Como a música pode cumprir um papel importante em prol da saúde

Foto: Getty Images

Por Fábio de Oliveira, da Agência Einstein

 

 “A música acompanha a história da humanidade”, afirma a pesquisadora Eliseth Leão, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP). “Os registros mais antigos que encontramos de seu emprego com finalidade terapêutica são de 4.500 a.C em papiros médicos egípcios que indicavam sua utilização para a fertilidade da mulher, como também para o tratamento de problemas mentais e emocionais”, diz a especialista. “Todos os grandes filósofos, como Platão, Aristóteles e Pitágoras, também faziam alusão ao uso da música para tratar do corpo e da alma.”

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Já a musicoterapia é uma disciplina nova, mais especificamente de meados do século XX. A pesquisadora, que tem pós-doutorado na área, a define “como a utilização criteriosa da música como recurso complementar no cuidado ao ser humano, em todas as fases do ciclo vital, visando à restauração do equilíbrio e do bem-estar possível”. Ela ajudou a desenhar um estudo em desenvolvimento por neurocientistas no Einstein. Estão sendo analisando os efeitos da música na percepção temporal durante exames de ressonância magnética. Além da ressonância, o hospital dispõe de playlists no Soptify para o Banco de Sangue e o serviço de hemodinâmica. De acordo com Eliseth, a musicoterapia também favorece a comunicação e, em muitos casos, a ampliação da consciência individual no processo saúde-doença. “Portanto, pode ser útil desde a concepção até o suspiro final.”

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Ela pode ser aplicada em agravos à saúde, como Alzheimer, autismo, nos cuidados paliativos, além do manejo e controle da dor, área na qual a pesquisadora tem maior experiência clínica e de pesquisa. “Nesse caso específico, atua por diversos mecanismos fisiológicos e mentais, como a alteração do foco perceptual da dor”, explica. Produz também relaxamento, atuando no ciclo dor-tensão-ansiedade – e, ao quebrá-lo, diminui a sensação dolorosa.

Sessão relax

O relaxamento pode ocorrer devido a um condicionamento prévio, no caso, as experiências do ouvinte, mas também por elementos constituintes da música e que levam o nosso cérebro a um fenômeno de sincronização. “Músicas lentas, com poucas batidas por minuto, levam a uma sincronização com o ato de respirar, com consequente sensação de relaxamento”, diz a especialista. “A musicoterapia ainda desencadeia imagens mentais que se associam a emoções. Por meio de mecanismos psicológicos, elas alteram a percepção da dor”, conta Eliseth. Além disso, promove a alteração de ondas cerebrais e, consequentemente, a liberação de neurotransmissores como as endorfinas, nossos analgésicos naturais.

Por falar em cérebro, ele, em linhas gerais, decodifica os sons por frequências que determinam o que nos dá prazer ou não. “Esse processo envolve o sistema límbico, responsável pelas emoções, as estruturas motoras como tálamo, que responde ao ritmo, e o córtex cerebral, o encarregado pela avaliação do estímulo sonoro”, explica a pesquisadora do IIEP. “O que temos ao final são respostas psicofisiológicas correspondentes ao tipo de estímulo sonoro ofertado.”

Os tipos de música

Daí, vem a pergunta: qualquer estilo musical pode ser usado para fins terapêuticos? Ou isso depende da personalidade da pessoa? “Essa é uma questão sempre polêmica”, diz Eliseth. Segundo ela, muito tem sido dito que as músicas preferidas são as melhores, mas nem sempre é assim. “Às vezes do que o paciente gosta não é o que ele necessita escutar”, conta a especialista. “Costumo dizer que para o indivíduo ouvir o que ele aprecia não precisa de nenhuma orientação especializada.” De acordo com a pesquisadora, utilizar música para cuidar da saúde vai muito além da diversão, que por si só pode também ter alguma ação benéfica. “O que define a escolha de repertório é a finalidade terapêutica para que se possa buscar os elementos musicais com o potencial para alcançá-la. Embora todos usem a música de forma intuitiva, a orientação de um profissional de saúde com expertise nessa área pode ser útil.”

Sons da natureza

Atualmente, Eliseth tem um projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) voltado à utilização das imagens de natureza para uso clínico nos hospitais. “Nessa linha, devemos voltar nosso olhar para os sons da natureza, que ainda são pouco explorados cientificamente”, conta. “No momento estamos conduzindo um ensaio clínico junto aos pacientes em quimioterapia aqui do Einstein. O próximo passo será a utilização dessas imagens em realidade virtual imersiva e, aí sim, teremos a inclusão dos sons naturais.”

Uma flauta de osso de pássaro descoberta em uma caverna da Alemanha foi entalhada há cerca de 35 mil anos e é o mais antigo instrumento musical artesanal já descoberto, o que demonstra que o homem sempre buscou na música uma forma de bem-estar

Fatos históricos

• No século IX a música era parte integrante da medicina nos países árabes. Foi retirada do currículo médico no século XVII. 

• Com o avanço dos estudos farmacológicos, sobre os princípios ativos e seus mecanismos de ação, a música deixou de ser utilizada para fins terapêuticos, sendo retomada somente anos mais tarde na psiquiatria e, posteriormente, em diversas áreas clínicas. 

• A enfermeira britânica Florence Nightingale (1820-1910), considerada uma das fundadoras da moderna enfermagem, falava de seu uso no ambiente hospitalar já em 1859. 

• A enfermeira e musicista americana Harriet Seymour (1867-1944) esteve envolvida com um projeto, o Federal Music Project, na administração do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945). Durante a década de 1930, a inciativa utilizava a música em prisões e hospitais de Nova York. 

• Outra enfermeira, Isa Maud Ilsen, de forma pioneira, lecionou musicoterapia na Universidade de Columbia, também em Nova York, em 1919, visando a preparar músicos para trabalhar em hospitais como terapeutas. Além disso, Ilsen também fundou a Associação Nacional para Música nos Hospitais em 1926 (Davis et al, 1992).

• Embora enfermeiros, médicos, psicólogos e músicos, com especialização específica, atuassem com a música para fins terapêuticos, a formação de musicoterapeutas surge no Brasil somente em 1972, com o primeiro curso de graduação no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, ou seja, quase 30 anos após o primeiro programa acadêmico ter sido criado na Michigan State University, em 1944, nos Estados Unidos.

 

(Fonte: Agência Einstein)