'Não ocupava espaço na cama', diz ex-mulher de Jô Soares

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Convidada por Jô Soares para atuar em uma peça que ele dirigiria em 1979, Sylvia Bandeira recusou. Na época, ainda iniciante no ofício de atriz, ela não se sentia pronta para interpretar com o sotaque português que a obra exigiria.

Meses depois, os dois coincidiram na festa de 40 anos do jornalista Carlos Leonam, na Lagoa (zona oeste do Rio). Foi quando ela confidenciou ao ator, humorista, escritor, apresentador e diretor: "Hoje, se você me convidasse para fazer uma peça, eu aceitaria".

No dia seguinte, ela recebeu uma ligação dele com um novo convite. Estreou no teatro em 1980 em "Brasil da Censura à Abertura", de autoria dele e na qual contracenava com Marília Pêra e Marco Nanini. Entre um ensaio e outro, se apaixonou pelo autor e diretor, com quem ficou casada até 1982 —hoje, ela é casada há 38 anos com o engenheiro Carlos Eduardo Souza Dantas Ferreira.

Nesta sexta-feira (5), Sylvia Bandeira comentou a morte do ex-marido. "É uma perda nacional", avaliou. "Era uma pessoa extremamente carismática, inteligente, com um fino humor, capaz de falar coisas para as pessoas de quem ele discordava sem grosseria. Ele conseguia arrasar a pessoa sem que a pessoa pudesse rebater nada."

A atriz diz que, apesar de não terem permanecido amigos íntimos após a separação, mantinham a admiração e se encontravam ocasionalmente. Ela passou pelo sofá de seu programa de entrevistas em várias ocasiões.

Além do humor especial e da generosidade, ela destaca a leveza do artista, que nunca se deixou definir pelo corpo físico. "Era uma pessoa mágica, que mudou muitas coisas na minha vida, no sentido até de preconceitos", afirmou.

Ela lembra que em sua estreia nos palcos, ela e outros atores estavam nervosos por terem que aparecer mostrando muito do próprio corpo. "Éramos magérrimos na época, estamos falando de mais de 40 anos atrás, mas tinha aquela coisa de jovem, de achar que tem uma coisinha a mais aqui e ali", conta.

"O Jô tirou a camisa, rodopiou pelo palco, com aqueles cachos lindos —parecia um um anjinho barroco— e disse: 'Pois eu me acho lindo'", completou a atriz, apontando que ele já tinha um discurso a favor da liberdade dos corpos e contra a gordofobia muito antes de isso ser uma questão para a sociedade.

"Ficamos juntos 3 anos bastante intensos, e vi que aquilo não era da boca pra fora", afirma. "Ele adorava o próprio corpo, adorava se vestir bem e se perfumar. Não tinha o menor problema com sua forma."

Nem o corpo avantajado era capaz de tirar essa graciosidade do artista. "Era um gordo leve. Jô não ocupava espaço na cama, não era grande", diz Sylvia. "Ele tinha uma grandeza, mas não era o físico que impunha isso. O que ele vai deixar é essa leveza."

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