Munch e Kokoschka, um diálogo degenerado em Paris

A partir desta semana, Paris terá duas grandes exposições sobre a chamada arte degenerada, apelido que os nazistas deram às obras que sacudiram o mundo da pintura, lideradas pelo norueguês Edvard Munch e pelo austríaco Oskar Kokoschka.

Em ambos os casos, os rótulos restringiram a verdadeira dimensão de sua arte.

"Você pode ser famoso e, ao mesmo tempo, desconhecido", diz o comunicado de imprensa da exposição sobre Munch, inaugurada na terça-feira (20) e aberta até 22 de janeiro no Musée d'Orsay.

Herdeiro da força expressiva de Vincent Van Gogh, Munch (1863-1944) causou escândalo com sua visão da vida burguesa como um palco perturbador, em que personagens, muitas vezes cadavéricos, vagam na mais absoluta solidão, ou com expressões agonizantes.

Sua obra mais conhecida é "O Grito" (1893), uma pintura que rompe abruptamente com o impressionismo, ou realismo, do final do século XIX e contribui para precipitar a chegada da modernidade no mundo da arte.

Munch começou a expor em seu país natal aos 20 anos. Em 1886, quatro de suas pinturas causaram escândalo, e amigos escritores tiveram de sair em sua defesa. Apenas seis anos depois, outra exposição em Berlim teve de ser encerrada às pressas, devido aos protestos de alguns visitantes, desconcertados com a morbidez das telas.

- Um poema de vida, amor e morte -

Munch perdeu a mãe e uma irmã mais velha quando criança e lutou a vida inteira contra a depressão. Via sua obra como um "poema de vida, amor e morte", uma grande "fronteira", na qual esses temas se entrelaçariam permanentemente.

"A fronteira da vida foi pensada como uma série coerente de imagens", explicou ele em 1919.

"Era importante mostrar nesta exposição até que ponto Munch pensava em 'O Grito' não como uma obra isolada, mas como parte de um ciclo", disse à AFP a curadora da exposição, Claire Bernardi.

Apesar dessa visão geral de Munch, muitas de suas obras foram percebidas como um verdadeiro tapa pictórico.

É o caso de sua "Madonna" (1895), ou a mulher "vampira", que ele pintou naquele ano, uma impressionante versão pictórica do mito.

A exposição do Musée d'Orsay apresenta quase 100 obras, entre pinturas, gravuras e litografias, em ordem cronológica.

Munch viveu para ver suas obras confiscadas pelos nazistas, tanto na Alemanha quanto na Noruega.  Um destino que ele compartilhou com Oskar Kokoscha (1886-1980). A retrospectiva deste último abre sexta-feira (23) no Museu de Arte Moderna e é a mais importante apresentada até hoje em Paris.

Kokoschka também abala a sociedade vienense na virada do século com retratos perturbadores.

"Não procura representar a pessoa de forma convencional, oferecer uma imagem lisonjeira, mas mostrar sua vida interior", explica à AFP a curadora da exposição, Fanny Schulmann.

Na Alemanha, essa tendência é chamada de "expressionismo", uma escola na qual Kokoscha se juntará de bom grado. Alguns de seus clientes rejeitarão seus trabalhos, como o Dr. Auguste Forel, que acredita que seu retrato de 1910 está mais relacionado à psiquiatria do que à pintura.

Os críticos chamam Kokoschka de "fauve" ("selvagem"), e ele reage raspando a cabeça.

Ao contrário de Munch, porém, Kokoscha se encontra no olho do furacão, no coração do nacional-socialismo. Na década de 1930, os nazistas confiscaram mais de 400 de suas obras.

Algumas são destruídas; outras, vendidas cinicamente na Suíça para arrecadar fundos; e outras fazem parte de uma exposição para tirar sarro desses artistas.

Kokoschka contra-ataca, retratando-se como um "artista degenerado" e se engajando politicamente. Em 1937, denuncia o bombardeio de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola com um pôster.

O original será exposto no Museu Guggenheim de Bilbao, que receberá a exposição depois de Paris, com mais de uma centena de obras.

Kokoscha morre quase quatro décadas depois de Munch, mas não esquece de homenageá-lo em um ensaio em 1957. Munch "não fechou os olhos para o inferno moderno", proclama o artista austríaco.

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