Museu do Ipiranga reabre e quer questionar o papel e a exaltação dos bandeirantes

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 29.08.2022 - Fachada do Museu do Ipiranga, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 29.08.2022 - Fachada do Museu do Ipiranga, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ladeado por um bronze de dom Pedro 1º, o bandeirante sem nome da tela de Henrique Bernardelli ganha ares de majestade, apoiado no arcabuz e com o braço recostado na cintura como se fosse um monarca do Antigo Regime. Contempla os mármores de outros dois sertanistas -Raposo Tavares, que protege os olhos do sol enquanto mira horizontes sem fim, e o caçador de esmeraldas Fernão Dias, que prestou "serviços imensos à obra do desbravamento", segundo diz a inscrição no pedestal.

Quem sobe as escadarias do Museu do Ipiranga, que reabre na próxima quarta-feira (8) após nove anos fechado, vai encontrando outros desses capitães do mato, homens sempre brancos trajando longas botas, embora a história crave que na realidade fossem caboclos que corriam o sertão descalços.

As datas emolduradas abaixo do nome das províncias marcam os anos em que Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná foram se desmembrando daquela que um dia foi a capitania de São Vicente.

Fica evidente que aquele saguão de entrada conta a história do Brasil a partir da visão dos paulistas. Mesmo quando o Nordeste dá as caras, numa tela sobre a expulsão dos holandeses de Pernambuco, são os bandeirantes que surgem como salvadores e fiadores da unidade nacional.

"É uma visão paulistocêntrica, de como se a civilização brasileira tivesse começado a partir daqui", diz o curador Paulo Garcez Marins, apontando para o projeto expositivo idealizado por Affonso de Taunay no começo do século passado, quando as mesmas elites cafeeiras que abasteceram aquele acervo moldaram para si um passado mitológico, ancorado nesses sertanistas.

Ressalvas como essas, que questionam o imaginário construído pela historiografia, estão por toda a parte no museu agora reaberto. Seja em painéis explicativos ou na disposição de novas peças, a proposta é de refletir sobre a construção de narrativas visuais, mas sem atear fogo a Borba Gato.

Assim, se o saguão de entrada ainda exalta capitães do mato, agora um totem multimídia faz um contraponto e expõe em vídeo a visão de indígenas massacrados e desterrados. Noutra galeria, a ampliação de fotos centenárias sobre a construção de uma estrada permite saber que grande parte da mão de obra daquele trabalho pesado era formada por mulheres. Van Emelen, o retratista belga, ganha uma parede só para ele com um mosaico dos tipos brasileiros que ele pintou.

No Salão Nobre, os sete metros de extensão de "Independência ou Morte", a visão edulcorada de Pedro Américo sobre o Sete de Setembro, ganharam um restauro in loco, sem que a obra deixasse a sala onde está afixada. Saiu o tom arroxeado que o céu sobre dom Pedro ganhou no sesquicentenário da independência e sobrevieram cores mais próximas às da data de sua pintura, em 1888.

Instalada ali à frente, uma tela translúcida que custou cerca de R$ 400 mil exibe um vídeo didático sobre o quadro, destacando os três blocos de personagens retratados -o séquito do imperador com a sua espada empunhada, a guarda real que lança ao chão os emblemas lusitanos do uniforme ao som do grito, e o carro de bois conduzido por um caipira atônito.

Noutra tela, a imperatriz Leopoldina posa ao redor dos filhos, todos crianças, e o marido, tendo ao fundo a baía da Guanabara, ordena com um gesto a retirada da esquadra portuguesa da costa do novo país. Não há nenhuma guerra, não há confronto físico qualquer estampado naquelas imagens, ao contrário do que a iconografia oitocentista consagrou lá fora ao pintar o marco zero de outras nações.

"Essa sala mostra que a ideia era costurar um imaginário de que tudo foi na base dos consensos, de uma história pacífica. Batalhas sempre de palavras, nunca de sangue", diz Garcez Marins, o curador, apontando para o óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva, de 1920, que mostra deputados brasileiros se atracando com os europeus nas Cortes de Lisboa. O único signo bélico vem de Maria Quitéria, a baiana que se fingiu de homem para lutar entre os insurretos contra a metrópole lusitana.

Garcez Marins diz que a nova cara do museu ligado à Universidade de São Paulo busca superar a fama de "uma ilustração das aulas de história", e que isso fica evidente nas "exposições não enciclopédicas" que despontam no espaço reaberto, com complemento de 70 materiais audiovisuais e mais de 300 recursos táteis para pessoas cegas.

Cerca de 3.700 itens -de um acervo que abriga em torno de 450 mil- estão dispostos em 12 circuitos, divididos em dois eixos. Um deles busca destrinchar a sociedade brasileira a partir de aspectos como território, cotidiano e trabalho, e o outro se volta a explicar a própria instituição e seu ciclo curatorial de aquisição de objetos, catalogação e conservação.

"Esse museu foi criado como um memorial das elites, mas estamos nos abrindo para mostrar que a nossa sociedade é mais complexa", afirma o curador.

As louças brasonadas doadas por famílias quatrocentonas há mais de cem anos agora ganham a companhia de conjuntos de pratos e copos marrons da Duralex, onipresentes nas casas da classe média por volta dos anos 1980.

Bibelôs de porcelana convivem com brinquedos de lata que perderam espaço para seus congêneres de plástico ao longo das décadas. E uma sala faz uma reunião de rótulos de produtos de tempos imemoriais, caso da pomada Minancora, do chocolate branco Galak, de um precursor do Guaraná Antarctica, do logotipo do Mappin.

De volta ao saguão de entrada, entre as ânforas que guardam as águas dos rios de todas as bacias hidrográficas do país, colunas jônicas pintadas em amarelo ocre e as novíssimas escadas rolantes, o barulho não para. São os funcionários da obra, indo de lá para cá, descerrando telas, fazendo retoques no piso, trabalhando a fiação e cerrando madeira.

Às dezenas, eles labutam sob o olhar atento de uma pintura do cacique Tibiriçá, o tupiniquim que teria abandonado as crenças de seu povo para ser batizado pelos jesuítas e ajudar os portugueses a conquistar o planalto paulista.

MUSEU DO IPIRANGA

Quando Ter. a dom., das 11h às 16h (horários válidos para o mês de setembro); a partir de 8/9

Onde R. dos Patriotas, 100, São Paulo

Preço Grátis até 6/11

Ingressos Disponíveis via agendamento a partir de 5/9, no site www.museudoipiranga.org.br