Muricy revela bastidores do Tri em 2010, Diguinho 'na seleção' e fico no Fluminense 'Não ia dormir direito'

Marcello Neves e Rafael Oliveira
·5 minuto de leitura

A torcida do Fluminense canta “o guerreiro que ficou para ganhar o Brasileiro” para enaltecer Muricy Ramalho. Após ser dominante com o São Paulo, o treinador decidiu ir para o Fluminense e marcou seu nome na história do clube ao conquistar o torneio em 2010. Dez anos depois, ele relembra ao GLOBO os fatos marcantes do tri, o “não” à seleção brasileira, a idolatria a Darío Conca e as polêmicas sobre a sua saída.

Vê semelhanças entre aquele Flu e o São Paulo tricampeão?

O perfil dos jogadores que eu tinha no São Paulo era parecido com os do Fluminense. Muito físico e forte. O São Paulo tinha facilidade no 3-5-2 e, mesmo sem mudar jogadores, mudava o esquema de jogo. Time que que ser campeão, tem que ter alguma coisa diferente.

Lembra a negociação com o Fluminense em 2010?

Um ano antes, o Celso (Barros, presidente da Unimed, patrocinadora master) tentou me levar, mas tinha contrato com o São Paulo. Eu disse ‘se quer, vem e marcamos algo’. Fomos na quadra do Rivellino, tomamos cerveja e comemos churrasco. Ele falou que não podia me levar, mas um dia iria. Quando sai do Palmeiras, veio a proposta. Falei que queria um contrato curto, de três meses.

Três meses?

Não me apego a ficar preso nos contratos. Não achava legal fazer isso com o Fluminense. Foi um casamento muito rápido. Eu gostei demais e eles também. Depois veio o contrato de dois anos.

Até que ponto a recusa à seleção brasileira foi uma escolha sua ou dificuldade imposta pelo Fluminense?

O Fluminense me chamou para um projeto longo. Falaram que iam melhorar a estrutura. Disse que estava tudo certo e íamos acertar. Meu procurador ia colocar tudo no papel, mas estava tudo acertado com o Celso e o (Roberto) Horcades. E logo que aconteceu isso, nós ganhamos do Cruzeiro e assumimos a liderança. Nessa semana, tinha dado a palavra ao Fluminense e, no mesmo dia o rapaz da CBF fez o convite. “O presidente Ricardo Teixeira quer conversar com você amanhã". Eu morava em Ipanema e aceitei. Ele marcou em um clube de golfe, mas tinha um torneio no dia e os tricolores me viram. Ficamos 3h30 conversando e eles já estavam pensando em Neymar, Ganso, essa turma nova. No final da conversa, ele fez a pergunta se eu iria assinar até a Copa do Mundo. Falei que ia ficar no Fluminense e ele ficou assustado. Ele não acreditou. Eu achei que ele tinha que conversar com o pessoal do Fluminense antes. Tudo isso para mim pesa. Se eu fosse para a seleção e largasse o Fluminense, não ia dormir e trabalhar direito. Pessoal falou que eu era louco, que aquilo não era normal. Mas não posso passar por cima das pessoas.

O ‘não’ fechou as portas na seleção?

Não sei, mas para mim não interessa. Meu planejamento era esse. Tive vários treinadores, Telê, Minelli, que tinham essa linha. Mas não fui convidado depois.

Como foi contar para o elenco que você ficou?

Eles ficaram surpresos. Quando cheguei no treinamento a tarde, eles não acreditavam. Eu brinquei com o Diguinho, falei ‘aconteceu um problema sério entre eu e o presidente da CBF: eu ia se você fosse convocado. Se não, não ia aceitar o convite’. Aí foi aquela risada toda. Nosso time já estava forte, depois ficou mais. Eles pensam ‘ele largou a seleção para ficar aqui’, agora vamos correr mais.

O Fred foi criticado por sua vida extracampo. Como foi administrar?

Na minha estreia, fui para a preleção e fui avisado que o Fred iria operar. Temos que nos aproximar das pessoas para saber o que está acontecendo. O Fred morava perto da minha casa. Tenho o costume de fazer exercício todo dia de manhã. e via ele quase todos os dias treinando na praia. Eu não me preocupo com o que ele está fazendo fora do campo desde que não prejudique o time. Ele foi um cara que sempre treinou muito e se esforçava no dia a dia.

Qual o tamanho do Conca neste título brasileiro?

O Conca foi brincadeira. Sem duvidas, um dos melhores profissionais com quem trabalhei no futebol pela pessoa que ele é. Diferenciado demais como pessoa, como caráter. Ele era muito profissional. Ele jogar o que jogou, não se machucar, não reclamar de nada. Esse tipo de pessoa só pode dar no que deu. Treinava demais. De vez em quando escrevo para ele, a gente se fala. Conca não é muito de estar falando, de fazer churrasco. Um cara educado com todo mundo. Em 2010 ele era o cara. O Conca tem uma liderança de treinar, jogar e mostrar que é profissional. Os jogadores olham ele se dedicando, treinando. O Rogério (Ceni, no São Paulo), por exemplo, era mais de falar, organizar, cobrar.

E o Deco?

Me ofereceram o Deco. Fiquei muito próximo do Celso Barros, tinha uma liberdade muito grande com eles. Surgiu a oportunidade. Falei ‘traz correndo, quem não gostaria de ter?’. Jogou na Europa, na seleção de Portugal. Eu achava muito difícil, porque ele estava no Chelsea e pensava na diferença de salário. Fiquei meio em dúvida se ele viria.

Por que saiu?

Eles disseram que a estrutura ia começar a melhorar. Mas o Fluminense não tinha o pensamento e o dinheiro para ficar fazendo CT e essas coisas todas. Fizemos algumas adaptações. Nosso período integral era treinar de manhã, ir para o hotel, descansava e treinava a tarde. Fizemos uma reforma no vestiário. Os jogadores entravam com chuteira com barro. Nunca perdemos treino por falta de estrutura. O motivo para sair foi que tínhamos uma equipe de trabalho, fizemos uma equipe. Sou um tipo de treinador que não levava um ônibus junto comigo. Mantive a maioria das pessoas do próprio clube. Mudou a presidência e começou a tirar todos. Tirou o Alexandre (Bittencourt, assessor de imprensa), o diretor de futebol, e você começa a desmontar uma estrutura que estava dando certo. Falei que ia rescindir porque estavam saindo todas as pessoas que ganharam lá.

Teve a história dos ratos?

Eu não inventei, o rato caiu em cima da imprensa. A imprensa que viu. (Os dirigentes) Aproveitaram o embalo e colocaram isso (como motivo). O motivo foram as pessoas. Trocar todas as pessoas. Já tinham um entrosamento comigo bastante forte. A estrutura era o de menos porque fui campeão com o que eu cheguei.