Museu Paulista quer pôr em xeque heróis bandeirantes de suas obras ao reabrir

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda com dois anos para reabertura após reforma, o Museu Paulista vive a discussão revisionista que movimentou a derrubada de estátuas em 2020 e denunciou versos racistas em hinos neste ano de portas fechadas -mas já prevê intervenções para contextualizar as figuras de bandeirantes e a representação de indígenas à luz dos debates contemporâneos que colocam em xeque o heroísmo desses monumentos. A instituição universitária, também conhecida como Museu do Ipiranga, tem pinturas e estátuas que contam a história de São Paulo com símbolos bandeirantes, caso de uma escultura em mármore de Raposo Tavares, e que mostram índios no Brasil como bárbaros ou submissos. Além disso, uma das exposições mais visitadas do museu faz parte do seu eixo monumental, que é tombado. Isso significa que a mostra -que está no salão nobre, percorre as escadarias e chega na tela 'Independência ou Morte', de Pedro Américo- não pode ser alterada. A proposta da equipe de educadores e curadores é que, na reabertura prevista para o bicentenário da Independência, em setembro de 2022, as 54 pinturas e 9 esculturas que estão no eixo monumental sejam acompanhadas de intervenções com textos e vídeos no espaço para contextualizar as produções e provocar as contradições, debates e polêmicas que elas suscitam. "Essas obras foram imaginadas para a reinauguração do edifício no centenário da Independência [em 1922]. A exposição tinha uma finalidade principal, que era narrar a história do Brasil do momento do contato entre as populações indígenas e europeus", conta Paulo Garcez Marins, professor e curador no Museu Paulista. "Essa narrativa tem peculiaridades. Uma delas é que esse processo mostra um protagonismo da história paulista em relação ao resto do país. E uma segunda é que elas hierarquizam essa narrativa, em que as eleites brancas tinham hegemonia em relação a outros agentes da sociedade, e isso aparece em várias dessas obras." Para Garcez, o desafio nesse contexto é fazer com que o público se aproxime desse monumento como um documento sobre 1922. "A gente tem que converter aquilo que era uma visão de memória enaltecedora e hierarquizadora para ser entendida como verdade para algo que desafia o visitante hoje", diz. O curador afirma que o projeto ganha força com a discussão sobre a derrubada de estátuas que aconteceu no último ano, mas que o debate vem acontecendo em São Paulo nos últimos dez anos, já que grande parte dessas obras fazem referência, por exemplo, a nomes bandeirantes. Apesar de estar fechado para os visitantes, o Museu do Ipiranga promove uma programação online para a comemoração dos 467 anos da capital paulista nesta segunda-feira (25). "São Paulo - Território em Construção" apresenta no site do museu a história do desenvolvimento urbano da cidade a partir de mapas, telas e fotografias do acervo da instituição. Neste período de reforma, o Museu Paulista também recebeu grupos em um processo de escuta para repensar suas exposições. Denise Peixoto, historiadora e educadora da instituição, conta que a instituição se reuniu com cerca de vinte grupos de perfis e demandas diferentes -professores, crianças, LGBTs, indígenas, autistas, cegos e monarquistas são alguns deles. Os encontros, além de terem por objetivo se aproximar de grupos sociais diversos, também serviram como material para pensar as intervenções e mudanças no museu. Esse processo envolve também alterações de acessibilidade -segundo Peixoto, haverá mais materiais táteis nos espaços expositivos. "O papel do museu é inserir contextualizar e trazer a crítica. Sim, em certo momento contamos a história dessa maneira, o negro e o índio foram vistos assim, mas essa construção atendia a certos interesses", diz a educadora. Nos materiais que serão incluídos nos espaços, ela exemplifica, haverá informações como a de quantos foram mortos ou escravizados por bandeirantes. Para ela, os encontros são uma tentativa de trazer para o espaço do museu essas outras vozes da sociedade que não contaram a história de São Paulo em 1922. Peixoto conta que, além dos equipamentos multimídias e textuais, que ainda estão em processo de produção, o museu também pretende promover debates em torno de debates contemporâneos. "Obras [de figuras bandeirantes] estão nas entradas, nos edifícios da cidade. O que a gente vai fazer, derrubar a cidade inteira? Temos que enfrentar essa materialidade, discuti-la, superá-la, e torná-la um ponto para que a sociedade se transforme, tome consciência de seus dramas, diversidade, e diferenças", afirma Paulo Garcez. SÃO PAULO - TERRITÓRIO EM CONSTRUÇÃO Link: https://spterritorioemconstrucao.com.br