Não é só o 'Esquenta!' que chegou ao fim

Jeferson de Sousa - Tela Plena
Regina Casé apresenta um dos episódios do ‘Esquenta!’ (Foto: Divulgação)
Regina Casé apresenta um dos episódios do ‘Esquenta!’ (Foto: Divulgação)

Ontem foi ao ar o último episódio do ‘Esquenta!’. Desde meados de dezembro já se sabia que não havia intenção da Globo em dar continuidade ao show comandado por Regina Casé desde 2011. O fim da atração, tudo indica, vinha sendo preparado há algum tempo. Embora nada se falasse a respeito, era visível haver uma movimentação nas tardes de domingo. Com ‘Tamanho Família’ e ‘The Voice Kids’ obtendo bons resultados de audiência, o caminho do fim, desconfiava-se, estava sendo pavimentado.

Foi um episódio até que bacaninha o deste domingo, com Portela e Mangueira dividindo palco e plateia. Curiosamente, em momento algum Regina falou sobre ser aquele o último programa. Em sua fala final, contudo, a apresentadora, com a equipe reunida ao seu redor, fez um pronunciamento emocionado e que parecia ter sido encaixado ali de último minuto.

“Muita gente achava que isso era uma bagunça; que esse programa era só um programa de pobre, preto e favelado; eu tenho o maior orgulho disso”, disse Regina. Os créditos finais tiveram aquele clima de despedida, com a equipe se abraçando e dando tchauzinho para a câmera. Ou seja, não volta mesmo.

Nascido no núcleo de Guel Arraes e idealizado pelo antropólogo Hermano Viana (também criador de outras atrações com “pegada social”, como ‘Brasil Legal’ e ‘Central da Periferia’), o ‘Esquenta!’ apontava claramente para um modelo que queria ser inclusivo – ou seja, trazer o “pobre, preto e favelado”, como disse Regina, para a TV.

Inicialmente o programa até que manteve seu Norte, com o samba e seus signos (a cozinha, o morro etc.) guiando o roteiro, enquanto outras atrações musicais ajudavam no tempero. Apesar do cunho popular, ficava claro uma certa, digamos, sofisticação na escolha desses convidados: Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fernanda Abreu, entre outros.

A partir da segunda temporada, porém, o programa parecia começar a perder o rumo com a introdução de novos quadros, alguns não se mantendo nas temporadas seguintes. Foi assim que o ‘Esquenta!’ ganhou uma disputa de calouros em sua segunda edição e uma bancada de debates na quarta temporada.

Também é possível fazer outra leitura dessa mudança nas tardes dominicais da Globo. O ‘Esquenta!’ nasceu em um período em que questões de inclusão faziam parte da agenda de discussão política e social. Era um debate não apenas entre profissionais, mas que também permeava a sociedade. Os rumos, entretanto, mudaram. Hoje a discussão social vai deixando a pauta e dando espaço para modelos mais conservadores. Talvez não seja apenas coincidência que um programa como o ‘Tamanho Família’ venha a ocupar esse espaço na grade futuramente.

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O ‘Esquenta!’ tinha defeitos enquanto atração e não foram poucas as vezes que confundiu abrir espaço para a cultura popular com fazer proselitismo – aquela história de intelectual de classe média olhando de cima para baixo e decidindo o que o povo gosta (e teve também aquele episódio mal explicado da devolução dos brinquedos doados). Mas há que se reconhecer o mérito dessa tentativa de trazer a cultura do morro para o domingão pós-almoço na TV.