Musical 'Chaves' resgata a vila e os personagens da série em uma espécie de episódio ao vivo

TATIANA CAVALCANTI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mexicano Roberto Gómez Bolaños (1929-2014) era ator, escritor, roteirista e diretor. Era baixinho e tão genial que ganhou o carinhoso apelido de Chespirito (pequeno Shakespeare). Mas, em sua essência, ele tinha o coração de um clown (palhaço). É assim que ele é retratado no espetáculo "Chaves - Um Tributo Musical", onde os palhaços dão um charme especial à apresentação. Muitas vezes, até roubam a cena.

Os palhaços dominam o início do espetáculo que -para os mais ansiosos por ver a turma da vila do Chaves pode parecer longo- logo diverte e conquista a plateia. Ao longo do musical, eles dão o molho especial para que a peça não seja apenas um episódio que pode ser visto na TV. 

O espetáculo mostra como o palhaço Chespirito conseguiu dar vida a personagens inesquecíveis e ricos em questões sociais, como sua criação mais conhecida, "Chaves", que apesar de divertir com suas trapalhadas, tem uma vida difícil.

"Comecei a assistir 'Chaves' aos 9 anos, mas achei triste. Isso porque eu morava ao lado de um cortiço na Santa Cecília [centro de São Paulo] e tinha muitos amigos dali. Parecia uma réplica do que eu via todos os dias. Sabia dos perrengues daquelas famílias, muitas incompletas, como no programa. Cada personagem mostrava que não tinha uma vida perfeita, sempre faltava algo (com Kiko sem pai, Chiquinha sem mãe, Chaves morando sozinho aos 8 anos e Dona Florinda num relacionamento impreciso com o Professor Girafales), mas nunca deixava de haver solidariedade, apesar das cenas que hoje seriam consideradas politicamente incorretas (professor fumando, vizinho batendo em criança, entre outros). Era muito presente ", afirma o ator Fabiano Augusto, que interpreta Bolaños.  

O ator com experiência nos palcos, que ficou conhecido como o garoto propaganda das Casas Bahia, do bordão "Quer pagar quanto?", divertia-se com outro personagem de Bolaños. "O Chapolin eu achava muito engraçado." 

Na peça, para mostrar que é realmente um palhaço, Bolaños aparece na porta do céu (Palhacéu) para pegar seu "passaporte" na imigração. Mas ele vai vestido com roupas comuns, calça, camisa e suéter, enquanto os demais concorrentes estão travestidos de palhaços dos pés à cabeça. Todos passam a duvidar que Chespirito seja capaz de fazer alguém rir. 

É quando o palhaço Benjamin (Milton Filho), uma espécie de chefe do departamento, permite que Bolaños "prove" ser um palhaço. A partir daí, somos transportados para a velha e conhecida vila do Chaves e inseridos em um mundo familiar, que não cansa nunca. Um episódio "inédito" é interpretado ao vivo. É como se estivéssemos em casa assistindo TV. O público ri alto. Mas aí aparecem, de novo, os palhaços que dão o charme e fazem uma mistura deliciosamente divertida com a turma criada por Chespirito. 

"Tem sido incrível, a reação da plateia é diversificada, mas sempre de muito carinho, principalmente das crianças", afirma Milton Filho. "É um espetáculo com público fiel, rigoroso, e a escolha de misturar os palhaços foi uma aposta arriscada, mas super acertada", afirma. Eu concordo.

O palhaço Benjamin, conta Filho, é uma homenagem ao primeiro palhaço negro do Brasil, Benjamin de Oliveira (1870-1954), que carregava Chaves no sobrenome real e também foi o criador do primeiro circo-teatro. "É uma honra poder prestar uma homenagem a esses dois palhaços brilhantes, de países diferentes: Bolaños e o brasileiro Benjamin."

Os dois atores contam que o encontro com Roberto Gómez Fernández, filho de Bolaños, na estreia da peça, em 23 de agosto, foi emocionante. "Ele é um homem de poucas palavras, mas disse que eu estava parecido com seu pai. E disse que aquele era o dia [da estreia] mais feliz da vida dele. Acho que foi um dos meus também", diz Augusto.

Milton Filho lembra do que disse um responsáveis mexicanos pela peça. "Ele disse que aquela era a peça que o Bolaños teria escrito."

O musical emociona os fãs mais sensíveis e até mesmo quem não acha tanta graça assim em bordões como "isso, isso, isso" e "foi sem querer querendo". 

Ao chegar, o público terá acesso a bonecos em tamanho real dos personagens de Bolaños e a uma pequena exposição com objetos originais, como máquinas de escrever e roteiros.

DESAFIO DE SER BOLAÑOS

Para Fabiano Augusto, interpretar Roberto Gómez Bolaños é um grande desafio. "É uma responsabilidade imensa porque os fãs são fanáticos por Chaves e por Chapolin. Essa é a segunda vez que ele interpreta nos palcos uma pessoa que existe ou existiu. "É sempre desafiador", diz Augusto. Ele interpretou o cantor Ney Matogrosso, em 2014, no musical "Rita Lee Mora ao Lado".

Augusto explica que leu muito sobre Bolaños, apesar do pouco material sobre ele disponível, para poder construir o personagem tão emblemático. "Ele não era um cara doce. Era tímido, fechado e introvertido, enquanto Seu Madruga era mais expansivo. Ele se concentrava demais na atuação ou na direção e passava horas escrevendo. Seus roteiros eram irretocáveis. Por isso tudo, fiquei pensando em como levar essa seriedade para o palco, de ser sério no meio de tanta exuberância. Mas empresto características minhas também e acaba saindo naturalmente. É um Bolaños universal, sem idade, que emociona". 

Mas o personagem de Augusto tem seus momentos de doçura bem explícitos. Um deles é quando criador e criatura se encontram. "Quando Chaves conversa com Bolaños, é tocante", diz Augusto. Outro momento de carinho no palco é quando Augusto canta uma música para Florinda Meza, a Dona Florinda, mulher de Bolaños na vida real. "Era um poema que ele fez para ela que foi musicado na peça. É uma honra poder cantar no palco essa canção que ele não teve a chance de cantar para a Florinda. É uma cena comovente."

Augusto diz que ele e seus companheiros de palco, a qual ele diz admirar a cada apresentação pela seriedade e pelo comprometimento, tiveram apenas um mês e meio para se preparar para o musical, com sete horas de ensaio, seis dias por semana. "Alguns de nós tínhamos outros compromissos de trabalho em paralelo e tivemos que fazer malabarismos para ensaiar. Mas valeu muito a pena o resultado", afirma Augusto. 

Augusto diz que sempre bate um papo com Bolaños antes de entrar no palco. "É uma forma de pedir respeito a uma pessoa que é tão idolatrada."

GAROTO PROPAGANDA

O ator Fabiano Augusto ficou conhecido nacionalmente como garoto propaganda das Casas Bahia, com o bordão"Quer pagar quanto?". "Eu tenho muito carinho por esse trabalho que ainda faço às vezes. Muito do que tenho hoje é graças a esse trabalho e por isso me sinto seguro para estar no palco. Não me preocupo nem um pouco de ficar marcado por ele. Recebo muito carinho e muito respeito das pessoas que lembram do comercial."