Mural de Keith Haring achado em São Paulo lembra seu caso de amor com o país

JOÃO PERASSOLO
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando foi redescoberta há cerca de quatro anos, uma pintura esquecida numa parede de um galpão que funcionava como um centro de distribuição de carnes no bairro da Lapa, em São Paulo, se revelou uma obra de um dos mais populares artistas de rua das últimas décadas. Sobre um triângulo preto de pouco mais de dois metros por um metro e meio, o americano Keith Haring pintou, com tinta branca, uma espécie de robô com patas de caranguejo, da cabeça do qual saem diversas silhuetas de formas humanas alongadas, como se fossem fantasmas evaporando. Feito em 1984, um ano após a comentada participação de Haring na Bienal de São Paulo, e quando o artista estava em ascensão, o mural no atual centro cultural Tendal da Lapa acaba de passar por um restauro que devolveu a ele a aparência original sem o deixar com cara de novo, afirma o restaurador responsável pelo trabalho, Julio Moraes. A renovação do trabalho de Haring, um dos principais responsáveis por fazer galerias e museus valorizarem pinceladas feitas originalmente em muros e vagões de metrô, é o mais novo capítulo de uma série de restaurações de obras semelhantes do artista pelo mundo. De 2013 para cá, grafites públicos de grandes dimensões assinados pelo artista -alguns feitos com tintas que sofrem bastante com as intempéries ao ar livre- foram ou estão sendo recuperados em Paris, Nova York, Amsterdã e até num vilarejo de pescadores em Serra Grande, no litoral baiano, onde Haring passava temporadas na casa de seu amigo Kenny Scharf. "O trabalho dele tem um frescor. É algo muito positivo e de afirmação da vida. Você não pode pintar por cima, é Keith Haring, é preciso restaurar", diz o autor Simon Doonan, que acaba de lançar no mercado de língua inglesa uma breve biografia sobre o artista, chamada só "Keith Haring", ainda sem previsão de publicação no Brasil. Quando as novas gerações descobrirem o trabalho de Haring, vão se perguntar quem é ele, "não vão pensar 'esse cara está morto há 40 anos', vão pensar que ele é relevante agora", acrescenta Doonan. Isso porque Haring -morto aos 31 anos, em 1990, por complicações do vírus da Aids-, era um artista ativista, e a arte passa nos últimos tempos por um processo de recuperação de seu engajamento social, depois de atravessar a década de 1990 mais preocupada com o prestígio e o elitismo de grandes feiras tipo a Art Basel, argumenta o autor. "Haring tinha um tino para pegar grandes questões, temas muito pesados, e os tornar suportáveis de alguma forma, inteligíveis e humanos para as pessoas", afirma. Doonan dá como exemplos dessa acessibilidade o famoso painel "Crack Is Whack", recém-restaurado no Harlem, em Nova York, que fazia referência à epidemia de crack na cidade, e os pôsteres com desenhos divertidos de pênis e camisinhas, divulgados pelo artista como forma de chamar a atenção para a Aids, à época uma doença sem tratamento e que vitimou boa parte de seu círculo. A preservação ao longo das décadas do mural do Tendal da Lapa se deveu em parte pelo fato de a obra estar num lugar fechado, segundo o restaurador. A mesma sorte não tiveram diversos outros trabalhos de Haring em São Paulo. O grande painel sem título que ele desenhou numa parede dentro do pavilhão da Bienal desapareceu -a Fundação Bienal de São Paulo diz acreditar que a obra foi destruída ao final daquela edição do evento. Um outro muro no Sumaré, que trazia em vermelho suas tradicionais figuras humanas dançantes e um cão, foi apagado. Por outro lado, foram recuperados há alguns anos uma pintura de peixinhos azuis feita pelo artista no chão de uma cabana a poucos passos do mar de Serra Grande, na Bahia, e um desenho na casa de um pescador do vilarejo. O processo foi registrado no documentário "Restless - Keith Haring na Bahia". O pouco caso brasileiro com parte da obra de um artista que seria convidado a pintar paredes em vários países do mundo nos anos seguintes, inclusive no Muro de Berlim, é curioso se comparado ao zelo dedicado hoje, pelo Reino Unido, aos grafites do britânico Banksy, o maior nome contemporâneo da arte de rua. Em dezembro de 2019, após um grafite de Banksy em Birmingham versando sobre os moradores de rua sofrer uma intervenção de um homem que jogou tinta spray vermelha nos narizes dos veados representados na obra, funcionários da companhia de trens do Reino Unido instalaram imediatamente um vidro protetor sobre o trabalho. Se a percepção da arte de rua mudou para melhor durante as últimas décadas, a exemplo da valorização do grafite pelo mercado -tão bem representado pelos valores astronômicos das obras de Banksy em leilões e pelo sucesso da atual da mostra da dupla Osgêmeos na Pinacoteca do Estado, em São Paulo-, o assunto de boa parte desses trabalhos segue o mesmo, assim como a sua habilidade de se comunicar com o público. "Definitivamente existe uma linha que liga Banksy e Keith Haring -ambos tematizam a justiça social, ambos são muito relacionáveis. Você entende imediatamente para o que está olhando, não há enigma, a mensagem é muito clara nos dois", diz Doonan. A grande diferença é que Haring não queria ser anônimo como Banksy, acrescenta o autor. Ele desejava ser reconhecido, fotografado e andar com os pop stars -Haring esteve no casamento de Madonna e Sean Penn e era amigo de Andy Warhol. "Ele tinha um prazer muito doce e infantil com a sua celebridade. Ele sempre parecia muito feliz." * KEITH HARING E A FAMA - Discípulo e amigo do artista pop Andy Warhol, Keith Haring sabia comunicar sua imagem e usar isso para vender obras. "Ele era honesto e direto, muito fácil de se aproximar, uma celebridade com quem você se relaciona", diz Simon Doonan, autor da biografia do artista - A figura do artista plástico celebridade -uma tendência impulsionada por Andy Warhol- se dava em oposição ao caráter reticente e mais fechado da geração do expressionismo abstrato do fim dos anos 1950, encarnados por Jackson Pollock e Robert Rauschenberg - Antes de ser convidado para expor nos principais museus da Europa, Haring fez seu nome desenhando com giz no metrô de Nova York; sua popularidade só aumentou quando abriu uma loja onde vendia camisetas e bottons com suas figuras de bebês radiantes, televisores e homens com buracos no peito KEITH HARING Preço US$ 17, cerca de R$ 99; 128 páginas Autor Simon Doonan Editora Laurence King