Na pré-lista do Oscar, 'Aqueles que Ficaram' fica suspenso entre passado e presente

INÁCIO ARAUJO

FOLHAPRESS - É a melancolia, pode-se pensar a princípio, que dá o tom de "Aqueles que Ficaram". Mas não. Ou não apenas. É o silêncio, sim, o que chama a atenção. Primeiro o de Körner, o médico ginecologista que perdeu a família nos campos de concentração. Estamos na Hungria do pós-guerra.

Algo de irônico se introduz então no mundo sem esperança do personagem. Ginecologistas existem para dar vida às pessoas, no entanto são as mortes, os fantasmas daqueles que perdeu que o habitam e que cultiva dia após dia.

Sua solidão silenciosa será invadida por Klára, garota jovem e rebelde que, no mais, não suporta as dores da menstruação que acaba de lhe chegar. Essas dores, assim como a irritabilidade, não são mais que sintomas: seu real incômodo é a vida ao lado da parente que a tirou do orfanato. Boa parte de sua rebeldia vem menos de problemas com a boa senhora do que da crença de que não é órfã, de que o pai está vivo em algum lugar.

É o encontro desses dois solitários, o médico e Klára, que marcará boa parte do filme. O médico acolhe a jovem, praticamente a adota. Ou seja: a própria dor o credencia a compreender a dor do outro.

Existe, no entanto, um outro viés, tratado com discrição no filme de Barnabás Toth. Algum tempo depois, instala-se na Hungria o regime soviético. Soviético e stalinista, nunca é demais lembrar. Ou, entenda-se, ameaçador, bruto, policial.

Poderia ser uma forma de credenciar "Aqueles que Ficaram" ao Oscar de filme estrangeiro. Afinal, temos Holocausto mais comunismo num filme só... Mas não. É como se a uma ferida se seguisse outra, e um regime opressor viesse suceder outro.

Novamente, Toth revela o bom senso de não enfatizar perseguições e coisas assim. Existe apenas uma atmosfera que se instala: ameaças, medo (talvez justificados, talvez nem tanto). Mas isso é o que há de mais característico nos regimes de opressão.

Nesse filme muito valorizado pela direção dos atores e pelos atores (especialmente Károly Hajduk, o protagonista), algo surpreende e é dificilmente inteligível. Pouco após ser anunciada a morte de Stálin --o que não desperta grande comoção, exceto no rádio que veicula a informação--, o filme dá um salto no tempo, sinalizando uma espécie de reconciliação geral.

Um traço de felicidade, ou de superação da desesperança, se insinua ali. Mas o comunismo prosseguia, não? Malgrado a morte de Stálin... Seja lá o que signifique (alusão aos negros tempos atuais na Hungria ou não), esse final de certo modo aponta o beco sem saída em que se mete o roteiro.

A que fim chegar? A quem satisfazer? É como se o filme permanecesse suspenso entre o tempo atual e o passado, o prestígio e o comércio --no caso, uma coisa anulando a outra. Como aqueles que sobreviveram, "Aqueles que Ficaram" vive em uma trágica terra de ninguém.

AQUELES QUE FICARAM (AKIK MARADTAK)

Elenco: Károly Hajduk, Abigél Szõke, Mari Nagy

Produção: Hungria, 2019

Direção: Barnabás Tóth

Avaliação: bom