Nação Zulu espera seu novo rei na África do Sul

Claire DOYEN y Susan NJANJI
·3 minuto de leitura
O falecido rei zulu Goodwill Zwelithini, em 7 de outubro de 2018 em Durban, África do Sul

Maior grupo étnico da África do Sul, a nação Zulu com seu glorioso passado guerreiro - mas também seus perigosos laços durante o apartheid - aguarda a coroação de seu novo rei.

Descendente do lendário Chaka, fundador do reino no início do século XIX, Goodwill Zwelithini, o oitavo monarca dos zulus, faleceu na sexta-feira aos 72 anos, após um reinado de 50 anos.

O nome de seu sucessor permanece um segredo bem guardado. "É um processo complexo", explicou à AFP o historiador sul-africano Ntuli Pikita.

O filho mais velho do rei morreu em novembro, mas na cultura nguni - da qual descendem os zulus - não é automático que o primeiro filho da primeira esposa herde o trono, segundo o historiador.

No palácio, no círculo interno, "eles provavelmente sabem quem será", diz Pikita. Mas enquanto os políticos desfilam pela pequena cidade de Nongoma, na província de Kwazulu Natal, no nordeste, nenhum nome foi divulgado.

Sempre envolto em pele de leopardo, Goodwill Zwelithini, cujo corpo deve ser "plantado" na terra na quinta-feira de acordo com o rito zulu, era considerado um líder tradicional com autoridade espiritual inquestionável. Falava com os poderosos e apareceu em público ao lado de Nelson Mandela.

O ex-chefe de Estado Jacob Zuma, o primeiro presidente zulu, visitou o palácio no domingo, acompanhado por uma delegação do partido no poder, o Congresso Nacional Africano (ANC).

O rei zulu é um governante sem poder político, mas tem influência moral sobre mais de 11 milhões de zulus, quase um em cada cinco sul-africanos.

Os líderes tradicionais ganharam reconhecimento constitucional com o fim do apartheid e continuam a desempenhar um importante papel simbólico.

Eles também têm um papel consultivo no Parlamento e têm voz em questões de cultura, gestão de terras e administração da justiça em seus territórios. O mais influente deles é o chefe zulu.

- Idiota útil -

Nascido de uma linhagem que lutou contra a colonização britânica, com uma vitória histórica em Isandhlawana em 1879, Goodwill Zwelithini divide opiniões. No dia seguinte à sua morte, foi descrito na imprensa local como o "guardião da cultura zulu", mas também, por outros, como "o idiota útil nas mãos do apartheid".

No crepúsculo do regime supremacista branco dos anos 1990, a grande nação guerreira, por meio do partido nacionalista Inkatha, foi acusada de ter feito o jogo dos segregacionistas, lutando contra o ANC de Mandela.

Esta guerra sangrenta entre partidos, suspeita de ter sido orquestrada pelo poder branco para desestabilizar o ANC e atrasar a chegada inevitável da democracia, causou centenas de mortes.

Antes das primeiras eleições democráticas em 1994, o rei zulu pediu a milhares de homens, armados com paus, que se reunissem nas ruas de Joanesburgo. Um tiroteio em frente à sede do ANC deixou 42 mortos e 250 feridos.

Em outros países africanos colonizados, como Moçambique, os governos tentaram se livrar dos chefes tradicionais antes de serem forçados a reabilitá-los.

Na África do Sul, porém, centenas de líderes pagos pelo Estado, entre eles uma dezena de reis, velam pelo respeito dos costumes.

Testemunho da complexidade da sociedade sul-africana, onde menos de 10% dos cidadãos têm o inglês como língua materna, o zulu ainda é o idioma mais comum.

cld-sn/ger/ayv/blb/mab/mb/mr