MV Bill diz que vai para as urnas sem orgulho de seu voto ao lançar biografia

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**Arquivo**RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-12- 2012 - O rapper MV Bill na Cidade de Deus, onde começou sua vida de palco. (Foto: Luciana Whitaker/ Folhapress)
**Arquivo**RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-12- 2012 - O rapper MV Bill na Cidade de Deus, onde começou sua vida de palco. (Foto: Luciana Whitaker/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Esse livro é para que a história não seja apagada, para mostrar aos rappers de hoje que a estrada só está pavimentada porque fizemos muito lá atrás." Quem afirma isso é o rapper MV Bill, que lança agora seu primeiro livro, "A Vida me Ensinou a Caminhar", pela editora Age.

"Essa é a primeira geração com cabelo e barba branca [no rap]. Quem está circulando por aí no gênero hoje precisa reverenciar esses caras enquanto ainda estão vivos", prossegue ele.

A obra narra os primeiros anos de sua carreira, desde o Geração Futura, seu primeiro grupo de rap, até a composição de "Estilo Vagabundo", de 2006. E enfoca justamente o que não deu certo, de tabela mostrando os bastidores do hip hop que fez sucesso entre os anos 1990 e 2000.

Hoje com 30 anos de carreira, Alex Pereira Barbosa, nome de batismo de MV BIll, diz que sua música fez muito por sua comunidade, a Cidade de Deus, na região oeste do Rio de Janeiro. E que suas atitudes, assim como a de outros artistas do hip hop, ajudou a tirar do imaginário popular a ideia de que as favelas eram apenas lugar de miséria e criminalidade.

Conforme se avança na leitura da obra, nomes de outros artistas, entre famosos e anônimos, vão surgindo. Alguns com saudade, outros por terem mais atrapalhado a carreira. Chorão, líder do grupo de rock Charlie Brown Jr. morto em 2013, pertence ao primeiro grupo, e é lembrado com carinho por Bill.

"Ele me ligava para perguntar como eu estava, só amigos faziam isso. Quando nos conhecemos, ficamos muito próximos, ele me ajudou com pontes com outras pessoas, fez triangulações para projetos comerciais e sociais. As duas músicas que fizemos juntos ["Cidadão Comum Refém", de 2002, e "Sem Medo da Escuridão", de 2007] foram apenas um bônus dessa nossa relação."

Apesar de denunciar a violência e injustiças sociais em sua obra, Bill evita falar sobre política, partidos e candidatos. Ele diz que se esquivar desses assuntos o ajuda a ser mais fiel a suas letras e, nas suas palavras, "não ter rabo preso com ninguém".

Mas uma foto que sempre ressurge na internet talvez impeça isso. Nela, ele e outros dos principais rappers da sua geração estão ao lado do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, cercando o ex-presidente Lula, que usa um boné com o dizer "hip hop".

Na época, MV Bill, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo , comentou que "só o fato de o Lula ter reconhecido o hip hop antes mesmo de ser presidente já criou uma relação com a gente".

No livro, Bill relembra a ocasião em detalhes, e afirma que o registro é sempre tirado de contexto quando postado nas redes sociais hoje -segundo ele, a situação original teve muito bate-boca entre os rappers e os representantes do governo, além de uma sensação de que Gil não os queria lá.

"Eu não levanto bandeira partidária. Não sou contra quem faz isso, mas estávamos lá para fazer pedidos para projetos sociais, não para apoiar partidos."

Ao descrever o evento, Bill comenta que uma mulher de pele clara os acompanhou desde a hora que chegaram no Palácio para a reunião até irem embora. Dias depois, ao comprar a Folha, leu os pormenores de toda a discussão que travaram com Gil e os assessores do presidente. A mulher era a colunista deste jornal Mônica Bergamo, que segundo o rapper explicou bem o encontro já no título da matéria -"Barraco no Planalto".

Ainda na seara da política, Bill afirma que o rap sempre motivou as pessoas a se posicionarem, e que vê com bons olhos outros artistas hoje usarem sua obra e seus shows para pedir que fãs tirem seus títulos de eleitor, por exemplo. "Para alguns artistas, o atual governo tem causado mais indignação do que outros, passados, então só agora estão se manifestando. Antes tarde do que nunca, mas se esquecem que os rappers estão fazendo isso há muito tempo."

Sobre as eleições que vêm por aí, Bill diz: "Estou indo para urnas com convicção sobre em quem não vou votar, mas orgulho nenhum de em quem vou votar, sabendo que precisamos de mudanças".

A trajetória do MV Bill passou por vários campos. Ele já trabalhou como ator, vivendo um professor de matemática em "Malhação", em 2010, e participando dos filmes "Sonhos Roubados", de 2009, com as atrizes Nanda Costa e Marieta Severo, e "Odeio o Dia dos Namorados", de 2013.

Em 2006, ele dividiu a cadeira de diretor com o empresário Celso Athayde no documentário "Falcão - Meninos do Tráfico", que conta a vida de crianças que são traficantes pelo Brasil.

O caminho de Bill foi diferente de outros nomes do rap nacional de sua época. Os Racionais MCs, por exemplo -reverenciados inúmeras vezes nas páginas do livro pelo rapper- historicamente não falam com a mídia tradicional, e evitaram durante toda a carreira aparecer em programas de TV.

"Não dá para ficar comparando carreiras, os caras eram os faixas pretas do rap, mas por mais que eu admirasse ser antimidia só era bom para eles, eu tive essa compreensão muito cedo. Eu fui o quinto elemento dos Racionais durante muito tempo, mas não podia ficar pendurado nos caras, eu tinha que fazer a minha carreira, e fiz sendo eu mesmo na mídia", conta Bill e relembra que no início da carreira se inspirava nos astros das caras das revistas de rap americanas.

Tio Bill, como é chamado pelos rappers mais jovens, diz ainda ter muita estrada para percorrer na música e no cinema. "Quero continuar atuando, fiz um filme que está para sair na Netflix. E fazendo música, fiz um disco de drill [vertente mais eletrônica do hip hop] que está para ser lançado também."

Sobre seus 30 anos de carreira, diz não ter orgulho de tudo o que fez. "Mas não me arrependo de nada. Tudo não passou de um imenso ensinamento."

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