“Não adianta falar para as pessoas fazerem ioga quando elas não têm o que comer”

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A pandemia, a morte, um vírus e a falta de planejamento em apenas um país (Foto: Getty Images)
A pandemia, a morte, um vírus e a falta de planejamento em apenas um país (Foto: Getty Images)

Em março de 2020, a psicóloga e professora da Universidade Federal de Goiás Ionara Rabelo mergulhou no trabalho para capacitar profissionais a cuidarem da saúde mental no enfrentamento da pandemia e preparar planos do que seria necessário para atender as pessoas que passaram pela perda de familiares e pelas consequências de uma crise sanitária. Um ano mais tarde, não teve pós. O alongamento da crise e o aumento do número de afetados, mais de 11 milhões de infectados e 266 mil mortos, levou a uma explosão na busca por serviços psicológicos.

Especializada em gestão de desastres, ela alerta “precisamos evitar que mais pessoas desenvolvam um sofrimento psicológico grave, tenham crises psicóticas, ideação e tentativa suicida”. Para isso, ela defende que a saúde mental deixe de ser vista como uma especialidade de cuidado apenas dos psicólogos e psiquiatras e seja uma preocupação de todos.

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O cuidado com o outro e consigo mesmo começa com a “escuta para acolher o outro da maneira que ele precisa”, afirma a psicóloga, que salienta ainda a importância do compartilhamento de estratégias de sobrevivência. “Nos piores dias, perguntava para os meus meninos o que teve de engraçado no Twitter hoje, 'o que fez vocês sorrirem?'”, e isso, que é mínimo, já me ajudava.”

No entanto, Ionara lembra que o cuidado com a saúde mental precisa se basear na garantia da sensação de segurança e de sobrevivência das pessoas. 

Não adianta falar para as pessoas fazerem ioga se eu não tenho o que comer, crava.

Com a experiência de trabalho ao longo de dez anos em missões humanitárias pelo mundo, a psicóloga compara o medo da morte enfrentado neste momento no Brasil com o enfrentamento da pandemia do Ebola na Libéria e destaca “precisamos do trabalho coletivo”.

Confira a seguir os principais momentos desta entrevista

Yahoo - Desde o início da pandemia, tínhamos a preocupação de que seria duro para a saúde mental. Um ano depois, como está o impacto da pandemia sobre os profissionais da saúde?

Ionara Rabelo (IR): No começo a gente teve reações que eram as já esperadas, de imenso comprometimento de alguns, mas o sentimento comum era o medo de contaminar os familiares. A maior parte das pessoas que iam trabalhar, fazia tudo certinho e dizia: ‘eu não tenho medo de me contaminar, meu medo é que meu pai, meu filho, minha mãe se contaminem’. Ao longo do tempo, a maior parte dos colegas entendeu a [eficiência] dos cuidados de biossegurança. E, a não ser aqueles que realmente trabalham em serviços fechados Covid, a maior parte não se contaminou no trabalho.

A gente só consegue acabar com uma pandemia se estivermos todos com o mesmo norte

No começo do ano, com a possibilidade de vacina teve a esperança e a esperança motivou muito. Mas parece que junto com a esperança veio um tsunami maior ainda, com o pior plano de imunização da história do Brasil. Neste momento, há uma sensação de desalento, de que não vamos dar conta, de que vamos vivenciar os piores dias de nossas vidas nos próximos meses. O que era o medo da doença no começo da pandemia, agora é desespero por saber que não vamos conseguir salvar tantas vidas como a gente imaginava.

Yahoo - Entre pacientes da Covid, os familiares e as pessoas afetadas pelo isolamento, por desemprego e pelas consequências da pandemia, como tem sido a demanda por atendimento em saúde mental?

IR - A OMS estima que entre 30% a 50% da população precisaria em algum momento ser ouvido por um profissional de saúde. A gente já viu isso acontecer no final do ano. E desse 30% a 50%, o total de pessoas que vão precisar de um cuidado de saúde especializado era de 3 a 4%. Com a duração dessa pandemia e o impacto global dela, pela primeira vez teremos um aumento muito grande.

O que a gente percebe é que entre as pessoas que adoeceram e perderam os familiares, o sofrimento depende da elaboração desse luto com base na rede de apoio. A ausência da possibilidade de se despedir, de ter um funeral, tem provocado imagens de muito sofrimento nos pacientes. Alguns sobreviventes guardam ainda uma tristeza, um humor deprimido, de dois a três meses depois tentando ainda elaborar o que se passou porque foi totalmente inédito.

E agora há os pacientes com a síndrome pós-Covid, que tem alterações não só físicas como psicológicas. Essas alterações não estão sendo acolhidas e essa pessoa fica pingando de especialista em especialista, não consegue identificar [as razões], ela vê partes do corpo dela sendo examinadas e ela não consegue uma integração. Isso traz a angústia, a ansiedade, o sentimento de impotência. “Eu sobrevivi, mas o que é que isso quer dizer?”

Mas parece que junto com a esperança veio um tsunami maior ainda, com o pior plano de imunização da história do Brasil

Das pessoas que não tiveram Covid, já tinha um aumento de demanda porque estávamos completando no final do ano um ano de pandemia [com isolamento, aumento de desemprego]. Com as pessoas que tiveram Covid, houve um agravamento da situação. Cada vez temos mais pessoas recuperadas e mais mortos, na medida em que isso vai subindo, vai subindo a complexidade dos casos e no número de pessoas que precisam de cuidado especial. Temos visto um aumento de procura pelos Caps [Centro de Atenção Psicossocial], o aumento de procura por consultas com psicólogos e, aqui em Goiânia, nas últimas semanas, de tentativas de suicídio.

A psicóloga e professora da Universidade Federal de Goiás Ionara Rabelo (Foto: Reprodução/Yahoo)
A psicóloga e professora da Universidade Federal de Goiás Ionara Rabelo (Foto: Reprodução/Yahoo)

A força de trabalho para cuidar da saúde mental da população brasileira tem que ser uma força de trabalho que englobe não só profissionais da saúde, mas da assistência social e da educação, e organizações da sociedade civil, das comunidades. Desde o ano passado isso já era grave, e agora é gravíssimo.

[Ano passado], falávamos de um pós-pandemia com se fosse terminar logo e não teve um pós. É durante e com agravamento da situação. Então já há um sofrimento existente agora e que precisa ser cuidado e precisamos evitar que mais pessoas desenvolvam um sofrimento psicológico grave, e evitar que mais pessoas tenham crises psicóticas, ideação e tentativa suicida.

Yahoo - No atendimento em situação de desastres, fala-se em pensar no cuidado do outro baseado em um tripé que envolve ações para garantir segurança, autonomia e esperança. Isso serve para ações feitas na família, na comunidade?

IR - A base do cuidado da saúde mental não é psicoterapia e psicólogo. A base é como colocar a sensação de segurança, de esperança e de fortalecimento do grupo. Então, são estratégias que podem ser desenvolvidas para promover saúde mental por todos. O cuidar do [sofrimento causado] em situações anormais é responsabilidade de todo mundo.

[No início da pandemia] ficou uma perspectiva muito individualista de eu preciso cuidar de mim mesmo e a responsabilidade é minha, quando na verdade o que estamos falando é que tem que ter todo um sistema de cuidado e proteção que comece do governo para gerar segurança nas pessoas. 

Não adianta eu falar para as pessoas fazerem ioga, meditação, quando eu não tenho o que comer.

A primeira coisa é que precisamos de uma gestão da crise pensada como contingente e baseada na comunicação linear sobre ‘como estamos’, ‘como passaremos por essa crise’ e ‘o que vamos fazer para passar por ela’. Estamos falando de proteção a vida e isso é um componente fundamental para que nossa saúde mental seja fundamentada em aspectos práticos e lógicos da nossa sobrevivência.

Isso deveria estar sendo pensado pelos governos em um plano de ação. Mas, não sendo, pode e deve também ser reduzido para o microcosmo da família e pode ser pensado para instituições. O que é que a gente vai despertar em nossos alunos? Montar grupos de escuta para elaborar esse sofrimento no trabalho, na comunidade. Pensando nos momentos de maior crise, como quando temos um colega que faleceu ou passam por uma situação difícil, [é preciso pensar em] como não naturalizar como se fosse mais um número e continuar trabalhando como se fosse normal. É preciso pensar nesse cuidado do outro.

[Refletir sobre] como é que pensamos em mim, no outro e na minha cidade? Talvez isso é um aprendizado que precisamos ter, que o isolamento não nos torne insensível à dor do outro mesmo que não esteja na minha cara.

Yahoo - A esperança neste momento parece um desafio. Como despertar esperança em um momento tão dolorido?

IR - A construção da esperança se dá no território e com os vínculos que você faz, então retoma o que já te deu esperança em momentos anteriores, relembra na sua história de vida o que te fez depois de tropeçar feio se reerguer. Pensa que você vai ter só que adaptar isso por algum tempo e tolerar um pouco mais.

Não é uma esperança abstrata. Eu preciso me fortalecer, tolerar e saber que vou voltar a correr maratonas daqui a algum tempo, saber que vou conseguir retomar projetos de vida. A gente pode se alimentar de esperança com pequenas histórias.

Uma família estava com mãe estava na internação e eu acompanhei uma das filhas. Quando a mãe faleceu, a gente sempre tentou ajudar a família a elaborar quais os rituais de despedida ou de honrar a memória dessa pessoa. E às vezes é simples, pode ser fazer uma oração todos ao mesmo tempo. E ela tem a esperança de que a mãe foi acolhida e que o grupo que está em torno dela acolheu este momento e precisa continuar forte para os outros.

Diria que as formas de criar esperança passam pela tolerância, por acolher a dor e o sofrimento e fazer projetos de vida. E o humor. Nos piores dias, chegava em casa e perguntava para os meus meninos o que teve de engraçado no Twitter hoje, “o que fez vocês sorrirem?” e isso, que é mínimo, já me ajudava.

Yahoo - Você teve muitas experiências em situações de crise humanitária. O que pode ser usado para nossa experiência?

IR - No conflito Palestina-Israel, atendi pessoas que guardavam a chave das casas delas de quarenta anos atrás e elas diziam: ‘Um dia, eu vou voltar para minha casa’. Sabia que a cidade delas tinha sido toda destruída e tinha agora uma megacidade israelense. Foi tudo destruído, o passado, a casa, os filhos continuam a morrer pelo conflito, os filhos estão presos. E eles tinham a esperança. Então, vejo que a gente poderia aprender muito com a resiliência da palestina. Lá são quarenta anos, aqui estamos em um. [ Podemos aprender] como é que a gente renova esperanças, fortalece os vínculos.

Que o isolamento não nos torne insensível à dor do outro mesmo que não esteja na minha cara

Na crise do ebola, na Libéria, foram quase três anos para conseguir fechar aquele quadro. Aquilo talvez tenha sido mais próximo [do que estamos vivendo] em relação ao medo da morte, mas naquele caso a maioria das pessoas morria, e não se sabia quem sobreviveria. Às vezes chegava uma pessoa sem força para levantar o braço, passavam vinte dias e essa pessoa saía, muito emagrecida, mas sobrevivia. E outras entravam caminhando, só com febre e diarreia, e em dois dias faleciam.

Talvez o que mais me dá angustia é essa perda de controle. Sabemos que os casos do grupo de risco são os de idosos e pessoas com comorbidades, mas tem outros casos que agravam. Há essa perda de controle. É um desespero. Disso, ficou a sensação de que a gente só consegue acabar com uma pandemia se estivermos todos com o mesmo norte. No ebola foi isso, quando você coloca a sociedade para pensar todo mundo igual e acordando que é desse jeito que a gente vai acabar com a pandemia, a gente consegue. Isso tinha que ser utilizado aqui, precisa de um trabalho coletivo.

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