Não terceirize! Você não precisa dele para gozar

Foto: Getty Images

“Quero começar a me masturbar, mas como exatamente se faz isso? Você tira a calcinha do nada e fica lá… pensando no que?”. Para muitas mulheres, o prazer solitário é tão natural e corriqueiro quanto extrair um dente do siso. Já ouvi essas perguntas dezenas de vezes, principalmente nos chás de lingerie em que palestro.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

Dá pra imaginar homens adultos pedindo, sem deboche, o mesmo tipo de instrução? No máximo, gostariam de saber se é melhor alternar entre as mãos esquerda e direita para evitar L.E.R., a lesão por esforço repetitivo. Vivemos cheias de dedos pra tocar no assunto, ao invés de usá-los para tocar nossas vulvas.

Quase metade das brasileiras (40%) não têm o hábito da siririca, de acordo com uma pesquisa do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (Prosex/USP) – dentre elas, 19,5% declaram NUNCA ter experimentado a prática.

Desde muito cedo, as meninas têm seus corpos policiados (“cruza as pernas!”, “tira a mão daí!”) e são levadas a acreditar que a masturbação é um instinto masculino. Como se a natureza tivesse implantado apenas neles um chip com essa necessidade fisiológica e, em nós, um chip com a necessidade de cozinhar e lavar a louça. Assim como os homens não são ensinados a se responsabilizar pelas tarefas domésticas, as mulheres não são ensinadas a se dar prazer.

Mais do que isso, muitas crescem na expectativa (às vezes inconsciente) de que seus orgasmos sejam proporcionados pelo parceiro fixo ou eventual. Vão para o sexo torcendo para que o outro saiba exatamente o que lhes faz revirar os olhos – ou, pelo menos, demonstre interesse e empenho nesse sentido. É uma expectativa, no mínimo, inocente. Além de um desperdício do potencial orgástico: você está disponível para você mesma 100% do tempo, né?

Leia mais: Mulheres que fumam maconha têm orgasmos melhores, diz estudo

Os caras, ao contrário, não costumam terceirizar seu gozo. Eles entendem que são perfeitamente capazes de chegar lá sem ajuda de alguém e não se sentem inadequados aliviando a tensão sexual durante o banho ou antes de uma reunião de trabalho.

Afinal, sempre foram autorizados pela sociedade a ter esse tipo de comportamento. E percebem que o exercício individual da sexualidade não substitui ou compete com aquela compartilhada com a(o) parceira(o). São coisas diferentes, mas igualmente prazerosas. Quer dizer, em tese.

“Gozar sozinha não é uma questão de habilidade, mas de exploração”

Numa pesquisa com 300 leitoras do meu blog Pimentaria, 78,2% das respondentes admitiram  algum grau de dificuldade de atingir o clímax no sexo e 84,5% acham mais fácil na masturbação. Gozar sozinha não é uma questão de habilidade, mas basicamente de se permitir essa exploração. Um troço tão “bobo” e tão revolucionário. Mulheres que se tocam sabem o que é um orgasmo e o experimentam com frequência, conseguem comunicar seus atalhos, são menos propensas a se contentar com um sexo meia-boca centrado no prazer masculino.

Elas exigem reciprocidade, por exemplo. Claro que esse “insight” sobre o próprio poder sexual pode assustar alguns homens. Mas aí não é problema. É solução.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog  Pimentaria.