, claro, já mudou muito e essa conexão direta entre maternidade e felicidade já caiu por terra também. Construir uma família, em qualquer formato que seja, pode ser de uma alegria imensa, mas conectar o valor da mulher à maternidade e à sua felicidade também é uma falácia. Não à toa, o número de mulheres que não querem ter filhos têm crescido bastante por aqui: um estudo recente desenvolvido pela farmacêutica Bayer mostrou que, no Brasil, 37% das mulheres não pensam em engravidar. No mundo, o número chega a 27%. Para aquelas que ainda sonham em ser mãe, a possibilidade de adiar a gestação com a ajuda de congelamento de óvulos e fertilização in vitro joga também a decisão mais para frente, quando as realizações profissionais forem conquistadas e a vida estabelecida.

Ainda assim, uma mulher ter filhos depois dos 50 causa espanto e viraliza na internet como algo inusitado, um ponto fora da curva - por mais que isso seja comum para os homens. Afinal, quantos homens mais velhos casam com mulheres mais novas e têm filhos? Mick Jagger é um exemplo. O ator Alec Baldwin também. No Brasil, Roberto Justus é outro exemplo - ele foi pai aos 65. Mas pouco se fala sobre o assunto, até porque, pouco se fala sobre a idade dos homens.

A pressão a respeito da idade das mulheres é sempre muito maior por uma série de motivos. O principal envolve o padrão de beleza, e a necessidade das mulheres se manterem com o corpo e o rosto de quando tinham 20 anos - o que é biologicamente impossível. A noção de que elas precisam se manter bonitas e jovens para manter, também, o interesse dos homens é o que faz com que elas se preocupem com o envelhecimento muito antes do que eles - os 30 anos já acendem um alerta na cabeça de muitas mulheres. Enquanto elas, com os cabelos grisalhos e as marcas de expressão, são muitas vezes descartadas pela mídia, eles são chamados de "galãs", mesmo com os cabelos brancos e o rosto já abatido pelo tempo.

À Naomi Campbell, só podemos desejar a mais sincera felicidade pela decisão de ser mãe, independentemente da sua idade. Mesmo assim, saudamos também a sua coragem de fazer esse anúncio provavelmente já sabendo da resposta que receberia de muita gente que a vê como velha e não capaz de exercer o papel de mãe - ou, talvez, não digna dele. De fato, ser mulher no mundo atual não é simples, e a desconstrução é necessária, uma questão por vez.

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