Músicos e amigos: Gal Costa foi madrinha de filhos de Gil e Caetano

Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia fundaram o grupo
Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia fundaram o grupo "Doces Bárbaros". (Foto: Divulgação)

A cantora Gal Costa, que morreu nesta quarta-feira (9) aos 77 anos, era amiga de longa data de Gilberto Gil e Caetano Veloso e madrinha dos filhos dos cantores. Com quase 60 anos de carreira, a artista ganhou notoriedade na música brasileira no final da década de 1960 quando se mudou para o Rio de Janeiro, mas a amizade com os músicos começou ainda em Salvador, na Bahia.

Caetano se apaixonou por Dedé, amiga de Gal. Se casaram em 1967 e ela se tornou madrinha do primeiro filho do casal, Moreno Veloso. Ela também é batizou a cantora Preta Gil, filha de Gilberto Gil e de Sandra Gadelha, irmã de Dedé.

A amizade de Gal e Caetano também foi transformada em seus discos de estreia. "Domingo", lançado em 1967, apresentou os cantores ao mercado nacional e contou com os sucessos "Coração Vagabundo", "Zabelê" e "Nenhuma Dor".

Junto com Maria Bethânia, Gal, Caetano e Gil fundaram o grupo "Doces Bárbaros" em 1976, para realizar uma turnê pelo Brasil celebrando os 10 anos de sucesso de suas carreiras individuais. Eles também inspiraram o documentário "(Outros) Doces Bárbaros", dirigido por Andrucha Waddington, que registra o reencontro deles, em 2002. A produção foi feita depois de 26 anos, para promover dois shows ao ar livre dos artistas, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Nesta quarta-feira (9), o trio entrou ao vivo no "Estúdio i", da "Globonews", para falar da morte de Gal. "A maior cantora do Brasil", disse Caetano, sem segurar o choro.

"Eu ouvi mais cedo Nelsinho Motta falando que a voz de Gal era cristal e veludo, mas também labareda. E é incrível porque passou o primeiro disco, era todo quase veludo, com algum cristal, e depois veio mais cristal e de repente no 'Divino Maravilhoso' explodiu o aspecto labareda", acrescentou.

Em sua participação, Gil também relembrou a grandeza de Gal e contou como lidou com a notícia da perda da amiga: "Na hora em que recebi a notícia até me controlei, porque a morte faz parte da vida, a gente sabe disso. A gente sempre procura e numa certa medida encontra o modo de deixar que a notícia da morte de um ente querido chegue de forma tranquila", explicou.

"Depois, com a compreensão da grandeza dela e da abrangência do que ela fez, do que ela fazia, da música que ela representava, e da comoção que foi se revelando mesmo no país inteiro, através do espalhamento da notícia, eu fui ficando muito assim", completou ele visivelmente abalado com a perda.

Emocionada, Maria Bethânia falou da importância de Gal para a cultura do país: "Um choque, triste demais, difícil demais. Eu nunca achei que chegaria a falar pra vocês sobre a dor de perder a Gal".

"O Brasil que ela encantou com sua voz, hoje chora. Minha amiga que mesmo longe sempre mantive admiração e respeito. Deus a receba na sua mais pura grandeza. É difícil demais, é triste demais", completou a artista.

Quem foi Gal Costa?

Nascida Maria da Graça Costa Penna Burgos em Salvador, na Bahia, em 1945, Gal Costa sempre foi incentivada pela mãe a seguir carreira na música. Já o pai, morto em sua adolescência, foi uma figura ausente.

No começo da vida adulta, ela trabalhou como balconista de uma loja de discos na capital baiana, a Roni Discos, uma das principais da cidade. No início dos anos 1960, foi apresentada a Caetano Veloso, encontro a partir do qual foi criado um vínculo pessoal a artístico que perduraria até sua morte.

Gal foi uma revolução das vozes e dos costumes na música brasileira desde seu surgimento na cena nacional, nessa mesma década

Gal Costa no Jazzfestival em Montreux, Canadá, em 1980 (Foto de Donald Stampfli/RDB/ullstein bild via Getty Images)
Gal Costa no Jazzfestival em Montreux, Canadá, em 1980 (Foto de Donald Stampfli/RDB/ullstein bild via Getty Images)

Aproximou-se ainda adolescente aos também baianos Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil, com quem integraria o grupo conhecido como Doces Bárbaros, responsável mais tarde por um disco definidor da década de 1970.

Tinha ainda pouco mais de 20 anos quando participou do álbum "Tropicália ou Panis et Circencis", pedra fundamental do movimento tropicalista. Logo depois, em 1971, fez um dos espetáculos de maior repercussão da história da MPB, "Fa-Tal", que viraria também um álbum cultuado.

Em 1977, o LP "Caras e bocas", que incluiu a canção "Tigresa", do cantor Caetano Veloso, marcou sua carreira pelas excelentes críticas. Em 1980, ganhou seu terceiro Disco de Ouro, com o LP "Aquarela do Brasil", no qual gravou somente músicas de Ary Barroso.

A partir da segunda metade dos anos 1990, Gal Costa passou a reler suas antigas gravações e sua voz foi se tornando cada vez mais popular por canções como "Modinha para Gabriela", sucesso estrondoso de Dorival Caymmi que abria a novela da Globo inspirada em Jorge Amado, e por hits reunidos no álbum "Água Viva", de 1978, como "Folhetim", de Chico Buarque, e "Paula e Bebeto", de Milton Nascimento e Caetano.

Gal Costa se apresentando na Suíça, em 1996 (Foto de Lionel FLUSIN/Gamma-Rapho via Getty Images)
Gal Costa se apresentando na Suíça, em 1996 (Foto de Lionel FLUSIN/Gamma-Rapho via Getty Images)

Foi nesta fase que a cantora se incorporou mais ao mainstream das grandes redes e rádios, começando a se descolar da imagem de ícone da subversão tropicalista. A parceria com Caetano nunca esmoreceu, mas Gal passou a tirar seus hits de compositores de correntes diversas, como Chico — "A História de Lily Braun", "Futuros Amantes"— , Djavan, de "Azul" e "Nuvem Negra", e Moraes Moreira, de "Festa do Interior".

Nos últimos anos, a cantora quebrou um jejum que usara para se dedicar à família para lançar álbuns elogiados como "Recanto", de 2012, a homenagem a Lupicínio Rodrigues, uma de suas grandes influências, em 2014, e "Estratosférica", de 2016.

Mais recentemente ela vinha se unindo a vozes em ascensão como maneira de redescobrir sua música e prestar homenagem às novas gerações. Gravou o sucesso "Cuidando de Longe" com a sertaneja Marília Mendonça, morta há um ano, e o álbum "Nenhuma Dor", em que cantava alguns dos maiores sucessos de sua vida ao lado de nomes com Tim Bernardes, Seu Jorge, Criolo e Jorge Drexler.

com informações das agências Folhapress, O Globo e BBC Brasil