Não pode haver briga política no Rock in Rio e no The Town, diz Roberto Medina

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 22.09.2017 - Roberto Medina, idealizador do festival Rock in Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 22.09.2017 - Roberto Medina, idealizador do festival Rock in Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - À luz da invasão golpista por bolsonaristas do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, Roberto Medina afirma que não haverá espaço para rixas políticas em seu próximo festival, o The Town, que chega a São Paulo em setembro com a promessa de ser o irmão mais novo —e paulistano— do Rock in Rio.

O empresário diz que ficou preocupado com o que poderia ter acontecido no último Rock in Rio, às vésperas das eleições presidenciais. Não houve confronto, mas o que se viu nos palcos e principalmente na plateia foi uma prévia do que aconteceria no pleito —mais apoio a Lula do que a Jair Bolsonaro.

A preocupação era legítima. Seis meses antes, o Lollapalooza tinha sido atravessado por uma guerra de liminares judiciais e uma tentativa de censura do governo Bolsonaro contra artistas que se manifestassem politicamente, depois que Pabllo Vittar fez o "L" com as mãos e exibiu uma toalha com o rosto de Lula.

Medina, que em 2018 colaborou brevemente com a campanha de Bolsonaro, com quem diz não manter nenhum vínculo, é da opinião de que política não se faz em cima dos palcos e de que a música tem o superpoder de unir todas as tribos, mesmo por uma noite.

"O Brasil ainda está dividido, mas a gente vai sair disso. Não somos um povo de briga", afirma Medina a reportagem.

"Eu transmito a mensagem de paz e de que a música é sobre união, então não tem ambiente para briga. Não precisamos concordar, mas não podemos estar divididos. E não tem plano B para a democracia. A gente é democracia ou é democracia", acrescenta o empresário, de 75 anos, que teve seu pai, Abraham Medina, torturado pela ditadura militar.

Um dos principais cuidados que vão ser tomados para evitar conflitos é manter a proibição da venda de bebidas alcoólicas além de cerveja na Cidade da Música, a versão paulistana da Cidade do Rock. "Nunca aceitei, desde o primeiro Rock in Rio, apesar de propostas muito lucrativas, porque [destilados] abre uma portinha para você mexer com o cara do lado."

Esta, porém, é só uma das medidas adotadas para proporcionar conforto, diz Medina, que negociou com Bruno Covas uma série de reformas no Autódromo de Interlagos, que deve receber 500 mil pessoas ao longo dos cinco dias do The Town. As promessas do então prefeito, morto no ano retrasado em decorrência de um câncer, foram mantidas por seu vice, Ricardo Nunes.

Entre elas, está a criação de uma rede de esgoto, para que o público não dependa mais de banheiros químicos, e a instalação de grama sintética sobre os 350 mil metros quadrados do autódromo, para que não haja lama caso chova.

As reformas, que o empresário diz terem começado agora, pagas pela prefeitura, também devem criar tubulações subterrâneas, para que os cabos de eletricidade que mantêm a operação do festival não fiquem expostos sobre o chão.

Medina promete ainda que o metrô da capital paulista vai operar 24 horas nos dias do The Town, diferentemente do que acontece no Lollapalooza, também sediado no autódromo e mantém o transporte só até à 1h. A mudança, diz ele, valerá não só para o seu festival, mas para todos os grandes eventos da cidade.

O que não deve mudar muito em relação ao irmão mais velho carioca são os artistas contratados para o The Town, que ocorre nos dias 2, 3, 7, 9 e 10 de setembro e deve ter ingressos à venda a partir da primeira semana de março.

"Os artistas que podem ocupar um palco como o Mundo e o Skyline são 20 no máximo, então vamos beber da mesma fonte. Não nos preocupamos em repetir. Seria bobagem. Nenhuma banda grande é nova para o Brasil. Não tem como ter novidade. Todas as bandas importantes já vieram a São Paulo e ao Rio."

O empresário diz já ter contratado três dos cinco headliners do festival, como são conhecidos os artistas principais de cada dia, mas faz suspense. A novidade é que a curadoria está de olho em artistas latinos, como Bad Bunny, mas por enquanto a única certeza é a de que, como no Rock in Rio, todos serão estrangeiros.

Isso pode reviver uma rixa antiga com artistas nacionais, que acusam o festival de não dar a devida importância aos brasileiros. No ano passado, Anitta afirmou que nunca mais se apresentaria no Rock in Rio, fazendo coro a críticas de figuras como Rita Lee.

Medina rebate os ataques dizendo que os palcos secundários têm quase o mesmo tamanho e estrutura de som e iluminação dos principais.

"O Rock in Rio, desde que começou, é de shows internacionais, por isso que o headliner é internacional. Vamos ter bom senso. Eu precisava de algum artista brasileiro para lotar o Rock in Rio? Não. A gente contrata 300 artistas num festival. É natural que alguém se sinta incomodado."

Esse frisson não é o único que atormenta a curadoria. No início da década passada, Roberta Medina afirmou que não havia espaço para o funk no Rock in Rio, mas seu pai garante que isso ficou para trás e que, na edição passada, por exemplo, o show de Ludmilla foi o mais visto na televisão.

"Não foi o Rock in Rio que mudou em relação ao funk. Foi o funk que tomou um tamanho no mercado brasileiro que a gente acompanhou. Nunca tive preconceito com nenhuma música", diz Medina.

Além do Skyline e do The One, o The Town terá outros três palcos para acomodar outros gêneros musicais. São eles o New Dance Order, dedicado à música de pista, o Factory, voltado para a cultura hip-hop, e o São Paulo Square, que terá artistas nacionais e internacionais de jazz e blues.

O São Paulo Square, que levará ao Autódromo de Interlagos reproduções de prédios históricos de São Paulo, como a catedral da Sé, o Mercadão Municipal, a estação da Luz e a Pinacoteca do Estado, é o preferido de Roberto Medina.

Não à toa. É ele que, além de ser o mais instigante visualmente, revela a verdadeira tônica do The Town, diz Medina. "Música tem em todo lugar. Se você vai a um show do Coldplay em Detroit ou em Los Angeles, tem um palco e o cara canta. A diferença é o conjunto da obra. Quero criar uma experiência completamente diferente para São Paulo."