Mulheres vítimas de violência conquistam emprego no Senado em programa que reserva 2% das vagas

Julia Lindner
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Jorge William / Agência O Globo

BRASÍLIA — A cearense L.L, de 41 anos, foi estuprada quando criança por parentes e agredida pelo então companheiro durante parte da adolescência e vida adulta. Após se divorciar, teve a casa arrombada, perdeu parte do patrimônio e foi golpeada com dois socos pelo ex-marido, na frente da filha. Ao todo, foram mais de 30 anos de violência.

Atualmente, ela trabalha no Senado em um programa que garante 2% das vagas em cargos terceirizados a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Em carta enviada à diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, no ano passado, L.L afirma que o programa mudou a sua vida.

"Hoje, não informo a quase ninguém onde moro. Aos poucos, compro os bens que perdi. Estou reconstruindo a minha vida. Histórias como a minha são difíceis de contar, mas é importante compartilhar. Muitas mulheres não conseguem superar esse trauma. Temos que seguir em frente", diz a mensagem.

"Perdoe-me por escrever essa longa mensagem. Gostaria que a senhora entendesse como esse emprego é importante para mim, o quanto eu sou grata por essa oportunidade. Minha vida mudou", afirma L.L em outro trecho.

A ação do Senado que reserva parte das vagas a vítimas de violência ocorre em cooperação com o governo do Distrito Federal. O programa também teve aderência em Assembleias Legislativas de pelo menos cinco Estados - Maranhão, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, São Paulo e Goiás, além do próprio DF.

Nos últimos anos, o Senado ganhou protagonismo em medidas na área de direitos humanos. Em 2019, lançou o Plano de Equidade de Gênero e Raça. Entre as medidas, está realizar o levantamento dos casos de assédio moral e sexual na Casa e estimular as denúncias, o que não estava previsto formalmente antes.

Com isso, foram registrados 64 casos de assédio moral e sexual apenas em 2019, dos quais 21 geraram denúncias formais. Antes, o levantamento não era feito.

Participantes

Aos 33 anos, Q.T.S tem quatro filhos e passou por dois casamentos violentos. No primeiro, chegou a denunciar o agressor e nada aconteceu. No segundo, foi amparada pela Secretaria da Mulher do Distrito Federal e pelo Ministério Público, que a encaminharam para receber acompanhamento psicológico e participar da entrevista de emprego no Senado. Logo depois, conquistou o seu primeiro trabalho com carteira assinada.

Além das agressões diárias, os ex-companheiros impediam Q.T.S de estudar, trabalhar, frequentar a academia, manter amizades que não aprovassem ou mesmo ter acesso ao celular e à internet.

— Eu passei muito tempo nessa vida, saí de um casamento tóxico e já entrei em outro, então eu ficava naquele mundinho, conformada. Só depois dessa oportunidade fui ter a dimensão do eu passava. Minha vida mudou quase 100%, porque antes eu estava presa - relatou Q.T.S ao GLOBO.

— Você passa a conhecer o mundo, percebe que pode sair daquilo, conhecer coisas novas, ser feliz, isso para mim foi muito gratificante. Acima de tudo, por ter tido coragem de sair daquele ciclo — acrescentou.

A servidora J.C.A, de 40 anos, que atua na área da limpeza no Senado, conheceu o programa do Senado de suporte a vítimas de violência após fazer uma denúncia contra o ex-companheiro por anos de violência doméstica. Como ela era desempregada e dependia financeiramente do então marido, constantemente era humilhada e ficava sem ter o que comer.

— Na minha situação, eu só via que tinha que sair daquilo ali. Para mim, se eu ia morrer não importava, só tinha que sair daquilo, porque se eu não saísse iria morrer mais rápido lá dentro. Ele (ex-marido) consumia álcool e poderia me estrangular. Diziam 'ah, ele não tem arma', mas ele tinha faca em casa, tinha as duas mãos, tudo isso pode ser usado contra outra pessoa — disse.

Ao GLOBO, a diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, afirmou que o programa é importante para que as mulheres possam ter independência econômica e sair do ciclo de violência.

— Nós sabemos que não é apenas a independência econômica que consegue afastar o ciclo da violência. Sabemos também que aquelas que não têm essa independência seguem presas muitas vezes aos agressores. Por outro lado, ao trazer a violência doméstica para dentro da nossa instituição, percebemos que a convivência com esse tema tão importante e fundamental deixasse de ser algo distante e passasse a ser a realidade de pessoas que estão conosco — declarou Ilana.

O ato da Mesa Diretora do Senado que estabeleceu o programa é de 2016. Na ocasião, o documento afirmava que "é dever do Estado desenvolver políticas públicas que visem garantir os direitos humanos das mulheres, para resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

Em agosto de 2019, o Senado aprovou um projeto de lei que obriga empresas prestadoras de serviço a terceiros com 100 ou mais empregados a preencher no mínimo 5% das vagas com mulheres em situação de violência doméstica e familiar ou em situação de vulnerabilidade social. A proposta está parada na Câmara dos Deputados desde então.