Na Ópera de Paris, coros rompem 'barreira do som' da máscara

Rana MOUSSAOUI
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O baixo-barítono americano Christian Van Horn (à dir.) e o tenor francês Benjamin Bernheim interpretam "Fausto", na Ópera da Bastilha de Paris, em 16 de março de 2021

Seja interpretando "Glória ao Egito" em "Aida", ou "Glória imortal dos nossos antepassados", em "Fausto", a imagem é singular: os coros da Ópera de Paris enfrentam o desafio de cantar em uníssono, apesar da "barreira do som" criada pelo uso de máscara.

Quase 70 artistas participam de uma nova versão de "Fausto", de Gounod, depois de "A flauta mágica" e de "Aida", três gravações audiovisuais feitas pela instituição desde o fechamento das salas de espetáculos há quase cinco meses na França, devido à pandemia.

Voltar aos palcos os reconforta, mesmo sem público e apesar da envergadura do desafio: ao contrários dos solistas, os membros do coro devem cantar de máscara, devido a sua proximidade e apesar de se submeterem a um teste de PCR uma vez por semana.

Cantar com máscara "afeta sobremaneira a emissão do canto (...) tem uma barreira diante do som", explica à AFP Sylvie Delaunay, membro do coro.

"Na ópera, canta-se fazendo grandes inspirações, expirações. A gente cansa muito com respiração alterada", comenta.

Os coros usam máscaras cirúrgicas planas (e pretas para o espetáculo) e descartam as PFF2.

Nos ensaios, os artistas acatam o distanciamento físico, uma dificuldade a mais.

"Nos ouvimos pior: ouvimos o colega da direita, da esquerda, que estão a 1,5 m; o de trás; mas o som do grupo está muito mais afastado (...) A ressonância do volume não é, de modo algum, a mesma", acrescenta esta artista, que trabalha na Ópera há 23 anos.

Embora em "Fausto" tenha uma cena de discoteca na versão moderna do alemão Tobias Kratzer, as cenas foram adaptadas para limitar os contatos, mas se descartou o distanciamento extremo para respeitar a coesão do coro.

- Articular -

Para "poder trabalhar", os artistas aceitam as regras de boa vontade. O resultado pode surpreender, especialmente a ressonância de sua voz, como pôde constatar a AFP na semana passada, ao assistir ao ensaio geral na Ópera da Bastilha.

A missão de uniformização não é fácil, admite José Luis Basso, chefe de coral da Ópera de Paris desde 2014, que será, em breve, substituído por Ching-Lien Wu. Ela será a primeira mulher a ocupar este cargo na instituição fundada no século XVII.

Com a máscara, "perde-se um pouco em relação à articulação, dicção (...) O trabalho dos artistas dos corais é, precisamente, exagerar a pronúncia das palavras, mas os resultados não estão ruins", garante com um sorriso este ítalo-argentino, cujo trabalho foi aplaudido pela crítica.

Embora costumem ter um papel de acompanhamento, os coros às vezes representam um personagem distinto e cantam momentos famosos do repertório, principalmente com Verdi, como "Va pensiero" de "Nabucco", e com Wagner.

Em "Fausto", uma das mais conhecidas óperas francesas, o coro interpreta sobretudo as árias "Vinho ou cerveja" e "Glória imortal dos nossos antepassados".

Basso lembra a importância desses grupos, destacando o quanto se exasperou com o clichê que afirma que seus integrantes são "pessoas que não fizeram carreira como solistas e que cantam em coro para ganhar a vida". "Não é nada disso!"

"Os testes para entrar na Ópera são muito exigentes", defende Basso, citando as exigências de domínio de vários idiomas, estilos musicais, musicalidade, etc.

Para Alexander Neef, diretor da Ópera, o fundamental agora é garantir um ambiente sanitário seguro para os artistas continuarem trabalhando. "Se não atuamos, não existimos", afirma.

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